Por Victor Naia

Há muito tempo o olhar do estrangeiro sobre nosso País, tem chamado minha atenção; e em especial a trajetória de Stephan Zweig que nos idos de 1930 aqui esteve, embora de passagem, vindo posteriormente residir aqui por vontade própria, ao contrário de outros escritores que aqui vieram por falta de opção ou oportunidade de irem a outros países, especialmente aos Estados Unidos.

Em 1936, o escritor judeu austríaco Stefan Zweig visita o Brasil pela primeira vez. Período em que a Europa vive, naquele momento, as vésperas da Segunda Guerra Mundial, na qual ele ainda não acreditava.

Viaja à América do Sul para fazer conferências, cheio de convicções humanistas, pacifistas, internacionalistas, de tolerância política e de convivência social. Seu pacifismo é inegável além de ser integral e intransigente.

Ao chegar, entusiasma-se logo com a acolhida dos brasileiros aos estrangeiros. Pode se verificar que havia uma visão de que a receptividade era calorosa e de uma maneira gentil tudo era feito de forma que houvesse facilidade no sentido de atender os desejos dos visitantes, ou seja passava-se a impressão de que éramos um povo de boa índole.

Seus livros são queimados em Berlim em 1938, em praça pública. Stefan Zweig, depois de perder a nacionalidade austríaca e a esperança, amedrontado, pede a nacionalidade britânica, ao mesmo tempo em que solicita ao governo do Brasil (cujo chefe de Estado é o ditador Getúlio Vargas) para vir morar no país que o acolhera tão bem, pouco tempo antes. Um dos representantes mais ilustres de uma geração que vivenciou uma virada de século cheia de esperanças, de crescimento e desenvolvimento tecnológico e científico, e viu a própria humanidade destruir a fé e suas esperanças em duas guerras mundiais.

Foi um dos poucos autores austríacos a alcançar grande êxito com suas obras em todo o mundo ainda com vida. Muitas de suas obras foram editadas no Brasil, na Argentina, na América do Norte, na Rússia e muitos países da Europa. No período entre-guerras, o autor conseguiu reconhecimento como biógrafo, novelista, poeta, ensaísta, e em 1939 como romancista.

                                                                                     O Paraíso dos Conquistadores

Os homens sonharam com terras ideais, países imaginados por filósofos, pensadores, romancistas, pintores, arquitetos e, hoje, cineastas e pro-fissionais da mídia.

É a época das grandes descobertas, da chegada dos europeus nas Américas. Cristóvão Colombo, por ocasião do descobrimento do Novo Mundo, que ele

pensava ser o paraíso, supunha que os homens ali teriam a oportunidade de se regenerar, enquanto aguardavam o juízo final.

Na carta de Pero Vaz de Caminha, o Brasil é descrito de maneira idealizada, e isso se reproduz, ao longo da história do país, pelos diferentes viajantes que o visitam, sendo uma prática entre os visitantes que aqui chegaram

A visão totalmente romântica do Brasil, contando até com a cumplicidade entre a natureza e os sentimentos de um povo inteiro, que corresponderia à paisagem em seus modos e costumes, naquele momento, textos polêmicos e críticos contra o governo, num momento bastante difícil era o que se vivia no país.

A imagem de um Brasil idealizado, visto como um paraíso, não cai num bom momento. Dessa forma Zweig é rejeitado e recusado pelo mesmo público que lhe dera, tanto a ele quanto a sua obra, uma acolhida tão generosa e entusiasta, em 1936. Ofendidos pela edição de um livro glorificando o país que eles consideram vendido, escrito para bajular um ditador de direita, cheio de clichês e de informações erradas sobre o Brasil, intelectuais e artistas se afastam do autor. Muitos o censuram por ter vendido a obra em troca do visto de permanência, assim é visto sua obra.

Dessa forma torna-se deprimido, isolado em Petrópolis, abalado por ver a Segunda Guerra destruir seus sonhos de humanismo e de Europa pacificada, considerando a cultura europeia perdida

Na verdade, é necessário tentar verificar em que sentido o imaginário e o real se confundem nessa visão idealizada do Brasil. Para Zweig à morte do Velho Mundo, envenenado por suas próprias teorias racistas, deterministas e violentas, corresponde o futuro proposto pela cultura mestiça brasileira.

Desde 1936, ocasião da primeira visita de Zweig, o autor se apaixona pela cultura brasileira, suas festas, sua mestiçagem, sua mistura de melancolia e alegria de viver, fatores que ele considera a única reação possível às catástrofes morais e materiais que deram origem à Segunda Guerra Mundial. O Brasil, segundo ele, significaria a única salvação possível para a humanidade, já que um país voltado para o futuro, virgem das maldições do Velho Mundo…

Brasil seria, para o autor, uma recriação da Europa, uma adaptação, espécie de laboratório de experiências de suas ideias e teorias em outras terras, miscigenadas com outros povos, outras raças, em outro clima. Acredita que o país criara uma nova forma de civilização e essa recriação pode ser confirmada quando escreve sobre a lavagem do Bonfim, na Bahia, onde afirma que esse seria o mistério da Bahia: o fato de que, desde os antepassados, a religião se mistura ao prazer de forma tão misteriosa, em que velhos ritos africanos cruentos se mesclam de forma curiosa com um fanatismo católico.

Afirma sobre a existência do Brasil, cujo único desejo é a construção pacífica, que repousam nossas maiores esperanças de uma civilização futura e de pacificação do nosso mundo devastado pelo ódio e pela loucura.

O carnaval, nessa perspectiva, seria significativo dessa cultura mestiça, sem preocupação, nem com o passado, nem com o futuro.

Acredita que seria enganoso pensar que os cariocas fiquem esgotados com o calor: ao contrário, até parece que esse calor acumulado leva a uma explosão dos impulsos que ocorre com regularidade no carnaval.

Todo mundo sabe que o carnaval do Rio não tem par no nosso mundo tão obscurecido pela tristeza, em termos de excesso de alegria e entusiasmo. Durante meses, todos poupam e ensaiam, pois cada ano o carnaval traz novos sambas e novas danças. E como o carnaval é uma festa democrática, uma explosão de prazer, uma manifestação de alegria de toda a população, escutam esses sambas já que o país inventa uma nova forma de civilização.

Quando finalmente o calendário permite, os estabelecimentos comerciais fecham por três dias, e é como se a cidade inteira tivesse sido picada por uma tarântula gigantesca. Todos vivem nas ruas, dança-se e canta-se até tarde da noite, e tocam-se todos os tipos imagináveis de instrumentos. Todas as diferenças sociais são abolidas, estranhos caminham abraçados, todos falam com todos, e gradualmente essa animação recíproca se exalta e chega a um tipo de loucura; veem-se pessoas exaustas deitadas nas calçadas sem que tivessem bebido uma só gota de álcool, apenas se extenuaram de tanto dançar e cantar. Mas o mais curioso, o mais tipicamente brasileiro é que, mesmo nesses êxtases, as pessoas, inclusive das camadas mais baixas, não perdem seu espírito de humanidade; apesar da liberdade de usar máscaras, não acontecem brutalidades ou inconveniências, em meio a uma multidão que dança infantilmente. Gritar até não poder mais, dançar até não aguentar mais, poder se livrar mais uma vez de maneira orgiástica da discrição, do comedimento, é como um daqueles temporais de verão. Depois, volta o comportamento tranquilo, a cidade volta à sua ordem.

Apesar de não falar explicitamente da ditadura, ele apresenta o carnaval como um momento de compensação do sistema repressivo em que vivem os brasileiros, no início dos anos 40. Seriam três dias de descontração, de liberação, em que o sistema é invertido em que as regras são abolidas. Finda a festa, tudo volta à ordem, a sociedade retoma seu controle e as leis se instalam novamente. Seria um intervalo, para que o povo, vivendo sob o controle rígido de um regime repressivo, possa aguentar e sobreviver.

É possível observar, também, uma insistência em falar da cordialidade do brasileiro, sempre equilibrado, sem nunca perder a medida.

A relação de Zweig com o Brasil foi marcada pela contradição entre a

existência de um país que traz na sua história e realidade traços da multiplicidade das raças, classes e religiões que o formam, mas, apesar disso,

sempre preservou liberdade e paz como valores maiores, e a realidade européia de ódios e intolerâncias, a partir da ascensão do nacional-socialismo.

Acredita-se que o exílio em um país com outra língua e outra cultura é para o exilado um confronto com tudo o que lhe é estranho. Os autores, especialmente eles, cujo objeto de trabalho é a língua, e que durante os anos 30 foram obrigados a fugir tiveram muitos obstáculos com o processo de adaptação social e cultural ao novo meio.

Engloba desde a adaptação física, ao clima diferente, alimentação, condições de trabalho e sustento, até a adaptação social, aos valores da sociedade, à nova língua, à religião aos novos amigos e a adaptação subjetiva, a identificação do ser humano com a realidade que o cerca.

Pode-se observar que até na descrição que parte da observação física e depois passa para o caráter psicológico do tipo brasileiro há uma tentativa criação de um mito. Na Europa perderam seu público, seus editores e a própria língua materna, vivenciaram o exílio de diferentes maneiras. O processo de aculturação, termo que define a atitude do ensaísta: ele se comporta como um observador, o que se revela pela forma impessoal do relato, pela construção de frases, pelos verbos haver e existir que aparecem constantemente, pelas conjugações utilizadas. Mas revela-se também através de muitas expressões e comparações em que deixa claro estar se excluindo deste universo descrito.

Essa maneira usada, pode denotar a posição apenas de observador, com uma cultura e realidade distante ou apenas diferente da realidade vivida.

A Europa é uma zona superpovoada, e o Brasil representa-se como em outros momentos do passado uma solução para esse fato. A imagem do Brasil construída pelo autor é a do espaço ideal. A sensação da imensidão do território ainda pouco explorado e com potencialidades múltiplas, o desenvolvimento face à realidade européia baseado na preservação da paz e da liberdade e a esperança de uma nova civilização, transformam o Brasil real no espaço idealizado pelo homem europeu.

Se compararmos a outros países e à Europa durante a Segunda Guerra, o Brasil é visto como um país privilegiado, onde o homem europeu ainda pode ser homem, fazer parte de uma nova civilização.

A natureza é também a riqueza deste país, a visão do desenvolvimento

econômico do Brasil apresentada pelo narrador onde a riqueza está no espaço natural, na possibilidade de mudanças constantes.

Se Zweig se atém, independentemente da realidade social e política brasileira, a uma imagem paradisíaca e fantasiosa do Brasil, é porque esta imagem constitui uma metáfora expressiva do seu anseio pela paz e união, pela convivência pacífica dos seres humanos nas suas diferenças, como seres naturais. Como humanista trouxe a ideia de tolerância, permite a todas as

religiões livre ação, possibilita a todas as artes fecundo desenvolvimento, e mesmo os velhos colonos não podem queixar-se de violência.

De acordo com Carvalho o olhar de Zweig sobre Brasil é um olhar de fora, carregado de sentidos e pré-noções, olhar do viajante que percorre o mundo, e põe em ordem o que vê. A representação do outro se constrói pelos parâmetros do marco identitário de referência.

Assim o Brasil representado é tudo o que a Europa, o ponto de partida do autor, não é, aquilo que é diferente do seu mundo conhecido. A representação se constrói sob a diferença, instaurando um discurso da alteridade.

As apreciações do autor sobre o Brasil são expressas e realizadas a partir de outro referencial que seria o Brasil vivido pelo autor onde a solidão e o distanciamento da sua realidade tornam-se opressivos.

Conclusão

Zweig quer mostrar o país como um exemplo a Europa, elogiando seu povo, sua tolerância no sentido da convivência , ou seja sua humanidade além de suas potencialidades, sem se permitir olhar a cultua indígena, uma vez que elogia os jesuítas como sendo eles os elementos que eliminaram o paganismo, permitindo dessa maneira que suas almas fossem salvas pela bondade da fé católica, chegando mesmo a defender a liderança aqui instalada que não permitiram a infiltração dos elementos protestantes.

Não se pode deixar de perceber que embora fosse um exilado, sua visão

de homem representante da cultura europeia transparece no tocante às questões raciais.

Apesar e talvez por sua condição de refugiado, na ânsia de encontrar um porto seguro, ele não se permitiu ver todas as mazelas e diversidades ou adversidades da sociedade brasileira, ele preferiu ver aqui a Europa de seus sonhos.

Referências:

Carvalho, Vinicius Mariano de .Brasil um país do futuro: projeções religiosas e leitura sobre um mote de Stephan Zweig. Horizonte: Belo Horizonte, v. 5, n. 9, p. 30-42, dez. 2006

DINES, Alberto. A morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig. 3. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

KESTLER, Izabel Maria Furtado. O exílio no paraíso perdido, in: Veredas.

Centro Cultural Banco do Brasil. Abril de 2001, p. 12-17.114

Leave a Reply