Por Victor Naia

A vila de Belmonte está encravada entre as montanhas da Beira Baixa dentro dos limites do Distrito de Castelo Branco, próxima da fronteira espanhola, ainda sob domínio português. Como tantas outras freguesias do país, a população local assistiu bárbaros, celtas, mouros e romanos passarem por lá – mas nenhum desses povos marcou tanto esse remoto vilarejo como os judeus. É justamente dentro da comunidade marrana que nasce Diego Maldonado Paz, no ano de 1715 para Simão Rodrigues Paz e Teresa de Moraes, que acabou falecendo após o difícil parto.  

Simão era nascido e criado nessa vila de Belmonte e foi para o Brasil na virada do século XVII para o século XVIII em busca de ouro; no entanto, ele fracassou e pouco conseguiu conquistar no Brasil – embora trouxesse consigo ao velho continente uma bela jovem mineira de origem paulista, uma típica quatrocentona, título dado pelos genealogistas na primeira metade do século XX as primeiras famílias da antiga Capitania de São Vicente e, posteriormente, São Paulo.  

Diego foi criado pela sua avó paterna que já na sua infância contou sobre os costumes e segredos da família. O então menino pertencia a ilustre família Paz que fugiu de Espanha em 1492, precisamente de Sevilha, onde viviam como judeus. O motivo para a saída da Andaluzia não apenas dos Paz, mas também de milhares e milhares de judeus foi o decreto promulgado pelos reis católicos Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, ordenando a expulsão ou conversão forçada dos judeus que viviam na Espanha levando à fuga do povo de Israel que vivia ali há mais de mil anos. Muitos desses judeus sefarditas acabaram no país vizinho, Portugal, onde 5 anos mais tarde, a liberdade de culto aos judeus foi imposta com ascensão de Dom Manuel em 1495 ao trono.  

Em Portugal a família de Diego como outros tantos judeus optaram pela conversão. Tornaram-se ali cristãos novos e, sobretudo, marranos, ou seja, eram católicos por fora e judeus por dentro. Pela localização remota entre as montanhas de Portugal, as famílias cripto-judias de Belmonte conseguiram manter suas tradições com maior afinco, onde casavam-se apenas entre eles preservando sua existência judaica. Simão, pai de Diego sempre foi ausente, pois ganhou a vida navegando para as colônias portuguesas e não acompanhara o crescimento do filho. A vida do jovem de Belmonte era como a de todos daquela vila, onde a maioria eram cristãos novos até o dia em que dois tios e três primos de Diego foram levados para os cárceres da inquisição de Évora pelo crime de judaísmo.  

O ano é 1733, há 60 anos, não haviam baixas na comunidade cripto judia de Belmonte. Diego, em mais uma manhã nivosa de inverno de janeiro, descobriu por um informante de Évora que seu primo Isaac havia lhe denunciado para o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição como parte dos organizadores das cerimônias secretas de shabat que praticavam escondidos religiosamente aos sábados, em uma esnoga( sinagoga dos judeus sefarditas) improvisada na casa do mestre Salomão Dias, líder da comunidade. Apreensivo com a denúncia que seu primo havia lhe feito, Diego resolveu fugir.  

A avó e mestre Salomão aconselharam-se juntar-se à comunidade judaica de Amsterdam onde os judeus viviam livremente; ali Diego poderia ” retornar ” ao judaísmo e viver como um homem judeu sem qualquer receio como seus antepassados; no entanto, nenhum conselho e qualquer segurança atraíram o jovem de estatura mediana, moreno e com nariz adunco como a possibilidade de tentar a sorte no Brasil, não apenas pela influência de conhecidos que lhe mandavam cartas falando da riqueza do ouro abundante em Mariana e Vila Rica, mas também, pelo Brasil representar uma espécie de busca pelo passado brasileiro de sua mãe que o jovem até então jamais havia tido contato.  

Em agosto de 1733, com 18 anos completados, o já chamado Sr. Paz iniciou sua jornada a América deixando para trás toda sua família com imensa amargura. Após uma exaustiva e longa viagem, o gajo andou muitos dias do Rio de Janeiro, porto onde seu navio atracou-se no Brasil, até Vila Rica, no alto de seus 1200 metros nas Minas Gerais, que vivia uma efervescência única graças a corrida do ouro. No dia seguinte de sua chegada Diego encontrou-se com o senhor Manoel de Montemayor, português da Guarda que havia feito a vida décadas anteriores em Salvador da Bahia, de onde mudou-se há 5 anos para Minas Gerais, onde tirava sua fortuna com tráfico de escravos e do comércio de diamantes e ouro. Sr. Montemayor logo encaminhou o jovem de Belmonte no comércio de diamantes de onde Diego criou uma imensa rede de contatos e fortuna ao longo dos anos.  No ano de 1755, com 40 anos de idade, já órfão de pai, sem avó, casado, pai de sete filhos e prestigiado entre toda comunidade local, Diego brigou com o Governador da Capitania pelas altas taxas praticadas aos seus negócios.   No ano seguinte, ele deixou de pagar os impostos em retaliação aos preços praticados por Lisboa que tiravam metade de tudo que arrecadava.  

No dia sete de setembro de 1758, três anos após brigar com a inquisição, Diego foi preso. Ele não teve nem espaço para tentar fugir ou subornar os funcionários que foram até sua residência pela madrugada para prendê-lo. Seus três filhos maiores e sua esposa, aos prantos, viram sendo levado para o Rio de Janeiro de onde seguiria para Lisboa, onde uma ordem superior o obrigava prestar explicações. Ele e mais dezoito homens e mulheres denunciados foram torturados durante longos dois anos sem confessarem absolutamente nenhum de seus crimes.  Sem proferir uma palavra sequer, Diego e os cinco que sobreviveram aos cárceres da inquisição de Lisboa foram encaminhados a fogueira da inquisição.  

No caminho até a Praça do Comércio, ele e os cinco mineiros presos em Vila Rica anos antes, eram violentados fisicamente e verbalmente pela população local; perto de aproximar-se dos fogos, Diego indagou ao funcionário da inquisição pelo motivo que estava sendo queimado, quem havia lhe denunciado dentre outros questionamentos que, para sua surpresa, sepultaram o antes mesmo da fogueira.  O senhor inquisidor disse que sua mãe era filha e neta de judeus que matavam padres jesuítas na metade do século XVII no Brasil, como o Capitão Antônio Raposo Tavares, seu avô, que assassinou um padre da companhia de jesus espanhol em Guaíra; esse episódio nunca foi esquecido pela inquisição. Na altura, perguntaram a Raposo Tavares com qual lei autorizava-o a contrapor aos jesuítas, respondeu o bandeirante: “A lei que Deus deu a Moisés “.  

Diego não foi apenas morto pelas suas atividades suspeitas para as autoridades locais, pela falta de pagamento de impostos, pelas denúncias da comunidade marrana de Vila Rica também levada pela inquisição, mas também, pela retaliação ao que seus ancestrais maternos desafiaram os funcionários da inquisição mostrando como a intolerância existiu de diferentes formas e nos mais variados segmentos da história do Brasil. Anos mais tarde, sua mulher e filhos espalharam-se pelo mundo da tolerância aos judeus, estabelecendo em Livorno, atual Itália.  A família perdeu quase todos seus bens que foram confiscados imediatamente após a prisão de Diego, com exceção de algumas joias e ouro que serviram como pagamento pela sinuosa viagem entre Vila Rica e o velho novo mundo europeu tolerante para aqueles que eram judeus no século XVIII.

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