Por Victor Naia

O dia era alegre, ensolarado e não tão quente como outros finais de verão Provença Francesa. As cores davam o sinal que o outono estava chegando em Marseille. Paul, trinta e três anos recém-completados comemorava a boa fase em seu trabalho na americana Boeing, onde trabalhava na área de vendas – sobretudo para África, graças ao seu francês e inglês impecável – além de toda sensibilidade de quem viveu entre o Camarões, Egito e Marrocos – onde seu pai servira como diplomata francês entre os 80´s e 90´s. 

Após despedir-se da mãe e da irmã mais nova, Charlotte, Paul subiu um taxi Citroën ano 1983, barulhento e sem ar-condicionado. Após 15 minutos descendo os morros da parte norte de Marseille ele chega ao aeroporto. É a primeira vez que o francês irá embarcar em um voo direto entre Marseille e Nova York sem precisar de uma escala em algum ponto da Europa ou até mesmo Paris. Aquele voo sairia lotado de americanos e canadenses como de costume para os finais de verão no hemisfério norte.

O AF453 do dia seria operado por um novíssimo boeing 777-200 ER ( Extended Range) tendo sido entregue pela operadora onde Paul trabalhava seis meses antes diretamente de Seattle, fábrica da empresa norte-americana para Paris-Charles de Gaulle, base da cia Air France.  O voo transcorria normalmente após 6 horas de travessia. O jantar já havia sido servido 5 horas antes e, agora, a tripulação preparava-se para andar pelos corredores da classe econômica distribuindo as opções do café da manhã: pão frio com queijos e presuntos, uma banana, iogurte e suco de laranja. A outra opção era não comer. Nessa nova tendência da aviação comercial em diminuir custos, as refeições que já foram glamourosas para uma travessia atlântica de 7 horas agora eram bem mais simples.  

Após 7 horas voando a aproximação ao aeroporto de Nova York Kennedy ocorria tranquilamente, quando o piloto precisou subir tangencialmente próximo ao aceitável por ordem da torre de comando do aeroporto JFKIJohn Fitzgerald Kennedy). Toda cabine ficou apreensiva e algumas pessoas sentiram mal-estar logo após a manobra necessária por parte da cabine de comando. Paul que detinha muitas horas de voo estranhou essa guinada para cima, quando, justamente, estavam perto da aproximação final da costa leste americana.            

Abruptamente os comissários de bordo começaram a checar a lista de passageiros um a um daquele AF 453 com 223 passageiros a bordo e 9 tripulantes. Uma aeromoça chegava a ser agressiva ao pedir os documentos dos passageiros. Marie Louise, uma veterana dos tempos de áureos de Concord não fazia questão de esconder seu estado de nervosismo.   Ela cochichou no ouvido de outra comissária, Charlotte, que sem conseguir muito falar no ouvido da colega de trabalho disse que procurava suspeitos compatíveis ao perfil que as autoridades haviam passado via rádio para a tripulação do voo.  

Marie Louise, no alto de seus cinquenta e cinco anos e mais de trinta deles dedicados a profissão não ficou incomodada e começou a disparar perguntas agressivas ao jovem Michel Nasser, libanês, que falava perfeitamente o francês como muitos de seu país.   A francesa o questionava sobre sua religião, sobre quantas vezes ele retornava ao país natal por ano, sobre o que ele fazia em Marselha, o que iria fazer nos Estados Unidos etc.  

As perguntas eram tão ferozes e rápidas que Michel pouco espaço teve para respondê-la. Logo após a sabatina com olhares atentos de todos passageiros das últimas classes da turística e sob vigia dos demais tripulantes, o jovem foi convidado a ir até a gallery da aeronave, uma espécie de cozinha, onde disseram que iriam revistá-lo. Paul e mais outros dois passageiros, um francês de Lyon e uma Belga estarrecidos com a falta de educação ao rapaz que não deveria ter mais de 20 anos iniciaram-se uma discussão questionando a tripulação francesa o motivo que eles abordavam agressivamente o jovem libanês.  

O chefe de tripulação, sr. Pierre Leblanc sentiu a necessidade de acalmar os ânimos e evitar qualquer tentativa de revistarem o rapaz que já era olhado como terrorista por boa parte dos outros passageiros que voavam sem destino há uns 40 minutos após a arremetida chegando no aeroporto de Nova York. A iniciativa do Sr. Leblanc não obteve muito êxito, já que Paul disparou um forte soco ao comissário Nicolás que tentava proteger as comissárias Charlotte e Marie Louise. O clima de apreensão, pânico e violência, tomaram conta de todo Boeing que orbitava sob a região de Pittsburgh, no estado da Pensilvânia.  

Paul acabou por sentar-se ao lado de Michel, que pela primeira vez sentiu o peso de ser árabe entre franceses. Após alguns instantes no momento em que o piloto anunciava que o voo havia sido desviado para Chicago, Illinois, o funcionário da Boeing e o jovem libanês conversavam sobre o a França, o Líbano e, sobretudo, de Camarões, onde eles tinham um passado em comum. Michel estudou na mesma escola que Paul frequentou quando viveu em Dakar, capital do país. Michel não era filho de diplomata como Paul, mas seus pais emigraram de Beirute para o Senegal durante a Guerra Civil Libanesa( 1975-1990 ) e o jovem acabou vivendo nove anos de sua vida no país africano, onde estudou no liceu francês local, o mesmo que Paul havia frequentado uma década e meia antes nos 70´s.  

Paul comentou que conheceu o grande amor de sua vida nessa escola, e que após formarem aos 17 anos jamais a reencontrou e perdeu o contato. A jovem é canadense, de Montréal, de nome Sophie. Imediatamente, Michel disse que conhecia uma mulher com as mesmas características e nome que Paul havia dito, inclusive, que essa jovem vivia na América, trabalhava como Pedagoga, profissão que exerceu no Liceu onde estudou – tendo sido professora de francês do jovem libanês nos anos 90.  

Após duas horas de atraso o AF 453 pousou no aeroporto de O´Hare, em Chicago. Ao desembarcarem deram conta o motivo que não puderam aterrissar no aeroporto JFK em Nova York: dois aviões chocaram-se nas torres gêmeas ao sul de Manhattan. Uma terceira aeronave, acabou próxima ao Pentágono americano em Washington. Todo espaço aéreo americano ficou fechado e a ordem era baixar todos aviões para que ficassem em terra.   Após mais de seis horas e ainda perplexos com o que havia acontecido, sem qualquer previsão de quando poderiam seguir a Nova York ou fazer conexões para outros destinos, Michel e Paul conversavam como se nada tivesse acontecido hipnotizados na coincidência de suas histórias, sobretudo Paul, que agora, saberia o paradeiro de sua amada Sophie. 

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