Indústria continua encolhendo

Participação no PIB encerrou o primeiro trimestre no menor patamar já verificado

Por Giovanna Linck, Natália Campos e Victor Félix

Impactada por um conjunto de fatores que incluem a queda do consumo e a falta de confiança dos empresários, a indústria tem diminuído cada vez mais sua participação na economia brasileira. No primeiro trimestre deste ano, a indústria de transformação representou apenas 10,4% do PIB do país, o menor patamar já verificado.

Desde o início da crise econômica, em 2014, o desempenho anual do setor vem registrando quedas e só apresentou um tímido aumento (0,6%) no ano passado. Para entender como chegamos aqui, é preciso olhar para trás. A industrialização do Brasil tem início na década de 1930 e se estende até os anos 1980. Nesse período, a indústria chegou a crescer acima da economia, que avançava em média 7% ao ano.

Porém, a entrada na década de 1980 marca o fim desse crescimento acelerado. Foi quando o país passou pela crise da dívida externa e pela instabilidade causada pela inflação alta. Segundo o economista José Luís Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), “no momento em que o mundo está fazendo uma revolução tecnológica, a indústria brasileira não investiu por conta da crise e perdeu o bonde”.

As condições continuaram piorando para o setor na década de 1990, quando o Brasil e os demais países da América Latina implementaram o receituário de medidas compiladas pelo chamado “Consenso de Washington”, que incluíam privatizações, abertura para o capital externo e redução dos gastos públicos. Com a forte entrada de capital estrangeiro, o real ficou supervalorizado, o que tornou os produtos importados mais competitivos e desestimulou a indústria nacional, que também perdeu força no mercado externo.

Estes impactos ocasionaram, segundo Oreiro, um processo de desindustrialização. “A indústria nunca conseguiu se recuperar, no sentido de voltar a ter a performance que ela tinha até 1980”, explica. Ele acrescenta que, desde então, os governos não buscaram uma estratégia para retomar o crescimento do setor, que vem perdendo espaço no PIB, como mostra o gráfico abaixo.

A indústria no Brasil é divida em três subsetores: a indústria de transformação, a extrativa mineral e a de construção civil. O setor mais importante é o de transformação. É o tipo de indústria que transforma as matérias-primas, obtidas na natureza, em utensílios para o homem. Ela se divide em bens de produção ou indústria de base, que transforma matéria-prima bruta para outras indústrias, e a indústria de bens de consumo, que destina sua produção para o consumo da população.

Segundo Oreiro, os resultados dos últimos anos são negativos em comparação com o resto do mundo e a própria história brasileira. “Há 20 anos, a indústria de transformação do Brasil representava mais de 20% do PIB e hoje está representando metade disso. Então, quando a gente fala do processo de desindustrialização da economia brasileira, é basicamente a perda de peso da indústria de transformação no PIB brasileiro”, explica.

Mas por que a indústria está em baixa? De acordo com o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, o principal motivo para esse desempenho tem sido o ambiente de negócios. “O ‘Custo Brasil’ e sobrevalorização cambial representam o impacto das principais deficiências estruturais do país sobre os preços industriais”, afirma, em entrevista concedida por e-mail.

O “Custo Brasil” é um termo usado para designar os altos custos e despesas sobre a produção que tornam o produto brasileiro caro no mercado internacional e pouco competitivo no mercado interno. Pelos cálculos da Fiesp, itens como tributação, juros sobre capital de giro, custo de energia, matérias primas e logística fazem com que o preço do produto brasileiro supere em 10% o de um similar importado.

“A taxa de câmbio tem se mostrado supervalorizada de maneira sistemática e isso prejudica a competitividade da indústria brasileira, que não é capaz de competir no exterior e nem no mercado doméstico”, confirma Oreiro. A mudança do regime cambial faria com que o câmbio permanecesse em um patamar estável e competitivo no médio e longo prazo. Além disso, ele explica que no Brasil os impostos sobrecarregam a indústria,  o que mostra a importância de uma reforma tributária.

“O aumento de investimentos públicos em transportes, comunicações e geração de energia, por exemplo, contribuiria para a redução do custo de produção e, assim, para torná-las mais competitivas”, acrescenta o professor de economia.

Após a eleição do presidente Jair Bolsonaro no ano passado, as expectativas eram muito otimistas. Porém, hoje a situação é de incerteza. As medidas do  governo voltadas para a indústria ainda não estão claras, o que afeta diretamente o desempenho do setor.

O Índice de Confiança do Empresário Industrial, calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), ficou em 56,9 pontos em junho de 2019, 0,4 ponto acima do registrado em maio e 7,3 pontos acima do mesmo período no ano passado. O resultado interrompe a trajetória de queda que durou quatro meses, acumulando recuo de 8,2 pontos.

Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICeI).

A indústria também enfrenta problemas estruturais, como explica Oreiro. “A indústria brasileira se encontra em uma situação de infraestrutura, de logística de transportes, que é muito ruim, o que acaba aumentando o custo de produzir bens manufaturados no Brasil”, observa.

Skaf, por sua vez, além da reforma tributária, aponta a aprovação da reforma da Previdência como uma medida importante para impulsionar o setor industrial.“Ela é prioridade para retomada de crescimento do país, geração de empregos, equilíbrio fiscal e redução dos juros”, diz.

Apesar disso, o presidente da Fiesp afirma que estas duas reformas não serão suficientes para o crescimento no médio e longo prazo. “É imprescindível o estímulo à inovação tecnológica e política industrial visando o aumento da produtividade e melhoria expressiva da qualidade da educação”, comenta.

SÃO PAULO

O estado de São Paulo é o mais importante na produção industrial do país. Segundo dados da Fiesp, em 2016, o PIB da indústria de transformação paulista foi de R$ 256,2 bilhões, o que correspondeu a 38,1% do PIB do setor no país, superando a participação do estado como um todo, que representou 32% do total nacional.

Skaf também destaca a importância de São Paulo em outras estatísticas da indústria. “Quando se consideram outros indicadores da atividade industrial, São Paulo também é muito relevante, respondendo por 33% dos trabalhadores do setor, 36% do faturamento e 38% das suas exportações”, diz.

A indústria de São Paulo é marcada pela diversidade, abrangendo a fabricação de diversos tipos de mercadorias. Além disso, possui um grande nível tecnológico, como destaca Skaf: “No estado de São Paulo, 43% do PIB industrial são gerados por atividades de alta e média alta intensidade tecnológica”.

Porém, foi justo o setor de alta intensidade tecnológica que liderou o declínio em nível nacional no primeiro trimestre de 2019, com queda de 12,5% frente ao mesmo período do ano anterior, segundo levantamento do Instituto de Estudos  para o Desenvolvimento Industrial (IEDI). “Para que se absorva tecnologia você tem que fazer investimento, ou seja, você tem que comprar bens de capital produzido no exterior”, alerta Oreiro.

FUTURO

O presidente da Fiesp é otimista em relação ao futuro da indústria nacional: “Há confiança na aprovação das reformas da Previdência e tributária visando a recuperação da nossa competitividade e do crescimento”.

Já Oreiro acredita que o novo governo tem uma atitude hostil com a indústria. “No fundo, eles pensam na economia primária exportadora, basicamente commodities agrícolas e minerais”, finaliza.

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