“ZL 100 Registro” é renovado pelo VAI e promoverá cursos de formação para produtores culturais

Projeto que mapeou 100 agentes culturais da zona leste de São Paulo em 2018 continuará atuando na região.

Foto: ZL 100 Registro / Facebook

Por Karine Sena, Larissa Teixeira e Maria Clara Vieira.

Karine Guerra, Felipe Bit, Raabe Campos e Gil Douglas – o Douguinha – formam o coletivo “ZL 100 Registro”, projeto aprovado pela segunda vez no VAI (Valorização de Iniciativas Culturais), que é um edital promovido pela Secretaria de Cultura e visa fomentar a cultura na periferia de São Paulo.

O projeto que mapeou 100 agentes culturais no ano passado tem como objetivo, neste 2019, ensinar mais sobre registro e divulgação do trabalho de artistas e produtores culturais em cursos de formação gratuitos e abertos para todos que quiserem participar. Outro motivo para a sua continuidade é para que mais pessoas conheçam os agentes de forma física, por meio da criação de um livro sobre os homenageados no “ZL 100 Registro”, que terá um caráter de consulta, como uma enciclopédia sobre a produção cultural mapeada.  

Os livros serão distribuídos em vários pontos da zona leste, como bibliotecas e casas de cultura, próximos aos locais que os 100 homenageados atuam. “A gente gosta sempre de frisar que o ‘ZL 100 registro’ é um recorte”, destaca Felipe ao mencionar o quanto a Zona Leste e sua produção cultural são enormes, “e não teria como um projeto, com a verba, com os braços e com o tempo que a gente tinha, fazer um mapeamento completo”, complementa ao explicar a abrangência da iniciativa.

Integrantes do coletivo durante a abertura da exposição. Foto: ZL 100 Registro / Facebook

“Arte ainda tem um caráter elitizado” 

Segundo Felipe, a produção cultural periférica ainda é muito dependente financeiramente de fomentos públicos ou patrocínios de empresas. “Se a gente não tivesse conseguido passar novamente no VAI para ter essa verba e desenvolver durante oito meses, provavelmente a gente não conseguiria fazer”, conta o artista sobre o “ZL 100 Registro”. 

O projeto recebe investimento da prefeitura da cidade de São Paulo por meio do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (VAI). Este edital foi criado com a finalidade de apoiar financeiramente, por meio de subsídio, atividades artístico-culturais. O Programa foca em jovens de baixa renda e de regiões do município desprovidas de recursos e equipamentos culturais. 

Felipe Bit encara a segunda fase do projeto com as formações e informações sobre criação de portfólio e registro como uma forma de mudar esse cenário aos poucos. Com a profissionalização desses grupos, o coletivo acredita que será possível ter mais oportunidades para rentabilizar os trabalhos nas mais variadas linguagens, da venda de um livro a um show ou peça de teatro. 

Felipe estima que 80% dos coletivos que produzem na periferia utilizam o VAI: “Ao mesmo tempo que ele é um incentivo, ele também tem a sua burocracia, então muitos coletivos ainda sofrem um pouquinho em inscrever o material”, complementa lembrando o quanto o edital é importante. 

Segundo dados fornecidos pelo VAI em 2017, os bairros que mais contém projetos contemplados são Parelheiros, na zona sul, e Cidade Tiradentes, zona leste. Nesse mesmo ano, o programa recebeu mais de 1.300 inscrições, porém, após o processo seletivo, foram aprovados cerca de 100 projetos. 

Para a edição de 2019, o VAI lançou no edital alguns pré-requisitos importantes para a candidatura de uma proposta. O orçamento não pode ultrapassar o valor de R$ 40.750,00 (quarenta mil, setecentos e cinquenta reais) e a duração do projeto deve ser de até oito meses. 

O início 

A primeira fase do “ZL 100 Registro”, realizada em 2018 e também fomentada pelo VAI, foi dividida em quatro partes: levantamento dos 100 homenageados; realizações de cafés culturais, encontros para falar sobre variados aspectos da produção cultural periférica, conhecer melhor o trabalho das pessoas e para que elas soubessem mais do projeto; compilar os dados adquiridos, que foram entregues para nove artistas visuais para a criação de onze quadros cada; e a exposição, que aconteceu na Ocupação Cultural Mateus Santos, situada em Ermelino Matarazzo, onde o grupo se formou.

Café Cultural realizado na Ocupação Cultural Mateus Santos. Foto: ZL 100 Registro / Facebook

O “ZL 100 Registro” inspirou os moradores da região, que puderam apresentar seus projetos e incentivar outros. Camila Dias Alvarenga é produtora de esculturas e objetos em 3D e foi uma das 100 artistas homenageadas. Ela, que ficou sabendo da iniciativa em dezembro de 2018 quando foi convidada por Felipe Bit a fazer parte do “ZL 100 Registro”, contou que fazer parte do time a motivou a continuar criando e promovendo cultura. 

“Fazer arte é uma missão gratificante. Nós, artistas, temos o poder de transformar vidas, empoderar pessoas através do nosso trabalho. Conseguimos provocar reflexões e despertar inúmeras possibilidades de transformações. Fico imensamente feliz em fazer parte desse projeto. É o maior reconhecimento que eu poderia ter”.

Para o futuro, Camila almeja contribuir ainda mais para o desenvolvimento cultural da região: “Pretendo ampliar ainda mais meu repertório com a linguagem tridimensional, finalizar a minha Pós-Graduação que pesquisa Arte e Tecnologia e trazer esses novos processos artísticos para a zona leste, que ainda é carente dessas novas linguagens artísticas”. 

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