Por Maria Morales

Poços de Caldas. A cidade une Luis Nassif e Walther Moreira Salles. Nassif, hoje jornalista e escritor, nasceu e viveu a maior parte de sua vida por lá. Walther Salles se mudou para a cidade ainda quando criança, e lá iniciou a construção do seu império, o Unibanco, que em 2008 se fundiu com o Itaú, formando um dos maiores conglomerados financeiros do mundo.

A ideia de escrever a biografia lhe ocorreu depois que seu pai morreu e Nassif já queria escrever um livro contando a história de Poços de Caldas. “Eu fui em um evento e encontrei o Dr. Walther, aí pensei que, se eu escrevesse uma biografia dele, eu contaria a história de Poços, do Brasil e do mundo”, conta Nassif. “Eu fui até ele, fiz a proposta de escrever a biografia e um tempo depois ele concordou.”

O processo de escrita passou por três grandes momentos. O primeiro se deu entre 1991 e 1994, quando as entrevistas eram, em sua maioria, com o próprio Walther Salles. Depois de uma período de quase dez anos de pausa, Nassif voltou à pesquisa em 2002, um ano após o falecimento de Salles, e colheu material até 2006. Por fim, retomou o projeto em 2015 e terminou o livro em 2017.


Walther Moreira Salles recebe do embaixador da França no Brasil a medalha da Legião de Honra Francesa, dezembro de 1973. Arquivo Walther Moreira Salles / Acervo IMS

Entre as principais fontes, Nassif destaca Homero de Souza e Silva, que era um dos amigos mais próximos de Walther e foi um grande parceiro de negócios  nos primeiros projetos. Além dele, o jornalista entrevistou figuras importantes para a economia e a política da época, como o lobista Jorge Serpa e o advogado Raphael de Almeida Magalhães. De acordo com Nassif, foram personalidades como as deles que fizeram do Rio de Janeiro uma das cidades mais agradáveis entre o período de 1950 e 1960.

Sobre a relevância de Moreira Salles para o país naquela época, Nassif aponta a economia como principal favorecida. “Houve uma importância do ponto de vista do mercado. Ele foi a pessoa que modernizou o mercado de capitais, criou instituições que ajudaram a modernizar o mercado”, conta. “Ele foi da Sumoc (Superintendência da Moeda e do Crédito), que foi a precursora do Banco Central e instituiu a fiscalização bancária”, continua.

Nassif também destaca no livro o período em que Walther foi embaixador do Brasil em Washington, durante o governo de Juscelino Kubitschek. Esse período o ajudou a se aproximar mais ainda de alguns políticos, cogitando inclusive ter se candidatado a governador pelo seu estado de origem, Minas Gerais. Mas seu lado de empresário falou mais alto e, temendo colocar o Banco Moreira Salles em risco, ele desistiu de se candidatar.


Walther Moreira Salles com o presidente Fernando Henrique Cardoso na inauguração do IMS Rio, em 1999. Arquivo Walther Moreira Salles / Acervo IMS

O Banco Moreira Salles foi fundado pelo pai de Walther, João Moreira Salles, em 1924. Walther se tornou sócio em 1933 e mudou o nome para Unibanco em 1975, após uma fusão com o Agrimer, também conhecido como Banco Agrícola Mercantil. Em 2008, a fusão com o Itaú deu origem ao Itaú Unibanco, que atualmente tem um dos filhos de Walther, Pedro Moreira Salles, como copresidente do conselho de administração.

Walther ainda foi ministro da Fazenda durante o governo de João Goulart (1961-1964). E, assim como fez durante o governo de Kubitschek, o banqueiro possibilitou que os governos em questão caminhassem em direção à industrialização. Ele também era muito próximo de Getúlio Vargas, inclusive chegou a ter um caso com a filha do então presidente, Alzira Vargas. O relacionamento dos dois não deu certo, pois Walther se sentia pressionado ao ser visto com a “mulher mais poderosa do país”, como escreveu Nassif em 2001 no artigo “Os amores do embaixador”, publicado na “Folha de S. Paulo”.


Walther Moreira Salles (com o papel na mão) toma posse como ministro da Fazenda no gabinete de Tancredo Neves, no governo parlamentarista de João Goulart, em 1961. Santiago Dantas é o primeiro à esquerda. Arquivo Walther Moreira Salles / Acervo IMS

De acordo com Nassif, Walther era um homem discreto que não gostava muito de falar sobre sua vida pessoal. Menos quando era indagado sobre sua influência na escolha da profissão dos filhos. Ele se orgulhava em não ter interferência nenhuma na opção de carreira deles e costumava dizer: “Eu ganhei dinheiro para que meus filhos possam ter liberdade para escolher a sua profissão”.

Além de Pedro Moreira Salles, Walther teve outros três filhos. João Moreira Salles, o filho mais novo, é diretor, produtor e roteirista de cinema e presidente do Instituto Moreira Salles, um dos maiores centros culturais do país. Walter Salles, ou Waltinho, também seguiu pelo caminho da cultura, atuando como cineasta e empresário. O filho mais velho, Fernando Moreira Salles, também continua ligado ao Itaú Unibanco, sendo um dos maiores acionistas da empresa.

Seu legado não foi exclusivo aos filhos. O embaixador e banqueiro também deixou sua marca para o país. Para Nassif, Moreira Salles é um exemplo de como os empresários deveriam agir.  “Ao contrário dos milionários de hoje, ele investia em setores novos, corria riscos. O Walther se sentiu um dos construtores do país. Ao contrário dessa geração Miami que nós temos hoje aqui.”


Última foto de Walther Moreira Salles com a família em Araras, Rio de Janeiro. Arquivo Walther Moreira Salles / Acervo IMS

A crítica de Nassif vai além do setor financeiro. “Com todos os problemas políticos que o país enfrentou nos anos 50 e 60, havia o foco de buscar o desenvolvimento do país. E essa perspectiva se perdeu aqui tanto nos partidos políticos quanto na macroeconomia brasileira e no empresariado.”

A biografia foi lançada no dia 23 de abril. É a primeira escrita por Nassif e a única existente de Walther Moreira Salles. Com depoimentos de amigos de Moreira Salles, o livro permite um olhar diferente da vida de um dos brasileiros mais importantes do século passado.

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