Economia peruana cresce o triplo da latino-americana

Expansão segue firme mesmo depois de escândalos envolvendo ex-presidentes

Fonte: El Comercio

Por Ana Beatriz de Souza

Mesmo com as denúncias de corrupção envolvendo quatro ex-presidentes, a economia peruana cresceu o triplo da média latino-americana no ano passado. Enquanto o PIB da região avançou 1,2%, a expansão no Peru foi de 4%.

Neste ano, segundo previsões da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe) e do Banco Central peruano, a distância continuará praticamente idêntica: a América Latina deverá crescer, em média, 1,3% e o Peru experimentará um salto de 3,6%. Entre os países latino-americanos, somente a Bolívia deve ter um crescimento mais robusto (4,4%, segundo a Cepal).

De acordo com Pedro Silva Barros, ex-diretor de assuntos econômicos da Unasul e mestre em economia política pela PUC-SP, o Peru se apoia na dinâmica do setor de exploração de recursos naturais, particularmente no de minerais, voltados para a exportação. “A economia peruana é mais articulada com a Ásia-Pacífico, região de maior crescimento no mundo”, explica.

Nas últimas décadas, a mineração e a infraestrutura vêm sendo dois dos principais motores da atividade econômica do Peru e até hoje influenciam e impulsionam o desenvolvimento do país. No governo de Alejandro Toledo (2001-2006), começou a ser feito um grande investimento público, principalmente nas duas áreas, e empresas especializadas foram contratadas para diversos serviços, entre elas empreiteiras como a Sociedad Minera Cerro Verde e Buenaventura y Southern, para obras de mineração, e a Odebrecht Perú, para projetos de infraestrutura.

Após investigações da Operação Lato, hoje se sabe que a empreiteira brasileira pagou propinas milionárias entre 2005 e 2014 para vencer licitações e financiou de modo ilícito campanhas eleitorais de partidos políticos e candidatos à presidência do Peru. A força-tarefa constatou que o superfaturamento das obras chegou a US$ 3 bilhões. A empresa se comprometeu a pagar uma multa de US$ 182 milhões, e quatro ex-presidentes peruanos foram investigados ou presos por participação no esquema de corrupção.

Obras realizadas em Lima para sediar os Jogos Pan-Americanos de 2019. Pais investiu US$ 1,5 bilhão/ Foto: Agência Andina.

Ainda que as denúncias afetem a geração de empregos na construção civil, Barros afirma que o Peru tem conseguido investir mais em infraestrutura do que os países vizinhos, mas diz que, certamente, o envolvimento de ex-presidentes nos escândalos impacta a política local. “Alan García se suicidou, Pedro Pablo Kuczynski foi eleito em 2016 com um discurso crítico ao populismo e fortemente anticorrupção, mas renunciou menos de dois anos depois, justamente quando estava acuado por acusações de corrupção”, lembra Barros.

Além de García e Kuczynski, outros dois presidentes foram investigados pela Lava Jato. Alejandro Toledo (2001-2006) responde por corrupção e lavagem de dinheiro e Ollanta Humala (2011-2016) foi detido e posteriormente solto por financiamento irregular de campanha. Todos os ex-presidentes investigados mantiveram as bases da política econômica do país em seus respectivos mandatos, o que contribuiu para que a economia não sofresse tanto com as denúncias de corrupção.

Os maiores componentes do PIB peruano desde os anos 2000 têm sido a extração de petróleo e minerais, produção de manufaturas, construção e comércio. Hoje, o país conseguiu diversificar suas exportações, também por uma necessidade de mercado. Com o fim do boom das commodities, no início de 2014, o Peru utilizou recursos provenientes da venda de zinco e cobre (que representaram 37,7% das exportações em 2017 e que nesse período sofreram desaquecimento pela alta dos preços) para estimular e fomentar outras produções para exportação.

Fonte: Ceic Data

Mesmo assim, no primeiro trimestre de 2019, as exportações caíram 0,4%, devido ao desaquecimento no mercado de commodities comercializadas pelo país, como cobre, zinco e ouro, que registrou redução de 7% em relação a 2018. Este ano, o principal destino desses produtos foi a China, que recebeu 32,5% de volume exportado. Isso representa um aumento de 19% no comércio de commodities com o país asiático. Se por um lado as exportações tradicionais diminuíram 17,4%, o setor de produtos não tradicionais, como o pesqueiro, o agropecuário, o têxtil e o químico, registrou aumento de 16,4% no volume de exportações em relação ao primeiro trimestre de 2018.

Em março de 2019, o Brasil foi o quarto país que mais importou do vizinho sul-americano, respondendo por 3,8% das exportações. À frente aparecem a China (29,8%), os Estados Unidos (9,8%), o Japão (8,6%) e a Coreia do Sul (4,5%). A balança comercial entre Brasil e Peru registrou, no período de janeiro a abril de 2019, um total US$ 798,13 milhões em produtos importados do Brasil, principalmente manufaturas e máquinas produtivas. Já as exportações peruanas registraram um montante de US$ 460,78 milhões, lideradas pelo comércio de minério de ferro e seus derivados e de nafta. Isso significa um déficit de US$ 337,35 milhões na balança comercial com o Brasil.

Em relação às exportações brasileiras para o Peru, o Acre é o único estado que tem o país vizinho como principal destino de suas mercadorias. Segundo Pedro Barros, a melhoria na infraestrutura da fronteira facilitou esse comércio. “Antes da construção da ponte entre o Brasileia e Iñapari, em 2005, as exportações do Acre para o Peru eram muito pequenas. Depois, foi pavimentada toda a estrada da fronteira até Cusco, em 2010, da Amazônia aos Andes. É um típico caso da infraestrutura induzindo o desenvolvimento e a integração”, completa. Em 2018, o país alcançou um recorde histórico na corrente de comércio com o Brasil, chegando pela primeira vez a US$ 4 bilhões.

A exportação de produtos tradicionais peruanos cresceu 12% em relação ao mesmo período do ano passado. / Foto: Agencia Agraria de Noticias (Agraria.pe)

Os números do Peru começaram a melhorar no governo de Alberto Fujimori, nos anos 1990. Na época, a inflação no país chegou a bater 400% ao mês. Como medida para recuperar a economia, o presidente recorreu ao programa de ajuste do Banco Mundial, que pretendia atrair investimentos de empresas estrangeiras. Para isso, seria preciso realizar reformas, desregulações e privatizações. A tática deu certo e, com a abertura econômica, logo as exportações e investimentos estrangeiros aumentaram.

No começo dos anos 2000, as políticas macroeconômicas contribuíram para o aumento de investimentos externos diretos (IED), especialmente para a mineração. Até 2010, o PIB registrou uma média de crescimento de  5,6% ao ano, taxa mais alta desde 1950. Segundo relatório do Inei (Instituto Nacional de Estatística e Informática do Peru), a economia foi impulsionada pelo bom desempenho das reformas estruturais feitas nos anos 1990 e principalmente pelo aquecimento da economia chinesa e posteriormente da indiana, que impactaram positivamente o mercado internacional e elevaram os preços de matérias-primas exportadas pelo Peru. O mais importante produto exportado foi o cobre, que teve seu preço elevado em 43,5% entre 2001 e 2005.

Outros fatores que influenciaram a economia do Peru nessa época foram a realização de tratados bilaterais de livre comércio, o superávit da balança comercial, a disciplina fiscal e a implementação de metas de inflação. Estas últimas medidas foram as mesmas adotadas por Fernando Henrique Cardoso na década de 1990 para a implantação do Plano Real no Brasil.

Leave a Reply