Por Francisco Segall

Dia 16 de dezembro de 2019, 18 horas e tudo segue numa tediosa normalidade, faz pouco tempo que eu perdi meu primeiro emprego, jornalista na redação de um pequeno jornal, mas não durei nem 3 meses lá, um dos primeiros a ser cortado. Comecei a trabalhar de taxista, nessas empresas de aplicativo, era o que tinha sobrado pra mim, meu pai não era um empreendedor bem sucedido ou qualquer coisa do tipo. Mas já odiava meu novo emprego, ficar andando de um lado para o outro da cidade encaixotado nesse carro velho e com o ar-condicionado quebrado, tendo que conversar com as pessoas mais estúpidas e irrelevantes. A dificuldade para dormir trazida pelo stress e pelas contas de casa que seguem atrasadas 2 ou 3 meses.

Mais uma chamada e eu sigo nessa melancolia quente e sufocante. Nem as janelas abaixadas são suficientes para aliviar o calor infernal do verão. Chegando perto do destino me deparo com uma aglomeração, confusão, pessoas gritando e chorando, cheiro de borracha queimada, bastante fumaça e dois carros com as latarias amassadas, se é que ainda dava pra chamar aquilo de carro. Abrem a porta traseira do carro, onde jogam um moribundo no banco, um jovem todo ensanguentado e inconsciente e desconhecido, gritando me dizem “leva ele pro hospital, rápido”. Naquele momento eu entrei em choque, do nada uma pessoa do lado de fora começa a gritar comigo “Vai porra, ele tá morrendo!”, eu só piso no acelerador e sigo, sozinho com aquele desconhecido. Um turbilhão de coisas passam pela minha cabeça, porque tinha que ser eu a pegar essa corrida, eu não posso deixar ele aqui, porque não chamaram uma ambulância caralho. Mas eu apenas sigo em direção ao hospital, bem a acima da velocidade limite, meu coração bate a mil por minuto. Eu dirigia e só ouvia os gemidos inconscientes daquele moleque e isso só e fazia empurrar mais o pé no acelerador. Passando os carros, furando sinais vermelhos, mas a única coisa que se podia ouvir, além das buzinas quando eu passava, eram aqueles sons que aquele corpo sangrando fazia.

Porque logo eu, porque logo agora, eram as únicas coisas que passavam pela minha cabeça. Eu fui até onde eu pude, mas é horário de pico, eu fui chegando na avenida Romão da Costa, completamente parada e eu com aquele cadáver ambulante no meu carro, que eu ainda nem havia terminado de pagar, eu precisava achar uma saída, uma rua lateral. Eu olhava no retrovisor e sabia, a vida daquele ser humano, que eu nunca tinha visto antes, estava nas minhas mãos, cada semáforo demoram horas para abrir e não passavam nem 5 segundos abertos. Eu já conseguia ver o hospital, eu só queria que aquele inferno acabasse, só queria me livrar daquela criatura. O trânsito não andava e aquele menino já não fazia mais sons, o silêncio do menino era muito mais alto que os sons dos carros e das pessoas. E se ele tivesse morrido, logo nesse carro de merda, apenas eu pra sentir aquela culpa eterna.

Eu simplesmente arranquei o cinto de segurança do meu corpo abri a porta da frente e fiquei em pé no meio dos carros e durante 1 segundo eu pensei tanta coisa, “eu poderia fugir, deixar o corpo e o carro lá e fugir. Eu nem conhecia aquele merda que estava no meu carro, porque eu tinha que cuidar dele?” Mas eu não consegui fugir só abri a porta de trás do carro peguei aquele menino nos braços, era o primeiro momento em que eu podia ver seu rosto, feições de sofrimento estampadas em sua cara, o corpo dormente nem se mexia. Eu apenas corri, corri com aquela pessoa em meus braços em direção ao hospital. A cada passo pra frente parecia que o maldito hospital ficava mais longe, eu corria mas tudo ao meu redor parecia se passar em câmera lenta, com em um desses filmes de ação toscos, eu passava pelas pessoas na rua, algumas nos olhavam com medo, desprezo, outras com uma cara de indiferença, eu não conseguia entender porque nenhum desses filhos da puta fazia nada, apenas olhavam, imóveis.

Eu entrei na ala de emergência chutando a porta do hospital gritando por ajuda, rapidamente os enfermeiros pegaram o menino e eu estava livre dele, finalmente. Nunca mais teria que ver aquela pessoa de novo.

Passaram-se alguns dias e eu nem conseguia sair pra trabalhar, era impossível entrar novamente naquele carro, que ainda estava sujo de sangue. Eu acabei descobrindo o nome do garoto Emerson dos Santos e Souza, tinha saído no jornal da tarde no canal 8. Ele tinha chegado a ser tratado no hospital, mas como não podia pagar a cirurgia, foi transferido para um hospital público naquele mesmo dia às pressas. Ficou numa fila de 5 horas para ser internado e devidamente operado, não resistiu. Eu não conseguia lidar com aquela situação, porque simplesmente não haviam cuidado dele caralho? Eu queria socar a parede até quebrar a mão de tanta raiva. Tudo aquilo que nós passamos a toa. O sofrimento e a tensão que passamos foi jogada fora, pela ganância egoísta de um maldito engravatado que cobra pelos cuidados a vida. E por causa disso eu levaria a face daquele moribundo comigo até o resto dos meus dias.

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