Itália busca sair da crise com reformas e medidas sociais

Chefiado pelo jurista e professor Giuseppe Conte, autointitulado 'governo da mudança' quer ampliar auxílios em meio a alto déficit público e racha entre parlamentares

Por Felipe Cereser

O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, deu um ultimato aos líderes dos partidos que comandam o parlamento do país. Em entrevista coletiva no início de junho, Conte deixou claro que, se Matteo Salvini, do nacionalista Liga Norte, e Luigi di Maio, do antissistêmico Movimento Cinco Estrelas, não “colaborarem”, ele pode pedir demissão do cargo. Após a vitória da Liga nas eleições europeias, o atrito entre os representantes dos partidos que são maioria no Legislativo italiano se intensificou e está atrasando a resolução de temas considerados fundamentais para o avanço do Estado que amarga a segunda maior dívida pública da zona do euro –  hoje superior a 130% do PIB, atrás apenas da Grécia.

O premiê, no entanto, abriu a entrevista com tom otimista ao celebrar o aniversário de um ano do governo que encabeça. Ele enumerou as iniciativas feitas até o momento e as futuras para “deixar às próximas gerações uma Itália melhor”. Controlar os gastos, reintegrar os desalentados, aprovar reformas (como a previdenciária e a tributária), solucionar a polêmica dos imigrantes e refugiados, recuperar a confiança dos investidores, manter políticas anticorrupção e antimáfia e integrar as regiões Norte e Sul são objetivos de Conte para impasses que parecem ser longínquos. E de fato são. A crise italiana não começou hoje.

No fim dos anos 1980, a Itália era uma espécie de milagre. Nas quatro décadas que sucederam a devastadora Segunda Guerra Mundial, o país foi, ao lado da Alemanha, um dos que mais cresceu, chegando a ser a quinta economia mais poderosa do mundo. Com Paolo Borsellino e Giovanni Falcone, a nação via-se representada no combate efetivo à máfia e era observada com bons olhos por investidores estrangeiros. Nesse caldo da bonança, a Itália resolveu se candidatar para ser sede da Copa do Mundo de 1990 e venceu a disputa. Mal sabiam os italianos, porém, que, dali a algum tempo, aquilo viria a ser um desastre para o país: superfaturadas reformas e construções de estádios deixaram um rombo tão grande nos cofres italianos que as milionárias hipotecas terminaram de ser quitadas apenas três anos atrás – só em 2015, o valor pago chegou a € 61,2 milhões, como mostra o balanço anual da presidência.

Estádio Delle Alpi, em Turim, foi construído especialmente para a Copa de 90 e durou apenas 18 anos: demolido, deu lugar ao atual Juventus Stadium. Foto: La Stampa.

A Copa de 90 era só uma marola que vinha para anunciar um verdadeiro tsunami, mas até aí tudo ia bem e “se ajeitava” num Estado com infraestrutura precária, serviços públicos por vezes ineficientes e elevados níveis de corrupção. Em 1992, este último aspecto foi alvo de uma operação batizada “Mãos Limpas”, que mudou a Itália totalmente. Liderada pelo juiz Antonio di Pietro (que posteriormente se tornou ministro e acabou acusado de corrupção), o processo comprovou um sistema político cronicamente corrompido em todas as camadas possíveis. Mais de mil condenações foram protocoladas, incluindo a do ex-primeiro-ministro Bettino Craxi, do tradicional e posteriormente extinto PSI, o Partido Socialista Italiano.

À distância, a “Mãos Limpas” pode parecer ter sido positiva, entretanto não encarcerou cerca de 90% dos sentenciados, “desfigurou completamente o quadro político italiano e abriu espaço para soluções extremistas tanto à esquerda quanto à direita”, como avalia Leonardo Trevisan, professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Para ele, o panorama, que “já era ruim, passou a ser muito pior” com a ascensão de um magnata do ramo da comunicação e também dono de um dos clubes de futebol mais populares do país para o cargo de primeiro-ministro em 1994. “Silvio Berlusconi não se mostrou ser uma opção razoável à Itália e muito menos à recém-nascida União Europeia, em que a Itália resolveu entrar mesmo com turbulências políticas e hoje é considerada um problema para parte dos italianos”, avalia.

Mãos Limpas? Di Pietro comandou operação contra a corrupção, mas acabou político e foi acusado daquilo que jurou combater. Foto: Reprodução Globalist.it.  

Trevisan explica que as divergências entre União Europeia (UE) e Itália são antigas e decorrem do fato de o país não “ter feito o dever de casa” proposto pelo bloco econômico. “A orientação, desde o começo, em 1993, sempre foi disciplina fiscal, inclusive aumentar os impostos (se necessário) para que ocorresse um equilíbrio das contas públicas, medida nunca feita”, afirma. A causa principal, para Trevisan, estaria no perfil “protetor” do Estado italiano, que mantém altas pensões e enfrenta dificuldades na arrecadação de tributos, já que cobra menos impostos de regiões pouco produtivas. “Aí há um dilema, pois você tem um sistema de distribuição com enormes diferenças de arrecadação, o que pode causar até mais atritos entre a população que já é dividida”, analisa, fazendo menção às divergências históricas entre meridionais e setentrionais que se arrastam desde a Unificação, há mais de 150 anos.

Apesar da forte representatividade dos eurocéticos na Câmara e no Senado, o governo italiano reforçou, recentemente, a responsabilidade e o compromisso que tem com as leis europeias. O discurso, contudo, esteve acompanhado da intenção de aumentar a bolsa de auxílio às pessoas que têm familiares com deficiência – que hoje equivale a R$ 1.230 – e também criar um apoio financeiro que incentive o aumento da taxa de natalidade (cuja média é pouco superior a um filho por mulher italiana). Sem falar no decreto assinado em janeiro deste ano que introduziu a “renda-cidadã”, uma promessa de campanha do Movimento Cinco Estrelas. O projeto, considerado populista, prevê € 7 bilhões para auxiliar cinco milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. O valor é de € 780 por mês por cidadão, durante um período de 18 meses, no qual os beneficiários não poderão recusar mais de duas ofertas de trabalho.

“A ideia é bonita e me parece muito justa, mas quem paga? Essa proposta vai agravar o déficit público italiano, vai aumentar o problema… Por outro lado, pode garantir vitórias eleitorais”, comenta Trevisan. O professor, que também dá aulas no curso de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), conta que o relacionamento Itália-Europa ficou mais abalado depois da crise de 2008, quando o Banco Central Europeu freou as ajudas financeiras aos países e o continente passou a ser considerado culpado pela situação dos italianos, que, desde então, já passaram por três recessões. “Achou-se um culpado e era a Europa e não o fato de que a Itália gastava demais, trabalhava de menos, tinha problemas de distribuição dos impostos e de cobrança etc. Em vez de discutir a parte séria, foi-se procurar um inimigo, que era a pressão europeia por seriedade. Aliado a isso, houve uma coincidência histórica que foi a chegada dos imigrantes, ou seja, mais um inimigo”, opina.

Legais ou clandestinos, imigrantes e refugiados chegam à Itália principalmente pelo Mar Mediterrâneo e quase sempre em embarcações pouco confiáveis. Foto: HispanTV.com.

Fabio Costantini, 43 anos, discorda de Trevisan. Nascido em Roma numa humilde família de artesãos do ramo da moda e vivendo há uma década no Brasil como chefe gastronômico, ele defende que, “por não ser comparável a nenhum outro país”, a Itália jamais deveria ter entrado na UE. Costantini comenta que, com o euro a partir de 1998, o governo italiano perdeu seu poder de manobra no campo econômico e é convicto em dizer que o bloco trata o tema dos imigrantes e refugiados com uma “hipocrisia total”. “Por uma questão geográfica, quase todos [98%, segundo a ONU] os que saem da África vêm para a Itália ou para a Grécia, e a Europa diz que esse problema é nosso… Não nos dão nada, ‘os santos dos americanos’ então nunca nos deram nem uma marmita”. Apesar de ter enrijecido a política migratória, a Itália, há dois meses, foi o único Estado a acolher refugiados dos conflitos na Líbia.

Os reflexos econômicos e sociais são, para Costantini, as circunstâncias que mais o fazem ser contra a ida de estrangeiros para a Itália, que, só em 2016, somaram 181.400 entre refugiados e migrantes, de acordo com dados do Acnur, o órgão da ONU voltado especificamente ao tema. “Para eles, ou é a fome, a morte ou um barco pagando um cara com o dinheiro da vida toda para tentar a sorte. Essas pessoas necessitam de ajuda básica, comida, cobertor… Só que depois que passa o período que a lei internacional nos obriga a recebê-los eles fazem o quê? Vão para a rua e…? Se até os italianos não conseguem emprego, imagine esse povo”. A adversidade lembrada por Costantini faz o atual regime executivo introduzir políticas de integração aos que chegaram legalmente e, ao mesmo tempo, reformular as já endurecidas regras para a cidadania com a implementação de um plano inédito de segurança em âmbito nacional. Ao mesmo tempo, existe a intenção de pôr em prática uma ação conjunta com a UE para “expatriar aqueles que não têm direito de permanecer na Itália”, como disse o primeiro-ministro Giuseppe Conte.

O que esperar para o futuro?

Se tem um ponto em que Trevisan e Costantini concordam é que, com 11% de taxa de desemprego – número pouco inferior àquele encontrado no Brasil -, a grave crise econômica que assola a Itália não é boa para ninguém e, no caso, nem para concentrar renda serve, devido a sua duração e à dificuldade em ser revertida. Além disso, há uma parcela da sociedade que é mais cruelmente atingida. Na Itália, os jovens levam a cabo a ideia de tentar algo novo e mais alentador. A estudante Camilla Bertoglio, 18, pensa em morar no exterior no ano que vem, logo após encerrar o ensino médio, porque “aqui na Itália não existem muitas possibilidades”.

Luigi di Maio (esq.) e Matteo Salvini (dir.) compõem o Conselho de Ministros comandado por Giuseppe Conte (centro). Foto: Giuseppe Lami-EPA/EFE.

Moradora de Turim, uma das cidades mais prósperas do país, ela relata uma grande dificuldade na busca por emprego para aqueles sem experiência de trabalho (situação que o governo tenta amenizar com a redução da idade mínima para aposentadoria, mesmo com o recorde histórico de expectativa de vida) ou que não possuem curso superior completo, categoria que abrange 73,1% da população entre 30 e 34 anos de idade, como informa o Istituto Nazionale di Statistica (Istat). Os números são mais impactantes se analisados do ponto de vista dos formados em cursos técnicos-científicos. Estes compõem modestos 13,8% a cada mil habitantes de 20 a 29 anos, o que representa o 22º lugar entre 27 outros países europeus.

Bertoglio conta, ainda assim, que mesmo os graduados e representantes da escassa mão de obra qualificada, quando conseguem trabalho, nem sempre exercem aquilo para o qual se dedicaram. “Você se forma médico-cirurgião e acaba encontrando trabalho como enfermeiro e, claro, te pagam pouco por isso. Coisa que não acontece na Inglaterra, por exemplo. Lá seu posto de emprego e seu salário valem por aquilo que você estudou”. A conjuntura faz até com que os jovens italianos passem a não se interessar pelas universidades do país.

Mesmo com tantas mazelas, o prefeito de Prata di Pordenone, Dorino Favot, crê em um futuro promissor para a Itália. Para ele, o governo atual representa uma ruptura com administrações passadas e, “com bom senso, está fazendo o melhor possível”. A linha de pensamento de Constantini é em parte compartilhada por Favot no que diz respeito às imigrações. “Nossa gente estava cansada das medidas ‘para inglês ver’ quanto aos clandestinos. Agora, com Salvini, nos sentimos mais protegidos”, diz o gestor municipal, reeleito em 2017 pela Liga Norte na pequena cidade do estado do Friuli, no nordeste italiano.

Favot não levanta a bandeira em favor da saída da União Europeia, mas julga ser de suma relevância revisar os tratados em vigor, até mesmo o mais recente, assinado em Lisboa, que tornou o Banco Central Europeu uma instituição oficial do bloco. Para dar mais esperança aos jovens, como Bertoglio, ele argumenta ser necessário aprovar as reformas, fortalecer o sistema educacional e majoritariamente investir em ciência e tecnologia, “valorizando as belezas da Itália e a capacidade empreendedora que (nós) temos”, proposta que casa perfeitamente com o que Trevisan pensa ser uma saída para a Península. O professor universitário relembrou os “clusters poderosos” de pequenas empresas as quais, com certos investimentos, podem tornar “pujante” a economia italiana, que tem previsão de crescimento de 0,1% pelo FMI.

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