Economia japonesa cresce pouco, mas mantém poderio

Segundo professor da USP, incentivos do governo foram decisivos para êxito do país

criado: wbchan reprodução: creative common

Por Kenya Marques e Valentina Machado e Castro

Com o território um pouco maior que o do estado do Mato Grosso, o Japão é uma potência. Segundo país mais desenvolvido do mundo, sua economia é a terceira maior, atrás apenas de Estados Unidos e China. A economia japonesa já passou por sérias crises em vários momentos da história, como após a Segunda Guerra Mundial e em 2008, mas se reergueu e hoje é considerada modelo.

Durante 1955 e 1961, houve o milagre econômico japonês. Nesse período o PIB do país expandiu-se em mais de 9%. Para esse salto, foram necessárias algumas mudanças, como priorizar a educação e estabelecer o controle populacional. O estímulo do setor privado contribuiu para o aumento das relações comerciais e para frear as crises posteriores que o país viria a sofrer. Outro fator importante foi o baixo custo da tecnologia importada. Por conta desses preços, foi possível ter um rápido desenvolvimento industrial. Com o passar do tempo, a produtividade foi melhorada por processos industriais desenvolvidos no Japão.

Por conta desse crescimento, o governo japonês iniciou o “plano de duplicação de renda”, no qual baixava as taxas de juros e impostos para motivar os investimentos. O modelo seguido nessa época era misto, com forte participação do governo e da iniciativa privada. O país conseguiu ter resultados e passou a investir em infraestrutura, principalmente sistema de comunicação, metrôs, aeroportos e ferrovias de alta velocidade.

O crescimento por conta do milagre foi sentido até meados da década de 80. Com relações próximas entre corporações e o sistema bancário, era muito fácil conseguir empréstimos, mesmo quando o investimento não possuía qualidade. Os bancos emprestavam cada vez mais, sem se preocupar com o devedor, o que ajudou a criar uma bolha financeira. Em 1989, as taxas de empréstimos interbancários foram aumentadas, o que gerou a explosão da bolha: os preços, tanto de ações quanto de ativos, caíram drasticamente, o que gerou inúmeras dívidas aos bancos japoneses.

Empréstimos e créditos baratos do banco central e a demora no reconhecimento de prejuízos criaram “bancos zumbis”, como se refere o jornalista Yalman Onaran em um artigo para a Bloomberg News. Para Onaran, esses bancos zumbis foram responsáveis pelo longo período de estagnação japonesa. Uma das tentativas do governo para voltar a girar a economia foi baixar a taxa básica de juros, que desde 1994 está abaixo de 1%.

Silvio Miyazaki, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, afirma que o Japão cresceu pouco na última década, mas ainda assim continuou na lista das maiores economias. “Houve baixo crescimento econômico, com deflação. Entretanto continua a ser um país desenvolvido, com produção de bens tecnologicamente sofisticados e com um setor de serviços com qualidade”, diz.

Um aspecto importante da economia japonesa é a inflação praticamente nula. Muitas coisas têm o mesmo preço há mais de dez anos. A população já sabe o que pode comprar com seu salário mensal sem a preocupação de que todo mês os preços irão aumentar. Os impostos não ultrapassam a marca de 8% sobre os produtos, o que torna o valor repassado ao consumidor muito baixo, gerando um maior consumo. Já os juros bancários são também baixos e sempre constantes. Em empregos, o Japão supera diversos países, com o nível de desocupação abaixo de 3%. Para estimular o crescimento, o Banco do Japão mantém as taxas de juros baixas. Sua taxa é de apenas 0,3%. A instituição promete que as taxas permanecerão baixas, para combater a deflação. Em 2017, os preços subiram apenas 0,5%. Esse é o nível mais alto em anos.

O padrão de vida japonês é melhor do que o dos concorrentes asiáticos, China e Coreia do Sul, pois seu produto interno bruto per capita é de US$ 38.000. Para Claudio Lucinda, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, o poderio econômico japonês se deve principalmente aos incentivos dados pelo setor público. “O poderio japonês vem da mão de obra qualificada, com um setor público que conseguiu apoiar adequadamente o processo de industrialização do país e uma boa integração com a economia mundial. Diferentemente dos países da América Latina, apesar de ser um mercado relativamente grande, não se apoiou principalmente no tamanho do seu mercado para se industrializar.”

As maiores exportações do Japão são automóveis e peças, produtos siderúrgicos e semicondutores. À medida que o mundo avança em direção aos veículos elétricos para combater as mudanças climáticas, isso prejudica a economia japonesa. Para enfrentar esses desafios, o governo do Japão quer que os fabricantes parem de construir carros convencionais até 2050 e os substituam pelos elétricos.

 De acordo com informações publicadas no site de análise do mercado financeiro Sino Research, o PIB japonês está crescendo por conta da recuperação de gastos dos consumidores. Os investimentos foram o principal responsável pelo crescimento no quarto trimestre do ano passado, subindo 2,4% em relação a 2017. Segundo o governo japonês, as exportações reais subiram 0,9% entre outubro e dezembro em relação ao trimestre anterior. A previsão deste ano para o PIB é de US$ 5,18 trilhões, um aumento de 4,1% em relação ao valor do ano passado. Economistas preveem um enfraquecimento das exportações e de produção industrial, devido à guerra comercial entre Estados Unidos e China.

Serviços US$ 4,343,203,926,188   Agricultura US$72,280,415,732   Industria 1,522,282,243,368

Embora o Japão possua uma enorme massa de reservas internacionais, ele tem uma das maiores dívidas públicas do mundo, de 250% do PIB.  Esta relação significa que o país deve mais do que o dobro do que produz anualmente.

Mas como o Japão se colocou nesta situação? Em janeiro de 1990, o mercado de ações japonês caiu. O valor da propriedade diminui 87%. O Banco do Japão reagiu, baixando a taxa de juros de 6% para 0,5% em 1995. No entanto, a economia não mostrou melhoras, pois as pessoas aproveitaram as taxas baixas para refinanciar dívidas antigas. Elas não pediram emprestado para comprar mais. O governo tentou a política fiscal. Isso criou a alta relação dívida/PIB. Em 2005, as empresas haviam recuperado seus balanços. Em 2007, a economia do Japão começou a melhorar. O crescimento foi de 2,1% em 2007 e 3,2% no primeiro trimestre de 2008. Isso levou muitos a acreditarem que finalmente o país havia superado a sua queda. No entanto, a crise financeira de 2008 fez com que o PIB despencasse 12,9% no quarto trimestre. Foi o pior declínio desde a recessão de 1974. O colapso econômico do Japão foi um choque. A severa queda resultou em baixas exportações de eletrônicos e vendas de automóveis.

O crescimento lento, combinado com grandes déficits fiscais e inflação próxima de zero, levou a dívida do governo de 5,2% do PIB em 1965 para 226% do PIB em 2015. O maior dono de sua dívida é o Banco do Japão. Isso permitiu que o país continuasse gastando sem se preocupar com as altas taxas de juros exigidas pelos credores. Mas isso também significa que os gastos do governo não estimulam a economia. Depois de compensar os ativos financeiros do governo, um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) estima uma dívida líquida de 152% para 2020. Ao deduzir os ativos financeiros públicos e todas as dívidas que o governo e as pessoas japonesas devem a si mesmos, o nível de endividamento é de apenas 60% do PIB e não aumenta. Esse nível de endividamento pode ser sustentável mesmo que os déficits fiscais permaneçam altos por muitos anos.

Dívida pública japonesa de 1955 até 2015 Reprodução: Terraço Econômico

O Japão só pôde se tornar a potência que hoje é graças às iniciativas que seu governo adotou durantes os séculos. Desde escolher desenvolver educação a estimular a iniciativa privada, todas as ações possuem consequências. Atualmente a educação do país é classificada como a segunda melhor em um ranking feito pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Já a economia parece estar se recuperando, porém a passos lentos.

É complicado prever quando o país se recuperará da dívida pública que possui, caso se recupere. Contudo, estamos falando de um lugar que sofreu ataque de duas bombas atômicas, registra no mínimo 1.500 abalos sísmicos por ano, aguentou o maior desastre nuclear desde Chernobyl. Mesmo diante de tantas dificuldades, o Japão ainda detém o título de uma das potências mundiais.

Leave a Reply