Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Por Natalia Maruyama e Sofia Duarte

O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu 0,2% no primeiro trimestre de 2019, na comparação com o último trimestre do ano passado, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se da primeira queda desde o quarto trimestre de 2016 (-0,6%), o que demonstra a estagnação da economia do país.

A indústria encolheu 0,7% por conta do setor extrativo, após o desastre ambiental de Brumadinho, que impactou a produção de minério de ferro. A agropecuária teve retração de 0,5% devido à quebra de safra da soja, decorrente da seca atípica no Mato Grosso do Sul, Paraná e Bahia.

As exportações sentiram a crise econômica na Argentina e recuaram 1,9% em comparação com o fim do ano passado. As importações subiram 0,5%. Por sua vez, os serviços registraram alta de 0,2%, contidos pelo elevado desemprego.

Os indicadores de demanda não demonstraram dinamismo. O consumo das famílias subiu 0,3% e os gastos do governo, 0,4%. Entretanto, o que deixa explícita a retomada lenta da atividade econômica são os investimentos, que caíram 1,7%.

Fonte: IBGE

O resultado era previsto por vários economistas, em razão da escassez de demanda e da fragilidade da atividade econômica. Alguns apontam a falta de reformas como uma das principais razões para o fraco crescimento.

O economista Silvio Campos Neto, da Tendência Consultoria, afirma que o início do governo, cheio de incertezas políticas, e o quadro internacional desfavorável contribuem para a estagnação da economia, que vem após uma recuperação bastante lenta. “Existe uma série de barreiras. Tem um aspecto global nesse processo, como a crise na Argentina, que pesa no setor industrial, mais especificamente no automotivo. Em termos nacionais, o rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, também é um fator significativo, e a especulação pela reforma da Previdência, que marca um início de incertezas para que decisões sejam tomadas.”

Para o analista econômico Marcos Henrique do Espírito Santo, professor da FMU, o Brasil vive uma depressão, uma vez que a economia, além de não crescer, oscila entre quedas que continuam se aprofundando. Na visão dele, isso acontece porque as empresas têm pouca confiança diante de incertezas políticas, que inibem investimento. “A carência de demanda e de investimentos são os principais entraves que a economia enfrenta hoje. Continuamos vivendo uma crise política e aprofundando uma crise econômica, pois sem demanda não tem emprego”, explica.

Espírito Santo também fala sobre a importância de revogar a Emenda Constitucional 95, aprovada em 2016. Ela estabeleceu um limite para os gastos públicos por 20 anos. “O agente capaz de coordenar as expectativas e incentivar a economia e o empresário a voltar a investir é o Estado. Por isso, revogar a PEC [a emenda] é importante para que o governo tenha espaço fiscal para gastar no sentido de gerar investimento.” Ele define que a reforma da Previdência não vai trazer a capacidade de investimento, apenas pode dar previsibilidade a longo prazo, e se posiciona contra a proposta de reforma do atual governo.

Após a divulgação do PIB do primeiro trimestre, o presidente Jair Bolsonaro foi questionado sobre projeções para o país e respondeu que não entende de economia. “Já falei que não entendia de economia? Quem entendia afundou o Brasil. Eu confio 100% na economia do Paulo Guedes. A gente quer melhorar nossos índices aqui, agora passa por questões até externas”, declarou. Ele condicionou a possibilidade de melhora à aprovação da reforma da Previdência e disse que não vai criar impostos. “Da minha parte, está descartada qualquer possibilidade de novo imposto ou majorar qualquer imposto, isso não existe”, afirmou.

Uma das consequências da queda do PIB é que o ajuste fiscal ficou mais difícil, já que as receitas não estão reagindo. Em 2010, por exemplo, quando o PIB cresceu 7,5%, as receitas líquidas avançaram 9,4%. Já em 2015, no auge da recessão, elas caíram 6,40%. Neste ano, com um desempenho econômico fraco, a receita líquida cresceu 0,8% no acumulado em 12 meses até março.

Fonte: IBGE

A estagnação da economia também agrava a situação do mercado de trabalho, que continua a apresentar elevados índices de desemprego e aumento da informalidade. Essa forma de trabalho traz consequências ruins para o país, considerando que a renda do trabalhador torna-se inconstante, o que prejudica o desempenho da economia.

No trimestre encerrado em março, a população ocupada era 1,76% maior do que a observada no mesmo período de 2018. No entanto, a fatia dos brasileiros que estavam no setor privado com carteira assinada aumentou apenas 0,09% no período, aponta um levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Segundo o ministro da Economia, Paulo Guedes, para que o Brasil consiga alcançar o “sonho de crescimento”, reformas estruturais, como a da Previdência e a tributária, precisam ser aprovadas.

Em concordância com a fala do ministro, o sócio-fundador da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central, Luiz Fernando Figueiredo, afirma que a reforma da Previdência é a medida mais importante para tirar a economia do atoleiro, pois será responsável por atacar o déficit fiscal, que é um dos maiores problemas do país hoje. “A reforma é o início da mudança. Na questão fiscal, o ajuste que tem de ser feito é de cinco pontos percentuais, e a reforma trará em torno de 1,5 ponto percentual. Não é suficiente, mas é muito importante. Uma vez feita a reforma, o aumento vegetativo do déficit deixa de existir. Depois da aprovação, uma série de outras medidas de corte de gastos devem ser feitas”, afirma Figueiredo.

Para Espírito Santo, o equilíbrio só acontecerá a longo prazo. “A reforma da Previdência trará um impacto zero para a economia hoje e, ao contrário, irá aumentar o gasto, porque as pessoas vão correr para se aposentar este ano antes de a reforma passar. Do ponto de vista da economia, precisamos de demanda e, por isso, é preciso revogar a PEC [emenda] do teto de gastos, que é um absurdo e congelou a capacidade que o Estado tem de investir”, insiste.

Diante do fraco desempenho da economia, as projeções de economistas e do próprio governo para o PIB deste ano ano foram rebaixadas. No Boletim Focus divulgado pelo Banco Central no dia 10 de junho, os analistas do mercado financeiro preveem um crescimento de 1% na economia. Esse foi o 15º corte na previsão, que no começo de 2019 era de 2,5%. O governo também reduziu sua projeção para a economia e trabalha atualmente com um PIB de 1,6% para este ano.

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