Por Silvana Luz

A história do Brasil, inicia de forma turbulenta em relação a causa indígena. Os colonizadores, estavam em busca de desenvolvimento e enriquecimento a partir de expansão de território. A Europa era o modelo desejável de civilização para as demais partes do mundo, exportando comportamentos, instituições e ideais, preocupando-se principalmente com a difusão do capitalismo e da doutrina cristã.

Criou-se assim uma relação de dualidade, especificada pelo “eu” europeu e o “outro” não-europeu, sendo este último considerado atrasado e incapaz de “desenvolver-se” enquanto permanecesse atrelado a um modo de vida “primitivo”.

Na visão europeia, os povos originários eram selvagens, mas foi o instinto primitivo europeu que predominou. Em um embate ilusório, oprimiu-se a religião, a cultura, as tradições e os espaços. Iniciou a expansão de territórios, houve escravidão, desmatamentos e o ouro foi descoberto, muitos morreram na mineração.

Em 520 anos nada mudou na mente do homem civilizado, não houve evolução, só dominação! Perdemos o clima, a natureza, a cultura, o ar, a agua, a paz e a saúde em nome do “progresso”. Vivemos em uma selva de pedras onde Deus é o capital.

A antropofagia que causava estranheza e era vista como selvageria, foi absorvida na forma de depredação cultural, destruíram as florestas pelo poder financeiro e político.

A terra perfurada, agoniza e sangra em paredes de concreto. Animais entram e extinção, deixam de ser alimento para virar troféu em “paredes civilizadas”, outros sem territórios, invadem a cidade em busca de alimentos.

Por mais que o povo oprimido rejeite e resista a essa civilidade insana, sua voz é calada e massacrada por madeireiros e pelo agronegócio, o homem civilizado agora ocupa os palanques e seu discurso é manipulador, nada mudou e continua o embate ilusório.

O povo originário que encontraram, ainda é o mesmo, porém, sem a cultura ancestral, sem sua religião, muitos se perderam e a língua raiz não é mais usada, sua terra mudou, mas não para melhor, pois a terra agoniza enquanto o homem busca uma civilidade ilusória.

O solo não absorve a chuva, a enchente invade as casas e as avenidas, o leito dos rios foram violados, suas nascentes poluídas, a agua que matava a sede, hoje precisa de tratamento.

E a cada dia a selvageria aumenta em busca de tecnologia que aprisiona as pessoas fechando-as e isolando-as em sua bolha social. A jornada de trabalho aumenta, enquanto direitos trabalhistas já conquistados são desconstruídos diminuindo a renda familiar e tirando a esperança de futuro.

As pessoas deixaram de vivenciar novas experiências para se tornar expectador da vida alheia através das redes sociais, o que causa um surto de problemas emocionais onde quem lucra são as empresas farmacêuticas com novos antidepressivos e ansiolíticos.

Pessoas ganham rótulos e seu valor é medido segundo sua influência social e sua conta bancária. Para ser “descolado” tem que se enquadrar nos padrões estabelecidos pela sociedade.

Tudo está tão confuso que se tornou impossível diferenciar o primitivo do civilizado, a loucura pelo progresso reduziu o homem a um selvagem urbano deprimido e sem raízes com um vazio existencial que o leva ao desespero.

A espiral da involução gira e quem sofre é o povo que antes foi visto como selvagem, mas que sofreu com o instinto primitivo do colonizador em nome da evolução!

Quem é o selvagem então?

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