Divulgação Netflix

Série brasileira 3%, da Netflix, é bom exemplo do empreendedorismo defendido por cineasta.

 Por Adriano Madruga

 Durante anos, produções cinematográficas brasileiras nunca foram muito bem vistas pela critica ou consumidas por boa parte do publico. A decadência de obras nacionais e a pouca visibilidade para atrair um público cativo sempre são temas em debates de críticos de cinema e cineastas. Porém, com o passar dos anos algumas produções brasileiras estão se tornando bem aclamadas, tanto pela critica internacional quanto pela nacional.

 Um exemplo disso é a série da Netflix de ficção cientifica chamada “3%”, que foi criada pelo então recém-formado estudante de audiovisual da USP, Pedro Aguilera. A obra consiste em uma distopia em que jovens de 20 anos passam por uma árdua seleção, alegoria para a desigualdade social e meritocracia, que dá a chance de passar a viver em Maralto, sociedade de elite sem desigualdade ou injustiça, que é separada de um lugar chamado, O Continente, um lugar carente onde está à maioria das pessoas. O investimento na primeira temporada, com oito episódios, foi de R$ 10 milhões – não é das mais caras já lançadas pelo serviço de vídeos por streaming. Ela passou a contar também com nova direção em relação ao piloto, assinada pelo fotógrafo de “Cidade de Deus” César Charlone, e novo elenco, com Bianca Comparato (“Avenida Brasil”) e João Miguel (“Cinema, Aspirinas e Urubus”).

 A série, segundo o site “Internet Movie Database”, foi avaliada por um total de 2.581 usuários com nota 7,8 de 10, e sua popularidade vem crescendo, a obra teve seu lançamento no dia 25 de novembro de 2016, a segunda temporada foi estreada em 27 de abril de 2018 e já foi renovada para uma terceira temporada que irá ser lançada em 2019. Mas, o que faz essa série ser uma das mais bem recebidas pelo publico?

 Desde seu lançamento em 2016, a critica nacional foi regular em relação à obra, em textos críticos e comentários informais nas redes sociais, destacando na maioria das vezes atuações artificiais, problemas de roteiro e um enredo não muito original. Já a critica internacional foi de maneira geral bem receptiva à série brasileira, divergindo fortemente do que os brasileiros apontaram como pontos fracos.

 A produção também chama a atenção pelo baixo orçamento que foi disponibilizado para sua realização. Contando com apenas 10 milhões, a série não deixa de mostrar o que tem a oferecer. Segundo Kelly Luegenbiehl, diretora da plataforma, ao ser questionada durante a feira audiovisual Rio Content Market sobre a obra, disse: “O Brasil ama 3%, o que era o nosso primeiro objetivo. É uma série voltada a jovens adultos, mas tem um olhar muito brasileiro, que encontrou sucesso globalmente. Principalmente na França, Alemanha e Turquia”, declarou também que, “Nesses países, se identificam com essa história, vocês tem um olhar muito brasileiro de retratar esse momento”, falou também que a Netflix ficou bastante feliz e muito surpreendido com o roteiro da série.

 Alguns especialistas falam a respeito do motivo que fez essa produção brasileira ser bem aclamada. Segundo o cineasta Carlos Augusto Calil, professor da ECA-USP, o crescimento da tão celebrada produção brasileira se deve ao fato do roteiro ter uma história nunca antes abordada aqui no Brasil que é o gênero de ficção cientifica, disse: “Aqui no Brasil esse tema ficcional nunca foi abordado em nenhum roteiro de filme ou série.”, acrescentou também “Nos Estados Unidos dentre outros países esse tema é bem adorado pelo público, talvez por isso a série tenha sido bem recebida. Afinal foi renovada para a terceira temporada, só por isso já dá para ver o quão impactante foi à série.”.

 O cineasta Augusto Mesquita, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), disse que essa série é uma oportunidade para mostrar aos futuros e talvez velhos cineastas, que não é necessário se utilizar de financiamento do Governo para produções nacionais, que só é preciso de um bom roteiro e uma boa equipe para fazer sucesso. O professor também citou um grande cineasta chamado Dov Simens, foi ex-professor de cinema de Quentin Tarantino e Spike Lee, que veio para o Brasil em 2013 para conduzir um curso chamado “Hollywood 2-Day Film School”. Disse em uma entrevista onde ele fala: “No Brasil os cineastas estão ficando muito viciados em financiamento público, pensando que esta é a única forma de produzir um filme e negando a figura do empreendedor”, e fala também que no Brasil não há indústria de cinema independente, pois isso seria um grande passo para o futuro da qualidade cinematográfica brasileira; acrescentou que a arte para ele é um negócio e criticou a falta de bons roteiros que o país tem a oferecer, porque é por meio de um bom roteiro e uma boa atuação que se faz uma ótima produção.

The Films That Changed My Life: Dov Simens
Fonte: FilmINK

 A Lei do Audiovisual, oficialmente Lei Federal 8.685/93, criada no governo Itamar Franco, tem o objetivo de financiar projetos de cinema, TV e outras iniciativas de cunho cultural e também permite que empresas e pessoas físicas financiem projetos em troca de descontos ou isenção de impostos. A ANCINE (Agência Nacional do Cinema) informou que R$ 810 milhões foram captados e liberados para 720 produções audiovisuais de 2015 a 2018. No ano passado, foram R$ 232 milhões, cifra 36% maior do que há quatro anos.

 Opiniões diversas também foram ouvidas, como a da Giuliana Gobbato aluna de cinema do terceiro ano da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) disse que gostou muito da série, pois ela trouxe atores diversificados e gostou da produção ter investido em atores nunca vistos antes, também falou bem do roteiro de ficção cientifica, porque segundo ela: “nunca um roteiro de produção brasileira foi baseado em uma história sobre um mundo distópico”, e falou também da ótima produção. A estudante de cinema Laura Ribeiro, também aluna da mesma instituição de ensino, disse que a série trouxe para o Brasil uma grande visibilidade estrangeira que pode acarretar para o país mais obras como essa e maior reconhecimento pelas produções cinematográficas brasileiras.

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