Por Kaio Chagas

A Transfobia, (aversão ou discriminação contra pessoas trans, baseada na expressão de sua identidade de gênero) é uma pauta que vem sido constantemente discutida em mesas acadêmicas e plataformas digitais pelo Brasil, o país que, em números exorbitantes, mais realiza assassinatos de travestis e transexuais no mundo (dados oriundos da ONG Transgender Europe).

 A temática aborda diversos fatores, mas em principal a desumanização dos corpos trans, pelas instituições governamentais, que legitimando esse tipo de violência, transforma o Brasil no país pioneiro mortes de pessoas transgêneros.  A agressão ao corpo trans é um processo que abrange uma grande pluralidade no Brasil, é institucional e alcança desde a burocratização do acesso ao nome social, até a inexistência de oportunidade de emprego, esse descaso social acarreta sérias consequências para o conjunto em um todo, levando grande parte dessa população á prostituição e tráfico de drogas.

A Lei João W. Nery, ou a Lei de Identidade de Gênero, propõe a mudança do prenome e do gênero a pedido das pessoas que se identificam como trans, sem necessitar de cirurgia, hormonização, advogado ou laudo psiquiátrico, entretanto hoje apenas no estado São Paulo, 3.200 pessoas estão inscritas em uma fila de espera para realizar a cirurgia de transgenitalização, ou seja, processos cirúrgicos que visam adequar o corpo da pessoa trans ao gênero de identificação e que até o momento é um requisito para o ajuste da identidade nos documentos. Porém, a unidade que realiza este serviço na cidade realiza apenas uma cirurgia por mês, fazendo que a espera de alguém que se inscreva hoje seja de 266 anos para realizar esse procedimento cirúrgico pelo Sistema Único de Saúde/SUS.

A compreensão de que nem o ensino de base é oferecido á esses corpos, apresentam a seriedade e urgência da questão trans no Brasil, dados afirmam uma evasão de quase 90% da população T nos colégios públicos por não reconhecimento de sua identidade, mesmo que garantida por lei (DECRETO Nº 8.727, DE 28 DE ABRIL DE 2016).

É de profundo esclarecimento compreender que um imaginário social estabeleceu o status quo de travestis e transexuais brasileirxs. Foi durante a ditadura militar (objeto de orgulho do atual Presidente da República) que se fomentou a morte de transexuais, em projetos como a “Operação Tarântula” iniciada em  1987 que baseava-se  em prender travestis e transexuais que trabalhavam na prostituição, porém os números demonstram que tratava-se de uma higienização da cidade de São Paulo contra esse recorte social, enquanto diversas travestis desapareciam, ou eram alvejadas nas ruas, sem nenhum motivo, articulava-se uma visão de desprezo da sociedade para com elas, e colocava-se em jogo a humanidade e direitos desses corpos.

Apesar de atualmente vermos um movimento de luta, representado por essa classe que caminha para uma emancipação, é necessário um desmonte desse sistema que prende travestis e transexuais em situação de miséria, ainda existe um longe caminho a ser percorrido, segundo o grupo Transrevolução (RJ), a expectativa de vida de uma travesti ou transexual brasileira gira em torno dos 30 anos, mostrando uma realidade ainda bruta e desconhecida.

A importância da organização de combate que vemos atualmente por corpos trans é imensurável, para sobrevivência e existência de seus semelhantes, artistas como Laverne Cox (atriz da série Orange is the new black ganhou mais de 5 prêmios por atuação), MC Linn da Quebrada (cantora atriz e ativista da causa trans que ganhou mais de 4 prêmios ao redor do mundo com sua participação do documentário “bicha travesty), usam seu trabalho em ascensão para humanizar a identidade trans e travesti pelo mundo, e é importante denotar a responsabilidade social da mídia para com essa humanização, que também é uma chave para o fim da transfobia. A rede Globo de televisão mesmo, um grande veículo que produz para massa, apresentou diversas telenovelas, que abordavam a questão trans, e mesmo que de forma rasa, já funciona como uma nova faceta do imaginário travesti na sociedade. A inclusão da pauta trans, precisa ser não só garantida por lei, mas ensinada dentro das instituições governamentais, principalmente as que garantem segurança e educação, como a Policia Militar, que ainda hoje, promove uma grande violência contra esses corpos, e necessita urgentemente de um processo de humanização para com estes, e escolas públicas em geral, pois, mesmo com certos direitos garantidos por lei, se mantém uma questão cultural e estrutural enquanto as questões de gênero no Brasil, um país ainda extremamente machista e misógino, e apenas a partir da educação de base, é possível moldar um país mais inclusivo e ciente de uma população plural. A conscientização da população, alinhada com uma mídia “desalienadora” pode sim reverter a situação da população trans no Brasil e oferecer um novo imaginário de futuro, possibilidade e vida para com elas.

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