Por Lucas Brayner

A paixão pelo futebol em solo brasileiro é inegável, um dos maiores entretenimentos do país, se não o maior. Mas quando falamos de “país do futebol” precisamos discutir o sentido que esse termo carrega.

A nascente do futebol brasileiro se dá na rua, nas quadras, nos campos de terra batida, onde as jóias são lapidadas. Para muitos dos garotos que sonham com um futuro como jogador, essas é a melhor chance da ascensão social para mudar a sua vida e de sua família.

Porém o processo de captação de jovens talentos é um problema. Há uma grande quantidade de garotos espalhados pelo país que possuem potencial para serem profissionais, mas o sistema de seleção se mostra desigual. Em apenas um dia se tem poucas horas para mostrar suas habilidades, e na ausência de um bom empresário é necessário a realização de um jogo que beire a perfeição.

Para muitos que sonham com a chegada ao futebol profissional uma competição que serve muito bem como vitrine é a Copa São Paulo de Futebol Júnior, torneio realizado em janeiro, momento que os clubes estão em pré temporada e a ansiedade pelo início das competições é enorme. Por esses motivos o destaque que o campeonato de categoria de base ganha é notório, jogos televisionados, estádios cheios, algo meio incomum para esse tipo de competição, mas acontece na Copa São Paulo.

Diante desse cenário teríamos elementos suficientes para realização de uma competição organizada, com um bom futebol, mas não é isso que acontece. Primeiramente vamos falar dos 128 times participantes, um número assustador e fora da realidade de qualquer campeonato. Com o início da competição sendo nos primeiros dias de janeiro e a sua final sendo disputada sempre no dia 25 (aniversário da cidade) é uma questão matemática, muitos times, poucas datas… Com isso temos 255 jogos em um intervalo médio de 23 dias, o que daria em média 11 jogos por dia.

Levando em consideração os dados acima pode-se chegar a algumas conclusões. É impossível acompanhar todos os jogos, algo necessário para um departamento de captação de talentos dos clubes, para que se consiga observar todos os atletas e os mesmos tenham a chance de mostrar seu futebol. Outra questão é a qualidade do jogo, com partidas a cada 3 dias o bom futebol fica de lado, além de ser um grande desgaste físico para os atletas, que consequentemente não conseguem render o seu máximo.

A primeira competição que acontece em solo brasileiro podemos notar que é uma bagunça. times que não acabam mais, um calendário jamais visto antes, estádios muitas vezes sem condições alguma de receber jogos, equipes que se deslocam de todo país muitas vezes sem condições nem de garantir alimentação para os atletas e sem ajuda nenhuma das federações, seja ela a Federação Paulista de Futebol ou a CBF.

Mas depois que a bola rola, essas questões ficam em segundo plano, a única coisa que importa é torcer para o seu time e ver ele vencer, não nos interessa como o time do amazonas que passou dias em um ônibus para chegar até aqui e só tinha recursos para ida irá voltar para casa. Poderíamos dizer que a paixão cega e nos impede de ver todas essas mazelas que vivem o futebol nacional logo no início do ano, mas eu lhes pergunto. Como pode se tratar desse jeito algo pelo qual dizemos ser apaixonados? Mas espere, isso é apenas o começo, estamos em janeiro ainda.

O campeonato Paulista é a liga de futebol mais antiga do país, carregado de história reúne os clubes mais tradicionais do estado de São Paulo. Este começa no fim do primeiro mês do ano indo até o meio de abril. Caracterizado por times (os quatro grandes, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos) sem as condições físicas ideais, desentrosados, com chegada constante de novos jogadores… Um verdadeiro laboratório. Porém essas são experiências que precisam dar resultado rápido.

Atrelado a estes fatores citados acima temos a pouca presença de público nos estádios, salvo os clássicos, normalmente as partidas recebem um número baixíssimo de espectadores. Outro fator que alimenta esse cenário é o futebol praticado pelas equipes, bem longe do ideal, por conta da falta de tempo de trabalho. Os times do interior por sua vez já iniciam sua preparação no final do ano anterior, já que seu calendário não apresenta tantas competições a serem disputadas, sendo assim algo que acontece com frequência é a vitória dos times interioranos, que apesar de inferiores tecnicamente levam vantagem nos outros aspectos.

A discussão que ronda o futebol do país na atualidade é a possibilidade da extinção dos estaduais de um modo geral, assim as equipes teriam um maior tempo de preparação e se conseguiria um espaçamento no calendário, isso por consequência geraria um intervalo maior de tempo entre as partidas. Outro fator que pesa a favor de quem argumenta pelo fim da competição é a questão financeira. O campeonato é um dos que possui a menor premiação, além de oferecer as menores cotas de TV e arrecadação com bilheteria.

Porém é importante olhar além da realidade dos quatro clubes “grandes” que compõem o estado (no caso de são Paulo), para muitas equipes do interior essa é a grande oportunidade do ano, a única disputa do calendário. Longe do glamour dos clubes da série A o futebol é bem diferente. Salários baixíssimos, poucas competições, orçamento pequeno, estádio vazio, patrocínios escassos. A única maneira de se sobreviver para muitos é o estadual, com os jogos contra as equipes da capital se lota o estádio, seja com a sua torcida ou com a do rival, mas se tem arrecadação com a bilheteria. As cotas de TV são maiores por conta da audiência gerada pelos clubes da elite. Além disso no formato de hoje o Paulistão, por exemplo, concede vagas para a Copa do Brasil e para as divisões inferiores do Brasileirão.

Paulistão, uma tradição interminável, encarregado de revelar grandes jogadores para o mundo do futebol, responsável pela grandeza e tradição que os clubes possuem atualmente. Notável que seu formato atual prejudica o motor do futebol brasileiro, porém a sua importância para os times de menor porte é imprescindível. A extinção do campeonato não se dá como solução para as problemáticas que temos, ele resolve algumas porém agrava outras. Uma saída possível seria a sua reformulação, e para isso há inúmeras possibilidades, fazer um campeonato que se estenda ao longo do ano com as equipes do interior, onde as equipes de ponta só entrem nas fases agudas é uma delas. Importante ressaltar que há alternativas para as mazelas dos estaduais de todo país, e isso não passa por suas extinções.

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