Por Enzo Cury

Na década de noventa, muito próximo a região da Avenida Paulista, durante a formação de um dos maiores impérios comerciais do país, residia Seu Jânio. Seu Jânio era um recente aposentado que, para ganhar um troco a mais e evitar um ócio, decidiu tornar-se vendedor de páginas amarelas nas redondezas de onde morava. Devido a experiência alcançada com a idade, Seu Jânio fazia bom proveito de sua região como ponto de vendas, já que morava muito próximo a um grande polo econômico.

Seu Jânio saia de casa todos os dias no final da tarde, por volta das dezoito horas mais especificamente, para aproveitar o fim do expediente e, assim, o fluxo de trabalhadores que saiam como enormes ondas de dentro dos escritórios e agências da região. Ele procurava os olhares mais cansados e possivelmente infelizes dentro daquele mar de gente para oferecer novas oportunidades, enquanto cruzava toda a extensão da avenida de ponta a ponta.

Quando era por volta das dezoito e trinta, Seu Jânio já havia escapado da multidão, e agora procurava por aqueles que saiam mais tarde do ofício, ou que se reuniam em bares com a turma para o famigerado “Happy-Hour” ou para qualquer um que se interessasse em seu produto. Porém, neste percurso, Seu Jânio encontrava duas figuras específicas.

A primeira por quem passava era um jovem em situação de rua chamado Lucas. Lucas costumava se assentar em baixo do Vão Livre do MASP, aonde podia se proteger da chuva e aonde era mais quente, em exceção apenas quando o local estava muito policiado, pois aí os “Coxa” o expulsavam. Mas ele afirmava que preferia ser expulso toda semana de onde morava, a ser expulso de casa mais uma vez. “Olha, Seu Jânio, eu nasci Juliana e vou morrer Lucas, e faço questão de que seja aqui. Prefiro apanhar toda semana de “Coxa” a sofrer o que eu sofri. Essa é a verdadeira liberdade”. Seu Jânio de solidarizava a situação do rapaz e fazia questão de ouvir a mesma história todos os dias, além de separar um trocado pra ele.

Continuando o caminho, perto de onde se encontro o Shopping Cidade São Paulo, havia um floricultura, aonde trabalha Josué. Josué era um Ex Botânico que não “largava o osso”, sua paixão pela natureza o fez estar o próximo possível desta dentro da cidade. Esta talvez fosse a personagem mais interessante, já que a floricultura na qual esta trabalhava, abastecia os estoques do Cemitério da Consolação na época, então Josué, por mais lidasse com uma das obras com mais vida existente, usava-as para financiar um mercado movido pelo luto.

Josué era cheio de indagações, e as compartilhava com Seu Jânio quando este passava em frente por volta das dezenove e trinta. Josué até comprava o produto de Seu Jânio de vez em quando, estava cansado de lucrar com a morte, mas não queria perder o contato com aquilo que amava e, por isso, acreditava que as oportunidades no mercado da botânica se atualizariam conforme fosse checando o produto. Além disso, os dos tinham um acordo: um buquê de Josué nas datas comemorativas por uma ficha de Seu Jânio.

No fim de sua jornada, Seu Jânio havia vivido diversas vidas e fora diversas pessoas. Apesar de apego ao jovem Lucas e a Josué, que eram duas figuras fixas em sua vida, Seu Jânio, mesmo que por alguns segundos, foi parte da vida de alguém que estava em seu caminho. Mesmo que seu ofício fosse simples, ele se torna um agente de transformação todos os dias de sua vida em que sai para vender suas páginas amarelas.

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