Por Beatriz Aguiar

“Sabe, Simone de Beauvoir disse, com toda a razão, que numa sociedade machista, a mulher é vista sempre a partir de sua relação com o homem”. Essa frase é dita pelo personagem de Joaquin Phoenix no começo de “Homem Irracional”, uma obra de Woody Allen. Mais uma obra de Woody Allen em que as personagens femininas são Luas, gravitando ao redor de dos planetas homens. Irônica a frase, no mínimo, porém não uma exceção.

A retratação da mulher no cinema sempre foi problemática. A da mulher forte, então… Nota-se em Hollywood um movimento dando mais notoriedade às mulheres de personalidade “forte”. Nos termos machistas, claro. Exemplos não faltam: “Garota Exemplar”, “Girl Boss”, Game of Thrones”.

Vamos começar com o primeiro título, que não poderia ser melhor. Na minha opinião, supera o original “Gone Girl”. Parabéns aos tradutores. A obra é uma adaptação fidedigna do livro de Gillian Flynn. Minhas críticas são, portanto, também a autora. A seguir, spoilers. Amy é retratada como a garota americana dos sonhos. Uma Audrey Hepburn em “Cinderela em Paris”. A Garota Exemplar, como seus pais a chamam através de uma série infantil de livros inspirados na filha. A Esposa Exemplar para seu marido, Nick. Até desaparecer. Então, a Garota Exemplar se torna a Psicopata Exemplar. Faz da vida do marido um inferno ao descobrir uma traição. O que se ignora, porém, é que a traição não foi a motivação, e sim o gatilho. A vida de casada a aprisionou, a transformou em alguém que não era. A Garota Legal, como ela mesmo define. Nick, o matrimônio, fizeram-lhe isto. O Anjo do Lar de Virginia Woolf lhe amaldiçoou, pois “se querem se dar bem, elas (as mulheres) precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando sem rodeios – mentir.” É isso que Amy faz: mentir, mentir e mentir. Negar a si mesma, sua natureza, em favor de Nick e do casamento “perfeito”. A outra Amy, a antes de Nick, não era interessante para render uma história. Ela precisava de um complemento, um tempero: Nick.

Até agora, o problema foi a narração. Em outras palavras, a autora e sua história. Vamos problematizar Hollywood então: por que eles decidiram adaptar esse romance? Por que essa história? Será que o público estava lidando e querendo mais mulheres fortes com o sucesso de “Game of Thrones”?

A série da HBO está chegando ao fim como o sucesso da década de 2010. Pode se constar o fenômeno através do número de bebês registradas em homenagens a personagens da série. As mulheres levam o ouro e a prata das homenagens. Segundo o Serviço Social americano pela NBC News, 2545 crianças nascidas em 2018 foram nomeadas Arya e 560 bebês Khaleesi. Um dado curioso: em 2017, 11 garotas foram nomeadas Cersei, mas em 2018 nenhuma. A mudança de tom da personagem, quando toda sua humanidade se vai com seus filhos, influenciou a decisão dos pais de primeira viagem? A personagem sempre foi ambiciosa, focada. Ela queria o poder e fazia de tudo para isso. Seus filhos então morreram e o agora o poder é tudo que lhe resta. Sem mais filhos para dividir seu afeto. Muito “pesado” para futuros papais? Nem imagino o que se passa na cabeça daqueles que nomearam suas filhas em homenagem à personagem de Emilia Clarke após o penúltimo episódio da oitava temporada.

De inspiração feminista a rainha  louca. Como Cersei, ela também não pode sentir o poder sem enlouquecer e se tornar má. Rainhas Más, como a madrasta da Branca de Neve. Curioso que o desenho da Disney acabe sem mostrar a princesa assumindo o trono. Ela poderia ter um destino parecido ao das personagens de George R.R. Martin? Sim, se excluirmos um detalhe muito importante: ela tinha o príncipe ao seu lado. Melhor colocando, ela estava ao lado do príncipe. Quem governaria seria ele, não ela. As personagens de GOT não possuíam esse moderador. Por isso, enlouqueceram. Vai ver, era por isso que, até a eterna Princesa do Povo, as mulheres da família real britânica juravam obedecer o marido nos votos matrimoniais.

Falando na monarquia mais famosa do mundo atual,  há uma mulher a sua frente. Uma rainha. Mas nenhum rei. O companheiro de longa data da Rainha Elizabeth recebeu o título de príncipe, não rei. A lei inglesa diz que somente os homens podem passar a suas esposas seus títulos. O contrário não é válido para que a linhagem real não se torne do marido. Isso mesmo. Não há o perigo da família de Kate Middleton virar a Família Real, caso um dia ela se torne rainha, pois seu título só se deve graças ao marido. Agora, o Príncipe de Edimburgo e sua família poderiam ser os novos donos do trono inglês caso ele recebesse o título equivalente ao da sua mulher. Rei só aquele que herda o trono, não quem, porventura, se casa com a herdeira. Não há uma explicação lógica para essa regra a não ser machismo. Um Rei está acima de todos, inclusive da Rainha.

Nos negócios, é diferente. Até a segunda página. A média de mulheres ocupando o cargo máximo de empresas é de 18%. Pouco, mas o número obtido em pesquisa feita pela Talenses em parceria com o Insper em 2018 é maior que a média mundial. As características procuradas em um CEO mudaram do século passado para esse. Segundo a antropóloga e pesquisadora do comportamento humano na Rutgers University, Helen Fischer em seu livro “The First Sex: The Natural Talents of Women and how They are Changing the World”, as  mulheres  possuem  um  talento natural para trabalhar em conjunto e negociar. São também compreensivas, sensíveis e empáticas; são aptas na comunicação verbal, podendo conciliar várias  funções  e  tarefas. Ou seja, possuem o perfil de um líder do século XXI.  

Mas elas são retratadas assim? Em “Girl Boss”, não. A série se passa na década de 2000 — século XXI, portanto — tem um garota como personagem principal tentando montar seu próprio negócio. Suas características são as mesmas de homens na liderança no século passado. É uma adaptação da biografia de Sophia Amoruso, fundadora do “Nasty Gal”. A série, cancelada após a primeira temporada, recebeu várias críticas a sua protagonista: chata, mimada, irritante, difícil. Parte do problema é igual a “Garota Exemplar” por tratar-se de uma adaptação. Então, sim, a verdadeira Sophia é uma pessoa difícil. Porém, ser difícil nunca foi um empecilho para gostarmos de personagens homens. Don Drapper de “Mad Men” e Harvey Spector de “Suits” que o digam. Eles faziam “o que era necessário” por suas carreiras. Os fãs podiam até questionar suas atitudes, mas não deixaram de gostar dos personagens. Por que com Sophia foi diferente?

Cenários propícios para falar de “mulheres fortes” são  os gêneros de ação e aventura. Dominado por homens, poucas mulheres brilham. Literalmente. Como Leia em “O Retorno de Jedi”. Mais especificamente, na inesquecível cena do biquini. Foram poucos minutos com o (melhor, com a falta de) traje, mas até hoje a personagem é lembrada por ele. Virou referência pop. Fãs de “Friends” lembrarão de Rachel vestida como Leia para realizar uma fantasia de Ross. Não posso deixar de me perguntar como a personagem seria lembrada hoje se passasse a trilogia de biquíni. Se trocarmos a saga de filmes por uma série de TV popular e o espaço por um espaço medieval, teremos a resposta. Xena,  a Princesa Guerreira, era conhecida pela armadura minúscula e sexualizada. Se fosse uma personagem de quadrinhos, seu nome seria outro: Mulher Maravilha.

Todas as citadas no último parágrafo pertencem a décadas passadas. Isso talvez seja uma luz no fim do túnel. A nova saga de Star Wars é protagonizada por uma mulher muito bem vestida, obrigada. Carrie Fisher, a eterna Leia, a aconselhou nas gravações do sétimo filme e biquínis ou roupas sugestivas estão fora do horizonte. As super heroínas roubando as telas de hoje também não pretendem ser vitrine para os desejos sexuais masculinos, apesar dos macacões apertados — oi, Viúva Negra e Capitã Marvel. Ao menos, os homens também sofrem desse mal — sim, estamos falando contigo, Homem-Aranha. Quanto a ação, bem, se na década de 80 tínhamos uma Ellen Ripley não deixando barato para nenhum alien, hoje temos a Imperatriz Furiosa trazendo água aos mais necessitados. Não vamos comentar sobre o fato de ambas terem lá suas características masculinas para não parecer que achamos que mulher só usa salto e batom — porque não usa.

A resposta para a retração da mulher nas telas talvez esteja em um livro de cinquenta anos: “A Mística Feminina”, de Betty Friedan.

“A  mística  feminina  afirma  que  o  valor  mais  alto  e  o  compromisso  único  da  mulher  é  a  realização  de  sua  feminilidade.  Afirma ainda  que  o  grande  erro  da  cultura  ocidental,  no  decorrer  dos  séculos,  foi  a  desvalorização  dessa  feminilidade.  (…) Contudo,  por mais  essencial  e  diferente  que  seja,  de  modo  algum  é  inferior  à  natureza  do  homem;  em  certos  aspectos  pode  até  ser  superior.  O  erro, diz  a  mística,  a  raiz  do  problema  feminino  no  passado,  é  que  as mulheres  invejavam  os  homens,  tentavam  ser  como  eles,  em  lugar de  aceitar  sua  própria  natureza,  que  só  pode  encontrar  realização na  passividade  sexual,  no  domínio  do  macho,  na  criação  dos  filhos,  e  no  amor  materno. Mas  a  nova  imagem  de  que  essa  mística  reveste  a  mulher  é também  uma  velha  imagem:  «ocupação  —  dona  de  casa».  Transforma  a  esposa-mãe,  que  jamais  teve  oportunidade  de  ser  outra  coisa, em  modelo  para  todas  as  mulheres”.

A mulher, ao deixar o lar e os filhos, não passou a ser ela mesma. Passou a ser um exemplo. Ela não tinha mais que ser perfeita dentro de quatro paredes, mas fora delas. Essa é uma pressão ainda maior. E quando essas mulheres não mostram ser perfeitas, logo são rotuladas pejorativamente. Estamos superando isto?   Annalise  Keating é uma possível prova. Por fora, ela parece esse exemplo de Betty Friedan: uma advogada exemplar. Esposa também. Ao longo da série, ela se mostra humana, defeituosa e gera alguma raiva, porém muito mais empatia.  Ela é uma anti heroína como Amy, como Cersei e como Sophia. Mas ela chora. Chora verdadeiramente. E isso me faz perguntar se não é essa demonstração de fragilidade histórica e socialmente associada a mulher é o fator gerador de simpatia. Se ela não chorasse, a série de Shonda Rhymes chegaria a quinta temporada ou seria cancelada após a primeira? Para essa pergunta, eu não tenho uma resposta.

Outra possível resposta para o mito da mística feminina está no filme de Woody Allen citado no começo. Jill (Emma Stone) parece ter superado sua “inveja” pelo sexo masculino e se entregado a passividade esperada da mulher perante o homem — portanto, valorizando  sua feminilidade verdadeiramente. Sua vida muda, de fato, graças a Abe (Joaquin Phoenix). E apesar de não ter personalidade como muitas de suas colegas mencionadas anteriormente, faz o que muitas delas não conseguiram: tomar as rédeas da própria vida. É uma analogia do que as mulheres (não só as difíceis) precisam e estão fazendo nas telas. Às vezes, de forma um pouco dramática, como Amy, ou sofrida, como Cersei. Esperamos agora o dia em que elas poderão sofrer para montar seu negócio sem serem chamadas de chatas durante o processo.

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