Slam: poesia que dá voz às minorias marginalizadas

Emerson Alcalde, mestre de cerimônia do Slam da Guilhermina é referência para muitos jovens da periferia

Por Vanessa Loiola

Emerson Alcalde, ator, poeta slamer e formado em artes cênicas, participou recentemente de uma coletiva e deu detalhes sobre uma arte nova no Brasil: o Slam. Uma forma de dar voz às populações que não são ouvidas e sofrem diversos problemas sociais, a performance é uma espécie de porta-voz, na qual os jovens podem demonstram sua revolta, sua identidade e resistência.

Além de ser autor do livro “Massa: poesia e dramaturgia”, Emerson é fundador do Slam da Guilhermina, que acontece na praça Guilhermina Esperança, na Zona Leste. Um dos mais frequentados da capital, o Guilhermina Esperança chega a reunir quase 100 pessoas ao redor de um lampião a gás, símbolo do evento, em noites de competição.

O Slam ou Poetry Slams – como também é conhecido – é um campeonato de poesia falada na qual o participante tem até três minutos para apresentar sua performance de autoria própria, sem adereços ou acompanhamento musical e normalmente são realizados em ambientes públicos como praças ou centros culturais. Os textos recitados nas batalhas abordam situações cotidianas, como o racismo, homofobia, machismo, preconceito, violência, questões políticas, despertando a plateia para uma reflexão e tomada de consciência em relação a estes temas. Os versos podem ser escritos previamente, mas pode haver improvisação. O vencedor, escolhido por cinco jurados da plateia, é premiado com livros e participa do Campeonato Brasileiro de Slam (Slam Br). O poeta vencedor dessa etapa competirá na Copa do Mundo de Slam, realizada todo ano em dezembro, na França e que reúne artistas de 20 países. O evento tem dado voz a artistas da periferia e pessoas consideradas marginalizadas.

O Slam foi criado em Chicago, nos Estados Unidos, nos anos de 1980, na mesma época em que a cultura hip hop tomava forma, porém chegou ao Brasil apenas em 2000. Os campeonatos de slam no Brasil foram introduzidos por Roberta Estrela D’Alva, a slammer (poetisa) brasileira mais conhecida pela mídia, que fundou o ZAP! Slam, em São Paulo. A onomatopeia, segundo ela, serve de sigla para o título ‘Zona Autônoma da Palavra’ e que conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo de Poesia Slam 2011, em Paris. O Slam é uma expressão inglesa cujo significado se assemelha ao som de uma “batida” de porta ou janela, “algo próximo do nosso ‘pá!’ em língua portuguesa”, explica Cynthia Agra de Brito Neves, em artigo publicado na revista Linha D’Água. Existem mais de 200 slams espalhados pelo país, sendo a maior concentração em São Paulo e se tornou um movimento cultural, social e artístico, que faz parte do mundo todo.

Lucas Afonso, Slam master do Slam da Ponta, que acontece na COHAB II Itaquera, é também rapper. O Slam da Ponta é um dos dez primeiros Slam do Brasil, considerando que hoje existem mais de 200, espalhados em pelo menos 20 estados do Brasil. O primeiro contato de Lucas no Slam foi em 2013 pelo ZAP! Slam. “Quando eu conheci o Slam e percebi que era pouquíssimo na cidade e que era uma coisa que quase ninguém conhecia, naturalmente acho que é um processo que acontece com todo mundo que conhecem o Slam, que é o desejo de levar para a sua comunidade”. Paralelo a isto, Lucas estava começando a se aprofundar no universo dos saraus e junto com outros jovens de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, fundaram o coletivo Movimento Aliança da Praça. Em 2015, Lucas foi campeão do Slam anual, do Slam da Guilhermina, que é considerado um dos maiores, e ganhou o campeonato brasileiro – Slam BR. Em 2016, foi o representante do Brasil na Copa do Mundo de Poesias em Paris, que foi até a semifinal. “A competição chama atenção até para quem não se interessa tanto por poesia, então o lance da competição é mais para chamar atenção mesmo, é mais uma estratégia do que a competição em si”, explicou.

Após se desvincular destes projetos e com a vontade de continuar fazendo Slam, Lucas se juntou com a pedagoga Flávia Rabello e entraram em parceria com Reação, Arte e Cultura, que era uma ocupação cultural da COHAB II em Itaquera, e tinha uma proposta de criar um espaço de cultura para a população, então, criaram o Slam da Ponta, em 2015, que além deste, vários coletivos contribuíram para a existência do Ponta e do “Arte é Zueira – coletivo audiovisual. “É legal pensar que no Brasil o Slam tomou outra cara, porque quando surgiu em Chicago, nos anos 80, no Estados Unidos, Europa, Canadá tem uma característica de ser em lugar fechado, em um lugar que até paga ingresso para entrar. No Slam do Brasil tem esta característica de ocupar espaço público e já entra em outras questões”. Afirmou Lucas e continuou: “Nesta onda dos Slams que foram surgindo entre os dez primeiros, quando a cena foi se expandindo e sem perceber o Slam da Ponta está dentro desta proposta de ocupar espaço público, porque a gente realizava o Slam da Ponta em uma ocupação cultural, que era de fato um galpão da COHAB, então vem já em outro braço deste lance de ocupar espaço público, dos Slams que ocupam praças, estações de metrô e trem”.

Como meio de transformação do indivíduo, Lucas aponta como a oportunidade de conhecer outra cultura se tornou um ponto positivo. “Eu, um jovem recém-saído de uma escola estadual, recém terminado o ensino médio, sem muita expectativa, como que ia sair lá de são Miguel e ir para Paris? Então o Slam tem muita importância mesmo, que atravessam a competição. Na semifinal o poeta do Madagascar me olhou nos olhos e falou ‘ estamos com você, vai que você é um dos nossos agora. Todos os outros são do hemisfério norte, todos os outros são de países colonizadores, todos os outros falam três, quatro idiomas, vai que agora é nós”. E apesar de não ter vencido a competição, Lucas conta que voltou muito engrandecido pela experiência e quer mais do que nunca plantar a semente e continuar este processo.

E não é só em escolas que se ensinam a poesia, Lucas contou também que deu oficina de poesia em Hospital Psiquiátrico Pineu, de Pirituba; na Cracolândia e no programa De Braços Abertos, que tinha na gestão do Haddad. “Eu tinha mó preconceito, falava ‘meu o pessoal aqui fuma craque, ninguém vai querer saber de poesia’, quebrei a cara porque rolou muito mesmo. Tanto que os participantes desta oficina recitavam suas poesias, contavam suas músicas em um sarau que a gente realizou lá no Memorial da Resistência, ao lado da sala São Paulo, espaços onde eles transitavam diariamente e não eram barrados na porta”.

Apesar do Poetry Slams ser popularizado no mundo, no Brasil é ainda uma atividade nova. “Se sair na rua perguntado o que é Slam as pessoas vão achar que é religião. A cada ano que passa, que vai um representante do Brasil pra lá a cena cresce na comunidade deste poeta, quando o Emerson Alcalde veio representar o Brasil, a zona leste expandiu, muita gente se inspirou, inclusive eu. Quando o João de Belo Horizonte foi, a cena se expandiu. É algo que a cada ano vai aumentando Brasil a fora”.

Com isso, o Slam está surgindo na mídia ainda de forma tímida, a revista Claudia, Trip e o programa Manos e Minas da TV Cultura fizeram e fazem menção ao Slam. “A liberdade de expressão não cabe em qualquer lugar”, disse Lucas e contou que chegaram a mencionar que ele “furou o bloqueio midiático” com sua aparição no Manos e Minas ao fazer três poesias que não se fazem na televisão, ao citar nome de político, de empresas, o Slam é sob livre expressão e acaba “não passando no filtro da censura”. Lucas ainda lembrou que nos dias atuais não pode mais falar nome de político no ar. Entretanto, tem séries na Netflix, HBO, novelas que terá slamers. “a galera está começando a ver o potencial disso e já, já vai fazer uso disso pra bem ou pro mal. O capital capta tudo que ele pode, onde ele vê potencial, como diz a frase do Emicida ‘ os caras vendem Deus e porque não ia vender rap?!’ e porque não vender Slam?!”.

Além de trazer inúmeras transformações para os slamers, a sociedade também acaba se beneficiando disso. Lucas contou que um ex-presidiário falou ter visto um vídeo dele e por influência, estava indo apresentar suas poesias e participar do Slam. “Então um cara que saiu da cadeia e depois de dois meses estar em um Slam de poesia, numa sexta-feira à noite é algo relevante. Toda arte tem um poder de transformação muito forte”. E o coletivo acaba também se beneficiando do movimento. “Você não consegue fazer um Slam sozinho, tem de ter quem escute, quem fale, então o Slam de poesia tem haver também com formação de comunidade. Pra você fazer Slam no seu bairro, vai ter de dialogar com seu entorno, você vai ter de se organizar coletivamente, tem que bater na porta do vizinho pra chamar para participarem, vai ter de pedir pro padeiro um ponto de energia para puxar uma tomada na praça”, disse Lucas.

“Em uma aldeia indígena todo mundo canta, todo mundo dança, todo mundo confraterniza. Não tem o detentor do dom, são fazeres coletivos que reúnem as pessoas para trocar, conversar e ao vivo, eu acho que o Slam traz isso de volta”, completou.

Em relação às mídias não exporem este tipo de arte, Lucas opinou: “Isso é perigoso para o sistema. É perigoso pensar que em uma segunda-feira à noite, na praça Roosevelt, se reúnem 500 pessoas para discutir o que se discute no Slam, uma manifestação contra a reforma da previdência talvez não reúna isso, uma manifestação contra o aumento da tarifa talvez não reúna isso em uma segunda-feira à noite, é um novo caminho, um novo meio de discutir política”.

 E apesar dos versos de slam serem de crítica social, tem quem fale de amor também: “Nestes tempos de ódio, falar de amor também é um ato político”, concluiu o slamer do Ponta.

Lucas Afonso Slam da Ponta (Foto: Divulgação)

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