Universo feminino na cultura hip hop

Rappers e grafiteiras falam do preconceito que ainda existe enraizado

Por Vanessa Loiola

Na década de 1970, o hip-hop surgiu em Bronx, cidade de Nova York, nos Estados Unidos, em meio ao subúrbio de afro-americanos, latinos, entre outros, que estava passando por diversos problemas de ordem social como desemprego, pobreza, educação, tráfico de drogas, violência e racismo. Os jovens da região não encontravam nas ruas um espaço de lazer então entravam em sistemas de gangues e lutavam pelo domínio territorial. Nesse caldeirão de manifestações que inclui a violência típica das grandes cidades, a arte encontrou seu espaço. O hip hop é formado por quatro elementos: o rap; som feito pelo DJ; dança – breaking, popping,  freestyle – e o grafite. Desde os anos 80, com a chegada do movimento hip hop no Brasil, com sua moda da calça e camisa larga, boné para trás ou de lado, a arte é praticada por homens, entretanto, as mulheres vêm conquistando seu espaço na luta contra o preconceito.

Mariana Vieira, de 23 anos, é rapper, nasceu em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, e atualmente faz parte do coletivo de poesia Slam Quilombo de Dandara, além de ser militante do Levante Popular da Juventude. Mah Vieira, como é conhecida, disse que a mulher está conquistando seu espaço não somente no hip hop, mas em diversas áreas. “Não só a mulher cis, mas também e principalmente a trans, preta, gorda e periférica. Eu acredito também que falta muita luta sim, aliás, a luta nunca tem fim. São anos para se obter resultados e ver nossas sementes brotarem. Mudar um modelo de sociedade é um processo histórico. Longo”. Mah também é educadora social e dá aula na oficina de poesia em uma instituição da cidade para crianças e adolescentes vulneráveis e não produz somente rap, mas outros gêneros também. Ela conhece bem o preconceito enraizado: “Dentro de cena nem tanto, mas fora. Em todos os cantos. É mais por parte dos homens em geral das pessoas mais velhas. Por parte das mulheres é uma coisa mais velada, sútil”, completou.

Aline Marcelino, de 26 anos, mais conhecida como Alliblack, iniciou seu primeiro projeto no rap nacional, no qual apresenta letras que focam no empoderamento feminino. “É difícil encontrar uma mina que não tenha sofrido preconceito dentro do movimento hip hop, porque o machismo está em todo lugar. Só por você ser do movimento de rua já está sendo malvisto pela sociedade, a gente é taxado como arruaceiros, rebeldes, marginais, é assim que a sociedade te enxerga. Homens sempre tem mania de achar que são melhores em tudo, e eles sempre privilegiam o trabalho de outros manos e não das minas. As minas estarem no corre e batendo de frente é pura resistência, eles não querem nos dar espaços. Quantas vezes a gente precisa cobrar para que os homens coloquem mulheres na lista de apresentações, quantas vezes a gente tem que cobrar a presença de mulheres em cima do palco, porque eles pensam somente neles. Só que as minas estão articuladas e cada vez estarão mais e mais ocupando os espaços que são delas por direito”. Alliblack é publicitária, poetiza, DJ, compositora, além de também fazer parte do Slam Quilombo de Dandara – idealizadora – e militante de diferentes movimentos sociais.

Dina Di, Karol Conka, Negra Li, Missy Elliott, Cardi B, Lauryn Hill, Linn da Quebrada, Flora Mattos, Tássia Reis, Yzalú e Verá Verônica são algum dos nomes femininos que inspiram estas e outras milhões de mulheres, que lutam por espaço na cultura hip hop. “Eu escuto hip hop desde muito tempo, a parte que mais tenho em memória é dos anos 2000, que eu tinha vários dvd’s com clipes de hip hop, por eu vir de uma cidade sertaneja foram esses dvd’s que me salvaram e me deram referência do que eu queria ser e sou hoje”. Alliblack nasceu em Mato Grosso do Sul, no município de Bataguassu e mora em Presidente Prudente – São Paulo – desde 2013.

O grafite, como é conhecido hoje, popularizou-se a partir do movimento contracultural de maio de 1968, quando os muros de Paris, na França, foram utilizados para inscrições poéticas e políticas. “De 2010 para frente, duplicou o número de mulheres pintando na rua”, revelou Bela Gregório, coordenadora do Efêmmera uma rede feminina de artistas de rua. A grafiteira Mari Monteiro, de 27 anos, que é formada em artes cênicas, conta o motivo de ter entrado para a pintura: “Eu vi que o grafite consegue atingir as pessoas de uma forma direta e gratuita. Está na rua, pode mudar o dia de alguém”. E completou falando sobre a luta das mulheres pelo espaço na arte: “Ser mulher já é resistir. Resistir a dupla, tripla jornada. Resistir a violência e ao machismo. As mulheres foram vistas como objeto sexual, sempre pintadas, mas nunca como pintoras, artistas, mas creio que hoje estamos mudando isso, não podemos parar de lutar”. E completa falando que um amigo da Fundação Casa, local em que trabalha, apresentou o grafite. De início Mari não gostou da ideia, até que foi a uma exposição de arte urbana, na qual esse amigo estava participando. “Foi aqui que BUM, caraca, que louco! Foi tipo amor à primeira vista e desde então não parei mais de pintar”. Na sequência, contou que o grafite a ajudou a sair da depressão: “Depois que comecei a pintar minhas crises diminuíram 90%. Hoje consigo ter uma qualidade de vida melhor”.

Se o hip hop já enfrenta preconceitos, o lugar da mulher neste contexto é ainda mais complicado. Para isso, surgiu a Crew Minas de Minas, que é o único grupo feminino só de grafite em atividade no Brasil. Formada pelas grafiteiras de Belo Horizonte Krol (Carolina Jaued), Musa (Louise Libero), Nica (Nayara Gessica) e Viber (Lidia Soares), o grupo foi formado em 2012, porém todas já tinham há muito tempo um trabalho individual no grafite. “A gente teve a ideia de formar este grupo justamente para trazer novas mulheres para a arte, porque na época que a gente iniciou eram pouquíssimas mulheres que estavam na atividade e a gente queria ser um ponto de referência para que estas mulheres se sentissem incentivadas a estar dentro da arte do grafite. Além disso tudo, divulgar nosso trabalho. A gente teria um peso maior sendo em quatro juntas do que cada uma no seu individual”, disse uma das integrantes do grupo.

Krol falou sobre o preconceito que vem tanto dos homens como das mulheres: “A gente escuta coisas, é mais cantada”. E continuou falando da luta das mulheres para conseguir seu espaço na pintura. “As mulheres têm se jogado mais, indo para as ruas, umas se juntando as outras. A gente tem um evento na qual a gente faz o convite para estas mulheres estarem todas reunidas e a gente ver o tanto que é crescente o trabalho evoluindo, as mulheres fazendo, botando a cara mesmo”, concluiu.

Crew Minas de Minas

Bruno Gambah, como é conhecido, teve seus primeiros contatos com a cultura hip hop em meados de 2003, através do grupo Elite Breack. Atualmente desenvolve atividades principalmente com crianças, voltadas para o graffiti e ilustração, de acordo com informações do portal Redes Culturais. Bruno tem a consciência do preconceito que as mulheres sofrem em cena: “Essas dificuldades são comuns aos homens, agora para as mulheres, posso dizer que elas triplicam. É comum relatos de meninas que foram subjugadas por se dizer grafiteiras”. E acrescentou: “O grafite antes de tudo é liberdade de expressão. É resistência, luta e cultura, mas não existem flores neste meio, os materiais são caríssimos, um trabalho bem feito requer bastante estudo e quase nunca dá dinheiro”.

Organizado por alunos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Labuta é um grupo de rap, que reúne desde 2011 artistas de dentro e fora da universidade para batalhas ( duelos musicais) e contam pela primeira edição com eventos fora da PUC, como no Espaço de Refugiados Árabes, no Centro de São Paulo e surgiu principalmente para democratizar o campus. Lucas Freemas, integrante do grupo entende do preconceito: “Eu sinto que as mulheres, os negros e todas as estas populações minorizadas, falta representatividade em qualquer linguagem artística e o rap que toma este protagonismo perdeu muito espaço, principalmente mulheres e homens negros”. Lucas contou que ouve poucas mulheres no rap, mas Dina Di é uma de suas referências e cita também o Mano Feu – uma menina lésbica, que já participou da batalha com os alunos da universidade, além de Drica Barbosa, Tati Botelho e Clara Lima. “As minas do rap Plus Size são a ponte entre o Slam e a batalha, porque hoje o Slam é, na minha opinião, o posicionamento político, a coisa mais importante que tem de movimento cultural popular, são predominantemente mulheres negras, onde não se rouba a narrativa, onde não se passa pano para machista, racista, para ninguém, as minas tem voz, as minas são ouvidas”.

Fundado em 2010, a Frente Nacional de Mulheres no Hip-Hop (FNMH2) é um coletivo com o intuito de disseminar cultura e ir em busca de política pública de gênero. Está representado em mais de 15 estados do Brasil e vem realizando e ampliando seu leque de ações em prol da liberdade feminina, destacando a importância da participação das mulheres na sociedade através de atividades temáticas, formação cultural, social, política e de cidadania. São realizadas também debates, fórum, oficinas, shows, workshop e elaboração de projetos sociais e culturais.

No dia 24 de março, a FNMH2 realizou na Casa das Caldeiras em São Paulo o 4° festival, que teve a cobertura do TV Nas Ruas. O evento contou com batalhas de breaking, grafite – live Paint com a grafiteiras Gabi Bruce e convidadas -, DJ, batalha de MC’s (batalha dominação), rap e poesia, túnel do tempo com 15 anos do Portal Mulheres no hip hop, debate sobre a mulher negra no hip hop atual, além de sessão de fotografia, retratos – vídeo dança e bate-papo – e muito mais.  “Viajo pelo Brasil incentivando meninas a conhecerem essa cultura. Lunna Rabetti, fundadora da Frente, conta ter viajado por vários países incentivando as meninas a conhecerem essa cultura, acrescentou que já esteve na França, Espanha e Israel.  O livro lançado em 2014 por Lunna, Perifeminias, em várias cidades do estado de São Paulo, com o objetivo de dar mais visibilidade aos trabalhos femininos e lutar por políticas públicas para as mulheres.

Apesar de toda conquista e luta que ainda é necessária, Mari Monteiro conta que em Bauru, cidade em que mora, é uma das pouquíssimas mulheres que pinta, em meio a muitos homens, na arte. Seu personagem de representação é um coração humano, que vem acompanhado de frases, na qual segundo Mari, representa o sentimento puro e verdadeiro. A artista já fez grafite no Chile, participou de sua primeira exposição coletiva na galeria do Teatro Municipal, fazendo parte do anuário de artes de Bauru, participa de um projeto na qual ela denomina de reciclagem criativa, na qual reutiliza os materiais que usa no grafite para se transformar em arte. “Grafite representa transformação. Nunca se sabe como vai atingir alguém, pode ser por alegria, revolta em forma de protesto, saudade, amor. Cada um sente da sua maneira, mas creio que esse seja o papel da arte, trocar, transmitir ou impactar alguém”.

Grafiteira Mari Monteiro

As minas do hip hop costumam passar nas letras e nas pinturas o que estão atrelados em seu cotidiano como questões de gênero, políticas, raciais, entre outros, e os amigos e familiares acabam dando todo o suporte e inspiração para que estas meninas continuem fazendo o que gosta, sem o pré-julgamento dos outros. “Costumo cantar sobre empoderamento feminino no hip hop, sobre políticas sociais voltadas para o povo preto. Eu canto o que vejo e o que vivo”, disse Alliblack e completou contando o que simboliza o rap para ela: “Rap representa salvação. São vários jovens buscando uma vida melhor através de algo que eles acreditam, que fazem por amor, digo para quem faz rap de verdade e não por hobby. O rap tira o jovem da vida do crime e dá para ele um caminho que o estado sonega. O hip hop é a salvação de muitos”. Na sequência, fez uma definição: “Música para mim é poesia da alma”, destacou.

Mah Vieira também falou da simbologia que tem o movimento hip hop dentro dela. “Rap para mim representa uma ferramenta de transformação de vidas, onde abre mentes, portas e olhos. Dá outra ou alguma expectativa de vida. Transforma os sentimentos também e é capaz de abalar estruturas. Para mim é uma das coisas que mais me direciona hoje. Ainda é um dos poucos espaços onde eu consigo me projetar no futuro, devido ao tipo de trabalho que eu faço e a maneira que eu quero viver. Me senti pertencente a um espaço, onde as pessoas paravam realmente para me ouvir. Pode usar o rap para fazer trabalho de base e tirar a molecada do comodismo, do tráfico, e fazer com que eles transformem toda essa maldade que o sistema nos aplica diariamente. O rap salva vidas”, finalizou.

Mah ainda acrescentou: “O mais importante de tudo isso, é poder trocar e mudar a vida de outras pessoas e principalmente a vida de outras mulheres. Um verso meu traduz bem sobre. ‘Por cada mina que tá aqui e sente no peito sua arte gritar. Não vai ter sentido meu corre se eu puder subir e comigo mais 20 levar’. Uma ajudando a outra, ocupando os espaços e rompendo com essa lógica machista e opressora que nos colocaram. A arte em si, tem esse papel. De tirar as pessoas do lugar, trocar de papéis, transformar e expressar”.

Leave a Reply