Emerson Alcalde organizador do Slam da Guilhermina conta os desafios do gênero poético

por Artur Ferreira

Poetry slams mais conhecido no Brasil como Slam, é um encontro de poesia falada e performática, os poetas participantes se apresentam para um público muitas vezes em locais abertos, como praças, quadras, ou até mesmo próximos a estações de metrô como é o caso do Slam da Guilhermina.

Nas competições de Slam, os poetas são avaliados por um júri popular de até 5 jurados, que dão suas notas ao final da apresentação que avaliam tanto a fala quanto a teatralidade da apresentação.

“O Slam ele é muito baseado em uma oralidade e performance na forma de apresentar, tem muito poeta de Slam que nem escreve suas poesias, ele repete o texto até decorar, que pode ser chamado de performance da fala, é o corpo falante,” afirma Emerson Alcalde ex-competidor de Slam.

Emerson Alcalde também é um dos organizadores do Slam da Guilhermina que ocorre próximo à estação Guilhermina-Esperança do Metrô de São Paulo. Emerson possui formação no teatro, e por causa da recomendação de um amigo, decidiu conhecer o Slam e logo se colocou dentro dessa cultura de poesia performada.

“O Slam ele é muito baseado em uma oralidade e performance na forma de apresentar, tem muito poeta de Slam que nem escreve suas poesias, ele repete o texto até decorar, que pode ser chamado de performance da fala, é o corpo falante.”

No Brasil existem cerca de 150 encontros organizados de poesia falada, 51 só em São Paulo, e essa forma de poesia é costumeiramente associada ao Rap e a cultura hip-hop principalmente por ter sido abraçada por um público que veio da periferia e que possui suas inspirações em rappers e grupos de rap, como Racionais MC’s, Djonga, Rashid, Rincon Sapiencia, Emicida, entre outros.

Emerson Alcalde falando sobre as apresentações de Slam (Foto: Gabriela Neves)

“A maioria dos Slams tem ligação com hip-hop, são quase primos. Em países como o Canadá e a França essa ligação também é muito forte. Porém ainda sim em cada país o Slam se adapta naquele contexto, a Argentina por exemplo é mais próximo do Rock”, afirma Emerson e complementa dizendo:  “e além disso na própria forma de apresentar o Slam cada país tem sua maneira, aqui no Brasil é o ar público mas em um lugar como Estados Unidos as apresentações são em lugares fechados, por exemplo”.

Emerson já competiu como slammer profissional, representando o Brasil na Copa do Mundo de Slam de Poesias de Paris em 2014, onde foi vice-campeão e o brasileiro até o momento que chegou mais longe na competição. O slammer conta que depois da Copa do Mundo se tornou amigo do campeão que viera do Canadá, que na visão do poeta é um dos principais países nas competições de Slam.

Hoje em dia se considera “aposentado” como ele mesmo brinca, porém seu foco agora é organizar e promover o Slam e trazer novos poetas para esse gênero da poesia. Emerson também participa como organizador e produtor de outros Slams como o Red Bull Station e o Slam apresentado no Nossa Casa no bairro da Vila Madalena que possui uma banda de jazz que acompanha a poesia do slammer enquanto acontece sua apresentação. “Essa ideia eu tive enquanto estava no Canadá, foge um pouco do Slam tradicional feito em um local aberto, mas o objetivo era mostrar essa poesia a um outro público de outra classe social que frequenta esses outros ambientes.”

Na visão de Emerson, o Slam também tem sim sido uma porta de entrada para o jovem que se interessa por poesia, começar a ter um maior contato com a literatura no geral. O organizador do Slam da Guilhermina complementa dizendo que isso é algo que ainda deixa a desejar em alguns jovens que estão no Slam, que possuem uma extrema facilidade em declamar sua poesia, mas escrevê-la ainda é um desafio e que reconhece que seja um problema do sistema educacional como um todo.

“Essa última geração de poetas de Slam usam bastante da fala, mas os jurados avaliam e muito a parte mais teatral da apresentação, quando o poeta grita, fala alto, usa do corpo, é realmente estruturar uma cena.”

João Marcelo, que é cantor de rap e trap (estilo musical que incorpora elementos do rae e uso frequente de onomatopeias e sintetizadores) de Itamonte em Minas Gerais, afirma que começou a escrever suas primeiras letras de rap e poesias aos 11 anos, e sempre possuiu uma facilidade com a rima.

O cantor conta que durante sua adolescência criou uma roda de rima em uma praça em sua cidade, João conta que era uma cidade pequena e por isso havia poucas distrações para o jovem que não se interessasse por sertanejo ele exemplifica.

João afirma que conheceu a poesia Slam pela internet em vídeos de Youtube, o cantor se diz um apaixonado pela poesia em geral e o Slam logo lhe atraiu. O trapper ainda não assistiu presencialmente a uma poesia Slam, e diz estar ansioso para poder ir a um, agora que mora em São Paulo.

Emerson também fala que a poesia Slam não possui uma boa visibilidade na mídia ou no meio acadêmico, ele considera que ainda é um nicho, “não é uma poesia que não está presente em prêmios como o Jabuti, não se vê slammers ganhando esses prêmios.” E continua: “na França por exemplo, os metrôs ficam lotados de cartazes de eventos de Slam, rappers franceses participam constantemente dos Slams, lá o reconhecimento é muito maior”.

“Para uma parte da mídia o Slam é muito mais encarado como um movimento social, pouco se fala da poesia feita em si”, Emerson também comenta que a politização que é feita nas letras de Slam brasileiras não é comum ao estilo feito por slammers no resto do mundo, “nos Estados Unidos ainda se possui um teor mais político, na Europa em geral os textos são muito mais líricos e tranquilos. Esses Slams falam sobre outras questões sociais que estão muito distantes das do Brasil, lugares como Itália e Holanda possuem até mesmo referências a comédia stand-up”.

E como no caso de João Marcelo, Emerson cita outros exemplos de pessoas que tinham interesse pela poesia e pelo slam mas que seguiram outras carreiras, como Saul Williams, slammer que agora trabalha como ator no cinema.

Alcalde diz que muitos jovens que passam por Slams e outros tipos de evento  como os que ele organiza são pessoas que querem uma carreira artística, principalmente a da música como é o caso do rap ou do trap, dificilmente acontece o contrário, o de um cantor de rap migrar para o Slam. Pois os gêneros como rap hoje estão mais populares, na sua visão, enquanto que a poesia Slam ainda é pequena em questões de popularidade no país.

João Marcelo discorda em partes, afirma que Trap e certos formatos de Rap são populares por serem produzidos para serem comerciais, mas para o cantor o gênero em si continua como algo contestador e não necessariamente ‘pop’, “a maioria dos artistas são independentes, na história do hip-hop sempre houve problemas entre o artista e as gravadoras”, e conclui dizendo “dificilmente você um cara novo estourar, antes você acompanha toda a jornada do artista até alcançar a fama”. Alcalde relata que quando se trata até mesmo de leis de incentivo à cultura os Slams não são nem cotados como possíveis beneficiários dessas leis. O slammer afirma que um de seus principais objetivos agora para popularizar o Slam é investir em livros de poesia escrito por slammers, transformar em literatura esse movimento para ganhar o espaço devido.

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