O que são os Zines

Por Paulo Santos

A indústria do livro no Brasil passa por uma grave crise. No último ano, duas das maiores redes de livrarias do país entraram em processo de recuperação judicial e anunciaram o fechamento de dezenas de lojas, são elas as livrarias Cultura e Saraiva. Não é novidade para ninguém que o mercado editorial de livros passa por uma grave crise mundial. Cada vez mais as editoras buscam no ambiente online refúgio e salvação, porém, muitos leitores e editores não abrem mão do bom e tradicional papel. O zine pode se assumir como forma de resistência do livro em sua forma tradicional, impressa?

O que é um zine? Um zine é um pequeno livro produzido de forma independente por algum artista. Para aqueles jovens que mal tem acesso aos livros, o zine surge como uma forma acessível economicamente de experimentar a cultura escrita. É obrigação do estado oferecer ao cidadão educação, saúde e cultura. Os zines estão aí como mais uma das tantas expressões periféricas que nascem com o intuito de ajudar no preenchimento da lacuna cultural deixada pelo estado no quesito cultura. O que se vê, são os zines sendo comercializados e produzidos no espaço público, na rua, local onde a busca e o fomento à produção cultural deve ser constante.

Editores de zines produzem trabalhos que abrangem uma enorme variedade de assuntos, de música a esporte, de coleções de poesias às ocorrências diárias na vida pessoal do próprio artista. Apesar da enorme quantidade de assuntos possíveis, a grande maioria dos zines apresenta muitas características em comum, que podem ser examinadas a partir da ênfase na autonomia e na independência do produtor, e na relação conflituosa com a cultura tradicional, por ser uma expressão cultural de origem underground.

O poeta Slammer Emerson Alcalde, vice campeão mundial de poesia Slam em 2014, diz que o zine é mais uma forma de poesia marginal, que não está no mercado editorial, não é reconhecido como literatura por muitos, mas está aí nas ruas resistindo: “Você pega um papel de caderno, joga uma poesia lá, e vende. O jovem que quer fazer uma faculdade mas não tem dinheiro, vende sua produção cultural, vende sua poesia, para ter dinheiro ao menos para voltar para casa. Coisa de 50 centavos, dois reais. São poetas que não conseguem publicar um livro, acaba o zine sendo esse material físico mais popular. O zine fazia sucesso na época dos punks e agora vem sendo retomado por ser fácil de fazer”

Poeta Emerson Alcaide em entrevista coletiva

Como e onde funciona o comércio de zines?

Em conversa com o poeta Marcos Moura, numa noite de sexta feira na praça Roosevelt, o mesmo contou que sai pelas noites agitadas da cidade com o intuito de juntar o útil ao agradável, se divertir no rolê e ainda ganhar um dinheirinho vendendo seus zines de poesias. Segundo ele, o centro de São Paulo está repleto de artistas, e você pode se deparar com um o tempo todo. Para Marcos, o preço não importa, o importante é disseminar suas poesias e espalhar cultura para as pessoas. Para que alguém fique com algum de seus panfletos, o esquema é claro, pague quanto puder, e se não puder, não pague nada! “Mas se quiser comprar um por um milhão eu aceito também”, brincou ao ser questionado sobre quanto custava.

Ao perguntar se ele produzia seus zines como forma de subversão, ele foi poético na resposta: “Acredito que nesse momento subverter é uma palavra perigosa. Mais do que um lugar que eu posso me subverter, vejo na poesia um lugar de encontrar. Seja no encontro com algo ou até com você mesmo. E é nesse encontro que o significado das coisas se subvertem. A subversão está imersa na poesia, porque quando você escreve e bate de frente com questões que dizem respeito a nós mesmos ou na nossa sociedade, você acaba subvertendo várias coisas que você tinha como verdade, criando novas verdades e descartando outras”

Zine de Marcos Moura

A literatura zine não está restrita ao centro de São Paulo, mas ela está no espaço público como um todo. Nos diversos eventos de poesia Slam que ocorrem na cidade, nos metrôs e trens, nas batalhas de Rap, nas saídas do teatro, nas exposições de arte; esses artistas da escrita periférica em ascensão estão preenchendo o papel com o qual foi abandonado pelo poder público, o de proporcionar cultura para todos, e em qualquer lugar. O papel de tornar a leitura e a escrita acessível.

Qual a origem dos zines?

O zine surgiu a partir do que eram as fanzines na época de 70 e 80, sob a perspectiva da cena musical punk, onde os próprios fãs faziam entrevistas com as bandas e as passavam para o papel da forma que lhes convinha, seja através de recorte e colagem, xilogravura, fotos, desenhos e outras coisas. É difícil pensar no nome Zine sem pensar também naquela que seria outra origem do termo, a palavra magazine, revista, porém seus significados e objetivos se opõe, assim como explica Larry-bob, editor do zine Holytitclamps, em artigo científico publicado por Fred Wright sobre a História e Características dos Zines. “Não há apóstrofe em zine. Zine não é abreviação para magazine. Uma revista é um produto, uma mercadoria comercial. Um zine é um trabalho de amor, produzido sem lucro. (…) Informação é a razão pela qual um zine existe; qualquer coisa além disso está de fora.”

A evolução de fanzine para zine foi um processo. Uma vez fora do domínio exclusivo dos fãs musicais, os fanzines foram agregados a outros setores editoriais independentes, como a imprensa underground ou aqueles jovens artistas que possuem o sonho de publicar um livro. A questão é que o conteúdo deixou de ser algo com o qual o editor fosse fã, para poder se tratar dos mais diversos, dos amorosos aos problemáticos, temas. A evolução de fanzine para zine é marcada pela eliminação do fã.

MarginalZine

O MarginalZine é um projeto da Rafaela Silva, estudante de mídias digitais na Universidade Belas Artes. O mesmo tem como foco proporcionar conteúdo didático, de forma que se torne uma referência cultural que proporcione visibilidade às minorias artísticas do país. Diferentemente dos zines produzidos pelo poeta Marcos, o MarginalZine deixa as poesias de lado para adotar um papel de veículo de informação. Deixa o caráter unicamente manual para ganhar o caráter impresso, que busca ampla reprodução de seu material.

Quem pode nos explicar melhor esse projeto, é a própria Rafaela: “Nós temos como objetivo ser uma zine de informação e cultura, levar para as pessoas empoderamento, política, e possibilidades de mundo que podemos desenvolver ao longo das nossas vidas. Nosso principal objetivo é contar histórias reais, levar para cada pessoa a experiência interna de pessoas marginalizadas no dia a dia, no caminho para o trabalho, no bairro periférico, nos demais ambientes dominados por pessoas brancas e elitistas. Existe um mundo de possibilidades fora das nossas bolhas e esse mundo deve ser explorado, questionado e ocupado todos os dias”.

MarginalZine Edição I – frente

Dentro do MarginalZine você pode encontrar conteúdos que vão desde a história de luta e vida de personagens marginalizados, até dicas de programações culturais improváveis como baladas undergrounds ou restaurantes acessíveis ao bolso e gostosos ao paladar.

Qual o objetivo dos zines?

São possíveis muitos formatos. Pode ser escrito a mão, pode ser impresso, dedicado a poesias, a desenhos, informações; as diferenças são inumeráveis, mas o que chama atenção na verdade são as semelhanças. Seja o zine manual ou gráfico, sua missão é entregar pontos de vista geralmente renegados pela “cultura hegemônica”.

Quem pode nos explicar isso melhor é o artista Pedro Lopes do Val, autor do projeto Só Arte Salva, uma página no instagram com o propósito de divulgar e comercializar arte independente para o maior número de pessoas, tendo em mente sempre questões relacionadas com política, cultura, arte, sociedade, questões de gênero e também humor: “A ideia é compartilhar ideias e aspectos que possam servir de bagagem para os leitores criarem senso crítico do seu país e da realidade que vivem, e também para que eles possam, de alguma maneira, entrar em contato com realidades distintas.”

Com a autoridade de quem comercializa poesias na internet, Pedro não enxerga os zines como uma forma de mudança na sociedade, afinal, não é esse fardo que a literatura marginal carrega.

“Eu acho que a proposição fundamental do zine é divulgar uma ideia, não importa qual seja, e o formato pelo qual o zine foi concebido e difundido carrega essa liberdade de expressão. Não acredito que seja feito na intensão de mudar algo, mas sim de divulgar e ampliar uma vertente de pensamento, seja ela qual for.”

Para ele, a arte sempre foi algo essencial em nossas vida. Ainda mais dentro do contexto em que vivemos hoje.

” O trabalho domina as relações sociais e acaba pautando a rotina inteira do cidadão, a poesia gera uma certa quebra de rotina, gera um instante de reflexão, uma proposição ao diferente, à mudança. Comercializar poesia é tentar de alguma maneira resistir pela arte em si, e ao mesmo tempo buscar um sustento através dela. Ao passo em que vertentes culturais crescem e e são assimiladas pelas massas, muitas outras vozes acabam silenciadas, seja por interesses, ou pelo simples movimento natural da sociedade. A literatura marginal se encarrega a dar voz àqueles que não querem participar ou que são deliberadamente excluídos do grande circuito. Ela é importante pois da o outro lado da moeda na literatura, ela quebra com regras, norma culta de escrita, pensamentos vigentes e com o fazer da escrita de prosa e de poesia. A literatura marginal serve como um escape aos moldes do que a sociedade impõe sobre arte, sobre o que é arte e qual seu devido valor “, finalizou Pedro.

Leave a Reply