Muito além das quatro linhas

Símbolos de uma nova era do futebol, craques como Neymar e Cristiano Ronaldo movimentam bilhões e conseguem impactar a economia de nações inteiras

Reprodução/Instagram

Por Mariana Spinelli

A frase ‘não é só futebol’ nunca fez tanto sentido se aplicada ao contexto econômico. Com o crescimento dos clubes, principalmente europeus, os jogadores deixaram de ter importância apenas dentro das quatro linhas. Os valores de vendas batem a casa do bilhão e as patrocinadoras investem cada vez mais no atleta e no clube.

A chegada de um astro a um novo time tem a capacidade de movimentar a economia de um país ou cidade, além de influenciar as vendas de camisa, direitos de TV e a quantidade de torcedores no estádio.

Exemplos mais claros foram as recentes vendas de Neymar e Cristiano Ronaldo, o brasileiro para o Paris Saint-Germain, e o português à Juventus de Turim. Somando o negócio dos atletas, o valor chega a R$ 1,2 bilhão. Juntos, eles acumulam 274 milhões de seguidores no Instagram.

Neymar, em sua chegada a Paris em 2017, valorizou os direitos de transmissão do Campeonato Francês, antes quase ignorado e agora alvo de competição entre empresas de televisão.

Durante a negociação do brasileiro com a equipe da França, o ministro das Contas Públicas, Gérald Darmanin, chegou a celebrar a contratação do jogador pelos impostos que serão recolhidos.

De acordo com os cálculos do jornal Le Figaro, a chegada do craque renderá € 300 milhões ao fisco francês em cinco anos.

O publicitário Jotapê Saraiva, especialista em marketing esportivo, analisa os fatores que são levados em conta nessa ‘nova era’ dos jogadores: “Todas as áreas são afetadas. Quando um jogador chega a um clube, ele movimenta tudo. Os clubes pensam em ações com o jogador, produtos licenciados. Eles exploram a imagem do atleta’’.

Caso semelhante aconteceu com Cristiano Ronaldo quando fechou com a Juventus em 2018.

Relatório publicado em 2018 pela KPMG, grupo especialista em marketing e consultoria, analisa que a Juventus precisava capitalizar em cima da contratação de Cristiano Ronaldo especialmente em merchandising e patrocínio. Com faturamento nesse setor de € 120 milhões em 2016/2017, o clube estava bem distante de outros gigantes europeus, como Manchester United (€ 320 milhões), Barcelona (€ 288 milhões) e Real Madrid (€ 280 milhões), por exemplo.

A análise da KPMG defende que um valor próximo do que a  Juventus consegue alcançar ao fim dos próximos dois ou três anos seria de até € 220 milhões, após o aumento da venda de camisas, criação de novos acordos de licenciamento, da renegociação de patrocínios, além da expansão da marca do clube em escala global.

Jogador-marca

Cristiano Ronaldo em divulgação de sua marca CR7 (Reprodução/Instagram)

Rodrigo Pinotti, CEO da empresa de marketing e comunicação Jeffrey Group, fala que a reputação é construída a partir de três fatores: ‘’Primeiro, você deve falar a verdade. Depois, você deve viver essa verdade, ou seja, não adianta você se dizer o melhor jogador do mundo se você só é em campo. E, por último, você precisa ser interessante, contar essa história de uma forma que as pessoas prestem atenção’’.

Para Ricardo Trassatto, jornalista e fã do futebol dos dois atletas, a relação com os jogadores mudou, principalmente por causa das ações de marketing  dos clubes e o advento das redes sociais. ‘’Eu já era admirador do futebol deles, principalmente do Neymar, mas agora é diferente. Acompanho ele no Instagram, é meio que um lifestyle, gosto de olhar os tênis, as roupas, as marcas que ele veste. Acho que jogador também é digital influencer, e, pra quem é homem e não tem ‘blogueiros’, os jogadores viram a referência.’’

Os comentários de Trassato são bem resumidos por Jotapê Saraiva, que explica que o carisma, a fase que o atleta vive em campo e as reações da torcida afetam as relações com o mercado.

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