Por Beatriz Aguiar

Pow! Aquele foi o terceiro chute em vinte minutos.

— Licença. Eu estou passando. Mas que falta de respeito!

Maria estava acostumada a ser invisível. Essa é a vida na cidade grande, sua mãe repetia. Paulistana da gema, ela não conhecia outra realidade para comparar. Sua história era igual a de muitos brasileiros: pais “caipiras” se mudam para a cidade grande atrás de melhores oportunidades, se conhecem e começam uma família. E que família! Treze irmãos! Não é preciso dizer quanto a casa era barulhenta.

A infância de Maria era a exemplificação da expressão “rir para não chorar”. Sétima filha e a quarta menina. Ou melhor, a quarta Maria. Seus pais não eram lá criativos: todos os homens começavam com João e todas as mulheres com Maria. Ela era a Maria Joana. Sua irmã gêmea, Maria Juliana. Pode parecer ruim, mas seus irmãos caçulas tiveram menos sorte: João Paulo e João Paolo. Nem a própria família poupava-os de piadas.

A casa pequena e apertada ficava no centro de São Paulo. Um barraco. A rua era mais atrativa. Havia espaço, pessoas, distrações, e comida. Arranjava sua própria comida desde menina. Seus pais sempre tinham um irmão mais novo para quem prover e os mais velhos se mudavam ao atingir a maioridade. Não era ruim, só difícil. Se as pessoas não fossem más… Quando não era invisível, era incômoda. Sempre a faziam correr, ameaçando-a com gestos ou palavras. Gestos eram mais comuns. Ela não era merecedora de palavras.

— Maria! Era sua amiga, Paloma.

As duas se conheceram no Anhangabaú, num dia quente e movimentado. As duas brigavam por uma espiga de milho. Paloma havia amarrado o burro a Fernando, “um pitelzinho” da Mooca.

— Tenho que te contar uma coisa… Você vai ser tia!

Maria soltou a franga de felicidade. A comemoração atraiu olhares feios da 21 de Abril. O dono gordo da loja de colchões bateu com a vassoura a centímetros delas, assustando-as.

— Cada dia pior… Não respeitam nem uma grávida!

Um garoto era enxotado de um bar do outro lado da rua. Ele devorava um pão na chapa e as migalhas caiam no asfalto. O chinelo arrebentado e a camiseta suja fizeram-nas olhá-lo com pena.

— Tem certeza que quer colocar um filho nesse mundo? Se não tá fácil nem pra eles, imagina pra nós.

— E quando é que foi fácil pra gente? Agora, quem chegar por último é a mulher do padre!

Disputaram corrida até o garoto, que se assustou com as duas pombas e deixou o pão cair no chão. O almoço do dia estava garantido.

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