O lento declínio do ABC

A desindustrialização nacional afeta intensamente a economia da região

Fábrica da Ford em São Bernardo do Campo

Por Thays Reis

A região do Grande ABC, que teve seu auge de industrialização e crescimento nas décadas de 1960 e 1970, se tornou um polo industrial importante para o país. Contudo, vem apresentando números predominantemente negativos em sua taxa de crescimento desde 1980, preocupando a indústria e a população da região.

Em artigo publicado no jornal “Valor Econômico”, os pesquisadores Sandro Renato Maskio e Anapatrícia Morales Vilha, da Universidade Federal do ABC (UFABC), mostraram que a taxa média de crescimento do Grande ABC teve retração em todos os quinquênios entre 1980 e 2000. Somente no período entre 2000 e 2010, o crescimento voltou a ser positivo, numa média de 2,3% ao ano. Mas, entre 2010 e 2015, a queda foi a maior da história recente da região: um recuo anual de 4,4%.

Hoje o ABC, representado por três letras, na verdade é composto por sete cidades que incluem Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, municípios que se tornaram um grande polo automobilístico.

A primeira indústria de veículos a se instalar na região foi a General Motors, em 1930, em São Caetano do Sul, aberta até hoje. Mas foi na década de 50 que esse setor se tornou o motor da área, com a vinda da Mercedes-Benz, em 1956, e da Volkswagen, em 1959, ambas em São Bernardo do Campo. Apenas em 1967, a Ford chegou na região.

Desde esse momento, a economia das sete cidades da região metropolitana se baseou fortemente na indústria, principalmente no setor automobilístico, e se transformou no segundo maior parque industrial do país, atrás apenas de São Paulo.

Com o processo contínuo de desindustrialização do Brasil, a economia local do ABC continua sentindo ainda mais o impacto das crises e da falta de investimento na indústria, mostrando declínio na participação da região no PIB brasileiro. De acordo com dados do IBGE (Instituto  Brasileiro de Geografia e Estatística), a representatividade diminuiu de 2,64%, em 2002, para 1,78% em 2016.

Um recente estudo da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) mostrou que o PIB industrial da região caiu 39%, em termos reais, de 2013 para 2016, bem acima das quedas registradas no mesmo período pelo Brasil e o estado de São Paulo, de respectivamente 11,5% e 14,73%.

Fábrica da Willys Overland do Brasil, em São Bernardo do Campo. Fonte: FolhaPress

A intensa dependência da indústria automobilística é, para o professor da Universidade de São Paulo Glauco Arbix, um dos principais motivos do enfraquecimento da atividade industrial no ABC. Com a entrada de outras indústrias no mercado, que se desenvolvem com muito mais dinamismo, como o setor da tecnologia, as montadoras que não se atualizaram ou se adaptaram ao novo modelo de mercado ficam pressionadas e perdem espaço. “Há uma mudança de paradigmas num setor que durante um século reinou, absoluto, na produção de veículos movidos a motores a explosão. E o ABC aparece no meio desse tiroteio, com o desafio de ter que agir rapidamente”, explicou Arbix, em entrevista ao “Valor Econômico” concedida em março deste ano.

Essa dependência gera crises no próprio setor. No dia 19 de fevereiro deste ano, a Ford anunciou que sairia do negócio de caminhões na América do Sul e fecharia sua fábrica em São Bernardo do Campo, que produz essencialmente caminhões e o modelo Fiesta. Com possíveis compradores, o fechamento da fábrica está sendo revisto, mas essa movimentação mostra as dificuldades do setor, já que representantes da própria empresa, no momento do anúncio aos funcionários sobre o fechamento, disseram que “a fábrica não era lucrativa nem sustentável”.

Decididos a lutar por seus empregos ou, no mínimo, por acordos justos de finalização de contrato, os trabalhadores da fábrica da Ford, com o apoio do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, se mantiveram em greve por 42 dias. Durante esse período fizeram passeatas do local da fábrica até o Paço Municipal de São Bernardo, assim como também ocorreu um ato ecumênico que reuniu líderes religiosos e inúmeros pronunciamentos do sindicato sobre o caminho e futuro da paralisação. Com o avanço das negociações e a notícia da possível venda da fábrica, os trabalhadores decidiram voltar aos poucos à rotina normal de trabalho.

Segundo Gabriele Vechi, 21, funcionária da Ford desde 2013, o clima é de especulação sobre o que de fato vai acontecer com a empresa. A incerteza divide espaço com a esperança de que a fábrica seja vendida e os trabalhadores mantidos. Seu pai, por exemplo, empregado da Ford há mais de 20 anos, aguardava para se aposentar daqui a um ano, porém, se a fábrica realmente fechar, dificilmente conseguirá o benefício no mesmo prazo.

Além deles, milhares de outros trabalhadores ficariam desempregados e suas famílias desamparadas. Alguns funcionários, com mais de décadas de casa, teriam imensa dificuldade de se reinserir no mercado de trabalho, por idade avançada ou por não obter a qualificação exigida hoje. “Se a fábrica realmente fechar, terá um enorme impacto social, milhares de famílias perderiam boa parte de seu sustento ou sua totalidade, como também teria um grande impacto econômico, já que essas pessoas deixariam de consumir e movimentar a economia da região”, diz Gabriele.

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