México luta para crescer em meio a hostilidades dos EUA

Presidente López Obrador, de esquerda, elegeu combate à pobreza como prioridade

Por Valentina Castro

Em 2018, o nacionalista de esquerda Andrés Manuel López Obrador foi eleito presidente do México. Ele assumiu o país com as promessas de retomada da economia, geração de emprego, diminuição da pobreza e combate à corrupção. Os desafios não são pequenos. Apesar da taxa de desemprego relativamente baixa – de 3,5% no fim de 2018 -, a pobreza atinge 43% da população mexicana. Para se ter uma ideia, o índice de pobreza no Brasil é de 21%, segundo dados do Banco Mundial referentes a 2017.

Segunda maior economia da América Latina e quarta maior da América, o México encerrou 2018 com produto interno bruto (PIB) de US$ 1,19 trilhão, avanço de 2% em relação ao ano anterior. O crescimento foi o mais baixo desde 2013 e marcou o quarto ano seguido de desaceleração.

Para 2019, as previsões indicam que a variação pode ser ainda menor. O Ministério das Finanças mexicano estima expansão entre 1,1% e 2,1%. Já o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta avanço de 1,6%. Nos dois casos, as previsões representam um rebaixamento de estimativas anunciadas anteriormente.

Ao divulgar a nova previsão, na edição de abril do relatório “Panorama da Economia Mundial”, o FMI disse que a revisão “em parte, reflete a mudança de percepções quanto ao rumo das políticas sob a nova administração”. A estimativa do fundo está próxima do que projetam instituições financeiras consultadas pelo Banco Central do México, que no início de maio apontaram, em média, uma expectativa de 1,5% para o crescimento do PIB neste ano.

Como principais obstáculos, analistas citam problemas de governança, o alto nível de insegurança, o fraco ritmo da demanda interna, as incertezas políticas, a crise da estatal de petróleo, Pemex, e a instabilidade internacional. Outro impacto vem das políticas hostis de Donald Trump nos Estados Unidos. Segundo matéria da revista “El Economista”, o aumento de exigências para cruzar a fronteira, por exemplo, eleva em até 30% os custos logísticos das empresas mexicanas que fazem comércio com os Estados Unidos.

Contrastando com esse panorama, o Plano Nacional de Desenvolvimento estabelecido por López Obrador para os seis anos entre 2019 e 2024 prevê um crescimento médio anual de 4%, culminando com 6% no fim do período. Para 2019, o presidente promete um desempenho, no mínimo, superior ao previsto pelo mercado e o FMI. “É muito melhor do que o Fundo Monetário Internacional diz. O crescimento será de mais de dois pontos, porque iremos surpreender. A economia mexicana vai crescer, e o prognóstico do FMI irá falhar. Eu digo isso respeitosamente”, afirmou López Obrador em entrevista coletiva concedida em março.

Mais recentemente, o presidente tem divulgado a previsão de alta de 2% para o PIB deste ano. Ele manteve a estimativa mesmo depois que o Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi) anunciou uma queda de 0,2% no PIB do primeiro trimestre em relação ao trimestre anterior.

Em artigo publicado em março na principal revista econômica do país, a “Expansión”, o diretor do Programa de Pesquisa Aplicada da Fundação de Estudos Financeiros do México (Fundef), Jorge Sánchez Tello, disse que não acredita no aprofundamento da desaceleração econômica. “Ultimamente é lido nas redes sociais, nas palestras e na mídia que o México está passando por uma crise de pessimismo, o que não é verdade. Embora devamos reconhecer que temos um país com um atraso significativo, particularmente em segurança, e que não tem um estado de direito, o México fez progressos em vários aspectos”, escreveu Sánchez.

Para ele, o México continua a ter fatores que o tornam um grande atrativo para investimentos, entre os quais o tamanho da população e a localização geográfica. Sánchez acrescentou que um dos motivos da desaceleração do país é a falta de confiança. “O que pode parar o país é a falta de confiança. É importante gerar incentivos fiscais para a criação e manutenção das empresas. É a única maneira de criar mais empregos e de a economia crescer”, destacou.

Desde o início do novo governo, economistas ligados ao mercado financeiro têm insistido na necessidade de um aumento de confiança para impulsionar o crescimento do país. Eles afirmam que López Obrador tem mantido um discurso dúbio em relação à iniciativa privada e dizem que a suposta falta de clareza contribuiu para a queda de 34% nos investimentos diretos estrangeiros (IDE) em 2018. Em valores absolutos, o México recebeu US$ 31 bilhões em IDE no ano passado, menos que metade do volume aportado no Brasil, principal destino dessa modalidade de investimentos na América Latina.

Segundo o Inegi, a balança comercial mexicana registrou déficit de aproximadamente US$ 13,6 bilhões em 2018, resultado de exportações de US$ 450,7 bilhões e importações de US$ 464,3 bilhões. O déficit foi provocado principalmente pelo aumento das importações de petróleo e derivados, em decorrência da crise na Pemex. Considerando apenas produtos não petrolíferos, o saldo seria positivo em mais de US$ 9,5 bilhões. Um dos destaques foi o setor automotivo, cujas exportações cresceram 12,4%. O Brasil é o segundo maior mercado para os carros mexicanos, responsável por 22% das exportações e atrás apenas dos Estados Unidos.

A moeda adotada pelo México, o peso, é uma das mais valorizadas da América Latina, mas vale menos que o real. A maior desvalorização foi registrada em novembro de 2009, quando um real chegou a valer 7,7 pesos. Já a cotação máxima da moeda mexicana se deu em novembro de 2015, quando um real valia 4,5 pesos. Em 2019, a moeda brasileira tem sido negociada a cinco pesos.

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