O fim de um ciclo: o declínio da “onda rosa” na América Latina

Crises políticas e econômicas marcam a retomada do neoliberalismo ao continente

Partidários do governo se despedem de Cristina Kirchner no último dia do governo da presidente em 2015, em Buenos Aires /Foto: AP Foto/Natacha Pisarenko

Por Amanda Leite

A chamada “onda rosa” latino-americana, caracterizada pelo predomínio dos governos de esquerda e centro-esquerda no continente, vem perdendo força nos últimos anos.

No cenário argentino, por exemplo, a vitória de Mauricio Macri em 2015 alterou os rumos que o país seguia com a liderança dos Kirchner desde 2003. Com a ascensão do atual presidente ao poder, a Argentina deu uma guinada liberal, a começar pelos acordos com os “fundos abutres”, credores internacionais que não quiseram negociar com Cristina Kirchner. Outras medidas indicativas da mudança foram os cortes de subsídios para setores como os de eletricidade, gás, transportes com a entrada do capital estrangeiro e uma estratégia de ajuste gradual nas contas públicas.

Ao longo dos últimos cinco anos, outros países entraram na onda neoliberal: em 2018, Sebastián Piñera voltou a assumir a presidência no Chile. A Colômbia viu Iván Duque assumir e, no Paraguai, Mario Abdo Benítez, filho do secretário pessoal de Alfredo Stroessner, que comandou o governo militar paraguaio, tomou posse. Além disso, no Peru, Ollanta Humala foi substituído inicialmente pelo economista liberal Pedro Pablo Kuczynski, que renunciou. Desde março do último ano, o país é presidido por Martín Vizcarra, do partido Peruanos Por el Kambio, de centro-direita.

Segundo a professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Beatriz Macchione Saes, essa mudança de ares se dá principalmente pelo fim do boom das commodities, entre 2011 e 2015. “Esse fenômeno marcou o encerramento de um ciclo em que era vantajoso apostar na produção dos produtos primários.” De acordo com a economista, o avanço do neoliberalismo é uma resposta à ausência de reformas dos antigos governos diante da crise.

Para o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP)
Alex Hagiwara, especializado em América Latina, o maior erro dos antigos governos da região foi trabalhar com medidas paliativas no âmbito econômico. “Não houve grandes reformas nos países desde os anos 2000. No primeiro momento de crise, os governos não puderam responder às demandas na sociedade. Isso deu força para que os políticos alinhados ao neoliberalismo conseguissem retomar o poder por vias democráticas.”

Gráfico mostra queda do comércio de commodities no mundo

No Brasil, o fim dos governos de centro-esquerda se deu em 2016, com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, mas a entrada no neoliberalismo se intensificou com a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018. Já nos primeiros meses de governo, o atual presidente deu indícios de como funcionará sua política externa: seu encontro com o presidente dos Estados Unidos Donald Trump demonstrou um afastamento dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), um movimento incerto de acordo com os especialistas.

“Depender da economia chinesa é, de fato, arriscado. Mas, não podemos fingir que essa dependência não existe”, avalia Saes. De acordo com a professora,  na prática, o Brasil deixará de vender produtos importantes para a dinâmica da economia nacional sem ter formulado uma mudança maior, que permita uma independência do país em relação a esse mercado.

Além disso, Bolsonaro também sugeriu uma aproximação do Brasil com Israel. Para o analista econômico Rafael Bianchini, também é um movimento ousado do presidente. “Com essa nova aliança, seríamos rapidamente trocados pelos países árabes. E todo o agronegócio exporta para essas nações. É um bom mercado, nós praticamente não compramos, só vendemos.”

Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, participa de uma reunião com o presidente Jair Bolsonaro, em Brasília/Foto: Marcos Correa/PR

Segundo Beatriz Saes, uma política neoliberal como a de Bolsonaro pode piorar o quadro de desenvolvimento no Brasil, já que uma maior abertura dos mercados exige uma especialização de produção. “Por exemplo, nós somos bons na agricultura. Então, vamos procurar desenvolver apenas essa área. Isso significa que não iremos investir em outros setores da economia, o que é perigoso”, completa. De acordo com a economista, é arriscado depender da exportação de apenas um produto. “Quantas toneladas de soja precisaremos exportar para conseguir comprar celulares de última geração?”

Uma política como essa pode trazer problemas para o balanço de pagamentos brasileiro. Segundo Saes, tal vulnerabilidade externa ajuda a gerar inflação. “Se o preço do petróleo começa a variar, por exemplo, nós já temos um aumento de custo das mercadorias internas.” Para a professora da UFF, se não houver mudanças estruturais importantes na economia, uma série de problemas macroeconômicos surgirão, o que pode intensificar o quadro de desigualdade do Brasil.

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