Indústria pornográfica resiste a críticas e segue bilionária

Feminismo e movimentos de recusa, no entanto, obrigam o gênero a se repensar

Por Roberta Domingues

Muitos especialistas estimam que 30% da internet é pornografia. Isso sugere que esse é um dos mercados mais populares do mundo – e, consequentemente, mais rentáveis.

A indústria pornográfica é o segundo setor que mais movimenta dinheiro mundialmente, e só fica atrás do tráfico de armas.

Os bilhões da indústria pornô

A pesquisadora Kassia Wosick, da New Mexico State University, afirma em entrevista ao site da NBC que cerca de US$ 92 bilhões circulam anualmente no mundo inteiro por causa da indústria pornô, US$ 6 bilhões só nos EUA.

Alguns eventos mundialmente famosos, como o Super Bowl e a Copa do Mundo, não chegam a 15% do lucro de toda a indústria erótica. A Netflix, maior streamer online de séries e filmes, movimenta US$ 19 bilhões, segundo o relatório anual do site Netflix Investors – quase nada se comparado aos US$ 92 bilhões da indústria pornô.

Em 2009, os lucros da indústria caíram devido à pirataria online e à queda da venda de DVDs. Antes da crise, uma produtora média ganhava cerca de US$ 350 mil por mês em vendas de DVDs, e os lucros caíram quase pela metade, de acordo com o site Huffington Post.

Diante de sites que disponibilizam os conteúdos pirateados gratuitamente, a indústria investiu em assinaturas e conteúdos exclusivos para assinantes, como cenas com atores e atrizes famosos, lives, vídeos em HD ou 4K, sem cortes, e sites sem anúncios.

Além de conteúdos premium, os sites também lucram com as propagandas. A cada clique em uma delas, recebem-se alguns centavos de dólar. No mundo real, alguns sites e produtoras organizam feiras e eventos especiais para que os fãs conheçam seus atores favoritos.

A indústria também se aproveita dos novos lançamentos da tecnologia: agora, também é possível assistir vídeos pornôs usando óculos VR (sigla para realidade virtual). Esse tipo de conteúdo é exclusivo para os assinantes premium, e muitos estão dispostos a pagar caro por esses serviços: as assinaturas podem custar entre US$ 1 e US$ 15 por dia.

Eles não ganham tanto assim

Inesperadamente, atores pornôs não ganham tanto. O pagamento depende da produtora, do grau de fama do ator, da cena e da dificuldade.

Para uma cena comum de sexo, uma atriz ganha entre US$ 800 e US$ 1.000. Se for uma atriz famosa, o pagamento pode chegar até US$ 2.000, enquanto uma atriz novata fica com US$ 300. No geral, homens ganham de US$ 500 a US$ 600 por cena. Se for um ator muito conhecido, US$ 1.500. Esse é um dos poucos setores em que mulheres ganham mais que homens.

Rogê Ferro, um dos mais famosos atores pornôs brasileiros, diz em entrevista a Rafinha Bastos na Band que é possível ganhar R$ 1.000 dependendo da cena, mas a média gira em torno de R$ 400. Uma atriz, segundo a pornstar Emanuelle Diniz na mesma entrevista, recebe de R$ 400 a R$ 1.500. De acordo com ela, uma atriz iniciante chega a ganhar R$ 4.000 por mês.

No Brasil

A indústria pornô brasileira viu seu auge nos anos 70 e 80, quando chegou a pagar a estrelas como Rita Cadillac e Gretchen o equivalente a R$ 20 mil por filme. Mais tarde, a Brasileirinhas, criada em 1996 por Luis Alvarenga e atualmente a maior produtora nacional de conteúdo erótico, chegou a gravar 35 filmes por mês, superando a Disney em vendas de DVDs.

Em 2013, a Brasileirinhas anunciou que pararia de vender DVDs e focaria exclusivamente em seu site, que conta com mais de 5 milhões de acessos por mês e representa 50% de toda a renda mensal da produtora.

Segundo a Abeme (Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual), o mercado brasileiro fatura cerca de R$ 1,5 bilhão com acessórios eróticos por ano. A indústria pornográfica brasileira movimenta R$ 800 milhões por mês, de acordo com uma reportagem de 2016 do Globo Repórter.

Um levantamento do UOL estima que as Organizações Globo faturaram R$ 180 milhões em 2017 com a venda de produtos adultos e canais eróticos. A Globo tem o monopólio desses canais no Brasil.

Capa do DVD “La Conga”, com Gretchen. Foto: divulgação

Capa do DVD La Conga, com Gretchen. Foto: divulgação

Quem mais assiste pornô

A grande parte do público consumidor de pornografia no mundo é masculina (71%). As mulheres, apesar de serem um número crescente, são 29%, segundo dados de 2017 do blog de pesquisa e análise do site PornHub, que afirma ser o maior do gênero, superando fenômenos de audiência como YouPorn, xVideos e VPorn. A idade média do público é de 35,5 anos.

Uma pesquisa realizada pela Quantas Pesquisas e Estudos de Mercado em 2017 fez um perfil do consumidor brasileiro de pornografia e revelou que os homens são três quartos do público. A maioria tem entre 18 e 34 anos. Quase 50% deles pertencem à classe B.

No mundo, quem mais assiste pornô são os estadunidenses, seguidos dos britânicos, indianos e japoneses. Outros países, como Canadá, França, Alemanha, Austrália e Itália, aparecem na lista. O Brasil fica com a décima posição.

Feminismo em pauta

Com o crescimento do feminismo na sociedade, os adeptos desse movimento esperam que várias mulheres e homens queiram parar de assistir pornô por causa da sexualização, humilhação e violência que a mulher sofre nos vídeos.

Depois de se tornar feminista, a estudante Lorenna Rosa Nascimento diz que se sentiu mal da última vez que tentou assistir pornô. “Achei hipocrisia da minha parte continuar assistindo algo produzido por uma indústria que, na maioria das vezes, degrada, humilha e subjuga as mulheres. Nas últimas vezes que tentei assistir, me senti suja, uma sensação horrível, decidi parar.”

 A estudante de direito Marcela Sorriso, 24, relata o mesmo desconforto. “Eles só mostram mulheres perfeitas, com seios siliconados, vagina rosa e depilada, sem celulites pelo corpo”, diz. “Isso não existe na nossa realidade. Só existe para deixar mulheres reais odiando seus corpos.”

Ao mesmo tempo que algumas pessoas se afastam, outras tornam-se dependentes. O Instituto Kinsey, dos Estados Unidos, aponta que 9% dos consumidores de pornô sentiram vontade de parar e não conseguiram. Se forem considerados só os visitantes do PornHub, são mais de 8 milhões de pessoas.

Para combater essa obsessão, muitos homens e mulheres viraram adeptos do Porn Reboot. O movimento prega o afastamento dos vídeos pornôs e da masturbação a fim de ter uma vida sexual melhor, mais tempo livre e energia. No grupo No Fap do Facebook, o polonês Pawel Zielinski diz ter encontrado no Porn Reboot uma maneira de se sentir melhor consigo mesmo. “Escolhi fazer isso para ter mais poder, mais sabedoria, um foco melhor e, o mais importante, retomar o controle do meu corpo e da minha vida. PMO (sigla para pornô, masturbação e orgasmo) é um vício difícil de controlar.”

Daqui para frente

Segundo Chauntelle Tibbals, doutora em sociologia e autora do livro “Exposure: A Sociologist Explores Sex, Society, and Adult Entertainment” (Greenleaf Book Group, 2015), a tendência da pornografia é se adaptar às novas tecnologias, principalmente à realidade virtual. Outras plataformas, como livros eróticos (“Cinquenta Tons de Cinza”, por exemplo) também abrem as portas para novos consumidores e mostram como o pornô continuará a crescer enquanto houver inovação e público. Também é tendência continuar a crescer principalmente entre as mulheres. Para que elas se tornem parte substancial do público consumidor, a indústria deve começar a adotar posturas que não sejam tão ofensivas, como o pornô feminista. O gênero existe há alguns anos e, segundo a produtora de filmes eróticos Erika Lust em entrevista à revista Dazed, deve criar uma geração que se sente mais confiante sobre si mesma.

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