Slam, arte que transforma

Poesia na vida de jovens e no meio educacional

Por Beatriz de Oliveira

Poesias recitadas, com a voz e com o corpo. Espalhadas nas zonas das grandes cidades e por todo país. Com temas políticos como racismo e machismo, mas também sobre amor. Poesias não clássicas, sem regras de métrica. São feitas em sua essência pela e para a periferia. Elas ainda estão aí para quem se dispuser a ouvir e participar. São os Slams.

São batalhas performáticas de poesia, que tiveram origem nos anos 80 em Chicago. Com regras simples, cada participante tem em média 3 minutos para expor sua poesia autoral. Quem trouxe o slam para o Brasil foi a atriz-MC e poeta Roberta Estrela D’Alva, que com seu grupo de teatro hip-hop inaugurou o ZAP! Zona Autônoma da Palavra em 2008. Roberta dirigiu e roteirizou, juntamente com Tatiana Lohmann, o documentário “Slam – Voz de Levante”. As filmagens mostram a Copa do Mundo de Slam, que ocorre anualmente na França. Na edição de 2011, a artista representou o Brasil e ficou em terceiro lugar. Além de apresentar o evento, a intenção é esclarecer o que é a ainda pouco conhecida arte do slam. A obra foi vencedora do Prêmio Especial do Júri e de Melhor Documentário no 19º Festival do Rio em 2017 e do prêmio de Melhor Filme Nacional no FIM CINE (Festival Internacional de Mulheres no Cinema), em 2018.

“O slam é pra quem tá chegando”


Em coletiva de imprensa Emerson Alcalde, idealizador do Slam da Guilhermina, fala sobre transformações de jovens que passaram a frequentar slams, comenta sobre o empoderamento de mulheres que pararam de alisar os cabelos ao desenvolverem autoestima nos slams, e também sobre engajamento político e militâncias iniciados a partir deles.

Emerson Alcalde

Este Slam é um dos primeiros do país, e neste como em todos os outros a maioria dos participantes é jovem. A escrita e oralidade desses jovens é desenvolvida e apreciada nesse espaço. Emerson comenta que os poemas são diretos e que isso atrai pessoas que não tinham acesso a críticas sociais e então passam a se interessar. É por isso que o artista diz que o slam é pra quem está chegando, para os jovens, porque eles necessitam dessas mensagens e muitos têm o desejo de expressar o que sentem também. Quem participa do movimento há mais tempo, segundo ele, já não é tão impactado porque as falas parecem se repetir a cada rodada das competições.

Sobre  a falta de complexidade nas poesias, Emerson diz que muitos jovens ainda não tem referências e dispõem de uma educação pública de má qualidade. E acredita que daqui a um tempo haverá um aprofundamento maior nos textos, como é nos EUA em que também há muitas poesias sobre racismo, mas são melhor elaboradas.

Emerson e Lucas foram representantes do Brasil na Copa do Mundo de Slam na França em diferentes edições. Ambos falam sobre a enorme diferença educacional deles para com a os representantes de países europeus. Lá a educação é mais valorizada que aqui, e eles sentiram esse impacto na competição. Isto posto, já se torna uma vitória ao ver que ao passar de fase, você deixou alguns deles para trás. Emerson, que sempre estudou em escolas públicas, foi o brasileiro que chegou mais longe, conquistou o segundo lugar em 2014.

Lucas Afonso

Oficinas de escrita e poesia são organizadas com o intuito de fomentar esse amparo educacional. Lucas Afonso, é um dos fundadores do Slam da Ponta e venceu Slam Brasil 2015, o que lhe permitiu representar o país na Copa do Mundo de Slam no ano seguinte. Ele já ministrou várias dessas oficinas e diz que “essas formações aproximam o público da literatura, que às vezes parece algo muito distante” e proporcionam a volta “do hábito do fazer coletivo”. Rodrigo Ciríaco, organizador do Slam Rachão Poético e idealizador do projeto “Mesquiteiros” desenvolve ações de incentivo à leitura e escrita em escolas públicas de São Paulo. Ele defende que manifestações artísticas como esta estejam presentes nos espaços educativos, pois possibilitam a expressão e fazem surgir questionamentos importantes para a formação pessoal. “Trazer o olhar da sensibilidade poética pra eles [estudantes]. Olhar a poesia não como uma matéria, mas como uma forma de estar no mundo”.

Rodrigo Ciríaco

O Slam Interescolar, organizado pelo Slam da Guilhermina, traz justamente a proposta de levar essas manifestações para dentro das escolas. Ocorre entre colégios de São Paulo que realizam slams internas e selecionam um aluno para representá-las na competição. As inscrições para a edição 2019 estão abertas, se encerram em 31 de maio. É necessário que o funcionário da escola  preencha um formulário e se comprometa a organizar um Slam na comunidade escolar, comprovando através de vídeo e fotos. São duas modalidades, Ensino Fundamental II e Ensino Médio, com 40 vagas cada. Como premiação são oferecidos certificado, medalhas, livros, CD’s e troféu. Além disso, esta edição trás uma novidade: cada escola receberá um poeta-formador que auxiliará na realização do slam.

Igor Souza

Igor Souza, 16, foi vencedor do Slam Interescolar 2017. Ele conta que não tinha interesse em participar, mas mudou de ideia após o incentivo recebido. Foi através desta iniciativa que ele realizou a sua primeira apresentação em público das poesias que havia começado a escrever a menos de um ano. Igor diz que se desenvolveu através dessa manifestação que “trabalha o jeito que você se expressa, a forma que você fala, o jeito que você se posiciona em público, e o slam mudou tudo isso na minha vida”. Acrescenta ainda que a influência se deu também nas entrevistas de emprego.

Marina Albuquerque, 14, também se desenvolveu por intermédio do slam. “Através do slam me descobri, eu me conheci, eu me reconheci”. Passou a entender assuntos que antes não lhe interessavam e a prestar atenção em seus próprios preconceitos. “Eu tinha uma visão sobre a vida do tamanho de uma cidade, e hoje eu tenho do tamanho de um país. Quem sabe um dia eu tenha a visão do tamanho de um planeta”. Ela acrescenta “tomei consciência sobre meu próprio corpo, sobre minha existência como mulher”.

Essa experiência feminina no slam, como já contamos, está na origem dessa manifestação cultural. O Slam das Minas, por exemplo, está presente em vários estados do país. No Rio de Janeiro, o grupo se configura como um espaço de libertação de mulheres, Letícia Brito é uma das organizadoras. “O machismo está em todos os os espaços e isso não seria diferente no slam. A oportunidade de um espaço seguro para mulheres e pessoas LGBTIQ+ falarem de suas dores e estimularem mutuamente suas potências artísticas faz dos Slam das Minas RJ um local importante para o empoderamento dessas pessoas”. E mediante a existência desse espaço, mulheres o frequentam e se transformam em alguns aspectos, “há aumento na segurança, confiança e autoestima”.

E nem só de oralidade vive o slam. As poesias faladas também vão para o papel. A Marina, que citamos há pouco, lançou no dia 5 de maio o seu segundo zine, na Feira do Livro Independente. O título é SentiVento e conta com 14 poesias autorais. A venda de zines é comum durante eventos de slam. Os mini livretos de poesia são confeccionados das mais variadas formas e vendidos por preços em torno dos R$ 5,00, a depender do seu nível de elaboração. A pedagoga Ale Barreto também vende seus zines. Ela é uma das organizadoras do Slam Capão. Sem carteira assinada, conta que a venda dos livretos faz grande diferença em sua renda.

Zine de Marina

Emerson Alcalde explica que os zines às vezes são produzidos com papel dobrado pelos próprios poetas, às vezes para pagar o transporte de volta pra casa ou mesmo para pagar o lanche da noite. Como o efêmero é uma característica do slam, poucos conseguem perpetuar as palavras em algo mais do que uma folha de papel.

Alguns conseguem, em livro. Em agosto de 2018 houve o lançamento da antologia do Slam da Ponta, o “Ponta de Lança”, realizado como prêmio da vitória no I Torneio dos Slams em 2017. O Slam da Guilhermina já está na sua sexta antologia. E no dia 28/05 no V Salão do Livro Político – PUC SP serão lançados ANTIFA e EMPODERAMENTO FEMININO, títulos da Coleção Slam.

Cleyton Mendes viu um slam pela primeira enquanto entregava poesias na faixa de pedestres. Ele já tem três livros publicados e está em período de financiamento da obra “África é logo aqui”, que se trata de um diário de bordo sobre seu intercâmbio cultural em Moçambique. Conta sobre como é o slam de lá, em muitos poemas há mistura do poema lusitano com o português banto, e uma das temáticas mais recorrentes são clamores pela aproximação da população e itens de acesso, “água é luxo lá”.

Apesar da importância e potencial de transformação do slam, ele é pouco divulgado pela mídia. Lucas lembra o fato dessa arte ser nova, tem 11 anos, e afirma que está crescendo de maneira surpreendente nesses anos. E acrescenta “a liberdade de expressão como é no Slam, ela não cabe em qualquer lugar não. TV, grandes mídias, é complicado”. Como ponto positivo ele cita o programa Manos e Minas da TV Cultura, que tem como foco a propagação de cultura urbana e periférica. Nele há um quadro de apresentação para slammers, a apresentadora atual é a Roberta Estrela D’alva.

Lucas no Programa Manos e Minas

Apesar de ser uma expressão cultural que não tem acesso a políticas de financiamento como a Lei Rouanet, recentemente modificada pelo governo federal, o escritor Emerson Alcalde lamenta tal mudança e alerta sobre outros possíveis retrocessos no meio cultural que podem afetar principalmente as populações marginalizadas. Isso, segundo ele, exigirá mudanças na manifestação do slam: “não vamos parar, vamos nos preparar para a guerra”.

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