Games brasileiros e exportação. Fonte: Pesquisa Game Brasil

Por Lara Guzzardi

A indústria de jogos digitais é de grande importância devido à sua capacidade de gerar empregos e renda. A possibilidade de promover a inovação tecnológica envolve diversos setores da economia, como arquitetura e construção civil, publicidade e propaganda, além de áreas como saúde, educação e defesa, treinamento e capacitação, entre outras. Uma das razões pelas quais a relevância do setor de games tem crescido é que hoje os jogos digitais não são consumidos apenas por jovens do sexo masculino, mas por crianças, mulheres, idosos e os mais variados tipos de pessoas.

Além disso, o uso e as tecnologias que os desenvolvem deixaram de ter a função só do  entretenimento, adquirindo um caráter sério ao serem incorporados a atividades de educação, pesquisas científicas, treinamentos, capacitação no atendimento de saúde, escolha e desenvolvimento de vocações, entre outros. Estudos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) mostram que mais de 50% das empresas de games do Brasil atuam tanto no mercado brasileiro quanto no internacional.

O presidente da Abragames (Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos), Sandro Manfredini, diz em entrevista à organização que a nova safra de jogos brasileiros com destaque internacional é consequência de boas políticas públicas voltadas ao setor de games, além do próprio amadurecimento dos empreendedores do Brasil: “Citaria dois agentes fundamentais para este “baby boom” de games nacionais: a Ancine, que por meio de dois editais destinou R$ 20 milhões para o desenvolvimentos de jogos a partir de 2017, e o Projeto Brazil Games, da Apex-Brasil, que apoia a internacionalização e a exportação de jogos desde 2014.”

O gerente do Projeto Brazil Games da Apex-Brasil, Igor Brandão, afirma também em entrevista à Abragames que o rápido crescimento do setor tem chamado a atenção: “Em cinco anos a indústria de games cresceu, amadureceu e conseguiu colocar a produção nacional em evidência nos principais eventos internacionais, e sempre com uma visão orientada a negócios. Já no primeiro trimestre de 2019, há jogos brasileiros participando de eventos na China, Taipei Game Show, no Canadá, Demonight Montreal, além de GDC e GCA. Há games brasileiros selecionados para o SXSW, South by Southwest e Pax East”, conta referindo-se à eventos fundamentais na agenda do setor de games.

Tela de game desenvolvido pela Behold Studios: brasileiros representam 10% dos jogadores dos produtos da empresa. Fonte: Divulgação

De acordo com o Global Games Market Report 2017, estudo da Newzoo sobre o mercado internacional de jogos eletrônicos, o Brasil realmente está em alta no exterior. No ano passado, o país ficou no 13º lugar no ranking das empresas que mais geram receita no setor e é o 1º entre os países latino-americanos, conforme o Newzoo e do 2° Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais. A indústria brasileira de jogos digitais apresentou um faturamento de US$ 116 bilhões, incluindo as operações do Brasil e no exterior, e a estimativa para 2020 é de US$ 143,5 bilhões, com o crescimento médio de 7,3% ao ano.

Segundo o estudo do BNDES, realizado em 2017, com 151 empresas independentes de jogos digitais no Brasil, a atividade econômica das empresas brasileiras de games para exportação é voltada para os jogos de entretenimento, equivalente a 77% dessa atividade, e educacionais, 42%. Os games brasileiros são categorizados lá fora como “indie” ou “alternativos”, utilizando recursos mais modestos para seu desenvolvimento. Alguns jogos recreativos de grande destaque internacional são os Horizon Chase, jogo de corrida de carros vintage, e o Ballistic Overkill, com a interação do jogador em primeira pessoa, ambos do Aquiris Game Studio, de Porto Alegre. Já sobre os jogos educativos, se destaca o Enem Game, criado pela Mito Games. O jogo fornece recompensas para quem acertar perguntas relacionadas ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e seu sucesso despertou o interesse de investidores estrangeiros.


Panorama do setor de jogos digitais no Brasil | Infográfico. Fonte: BNDES

Entretanto, o Gerente de Comunidade da Horizon Blockchain Games Inc., Marcelo Suplicy, afirma que o Brasil exporta mais conhecimento e mão de obra do que jogos completos para o mercado internacional, já que as plataformas de distribuição (Steam, GOG, etc) são quase todas mundiais, sem barreiras geográficas. Segundo ele, os maiores consumidores de jogos do mundo são os Estados Unidos, a China, a Alemanha, e o Reino Unido, sendo todos repúblicas democráticas, com a exceção maior da China, comandada por um partido comunista.

Marcelo conta quais áreas do setor de games ele acredita estar com as vendas em alta no momento: “ É difícil quantificar. Pela minha experiência, o setor brasileiro de arte (2D e 3D) é bastante renomado lá fora, e por ser barato quando comparado com os outros países, tem uma boa vantagem aí.” Sobre o apoio do governo à esse setor, ele comenta: “Há pouca relação e amparo. Há algum crossover (relação entre produtos) com as leis de Audiovisual da Ancine, mas em geral, o fomento é mínimo. Há mais interesse em taxar o setor que fomentá-lo.” Marcelo revela suas expectativas para o mercado de games brasileiro no exterior: “Com o desaquecimento do mercado de jogos para celular (sobrecarregado com a competição chinesa), a tendência é de um crescimento discreto (que acompanha o crescimento orgânico do setor). Tudo depende de grandes títulos, ou de algum game indie que se sobressaia no competitivo mercado de consoles ou PC.”

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