Setor de criptomoedas gera empregos de alta qualificação

Em um ano, mercado de trabalho cresceu 300% na área das moedas digitais; investidores aguardam respaldo jurídico e leis para renovar apostas numa das tendências do futuro

Por Felipe Cereser

De 2014 em diante, o reconhecimento de um ativo financeiro essencialmente tecnológico fez com que o mundo dos investimentos se diversificasse ainda mais. As moedas digitais, ou criptomoedas, tornaram-se mais populares, valorizaram-se significativamente, e, com isso, seu ramo disponibiliza cada vez mais oportunidades de emprego. Segundo pesquisa realizada em agosto de 2018 pela Glassdoor (companhia estadunidense que analisa empresas), no período de um ano, o número de postos de trabalho para o segmento aumentou 300%. Tamanho crescimento, porém, não é acompanhado da mesma forma no que diz respeito à proteção das transações. Não há nenhuma segurança jurídica para a atividade e novos investidores estão receosos, inclusive com a exigência de declarar seus investimentos no Imposto de Renda, mesmo sem haver legislação específica no Brasil.

Ainda pouco familiares, as criptomoedas nada mais são que ativos financeiros criados a partir de blocos de confirmação, ou seja, operações matemáticas que os computadores resolvem e acabam criptografando dados. Tais moedas surgiram em uma camada mais profunda da internet (a chamada deep web), mas, com o passar do tempo, ganharam valor devido à criação de bolsas de negociação próprias – permitindo que pessoas comprassem e vendessem entre si.


Gráfico da Glassdoor mostra crescimento no número de postos de trabalho no ramo de moedas digitais, principalmente após o pico de valorização do bitcoin entre dezembro de 2017 e fevereiro de 2018.

Sem ser cunhada por nenhum Estado, as criptomoedas são produzidas por meio de um processo chamado “mineração”. É nele que empresas estão abrindo oportunidades para, principalmente, profissionais voltados à programação. Tudo porque a “mineração” ocorre após uma decodificação complexa, para a qual são necessários computadores ultrapotentes conectados a uma rede interligada e regulada pelos próprios usuários. Depois, a cada dez minutos, um sistema lança essas criptografias e o primeiro que consegue a “resposta” recebe bitcoins (criptomoeda pioneira e mais famosa) como recompensa. Hoje, cada bitcoin vale cerca de US$ 5 mil, o equivalente a R$ 19,5 mil. Só a IBM, por exemplo, já conta com 214 vagas de emprego relacionadas ao setor e a maior disponibilidade é referente ao cargo de engenheiro de software.

O crescimento expressivo da categoria e as grandes movimentações monetárias chamam a atenção de governos. Na Espanha, um projeto de lei prevê que os cidadãos declarem todos os seus investimentos em ativos digitais que estiverem no país ou no exterior. Sobre o tema e analisando o caso espanhol, o professor de finanças da PUC-SP Augusto Caramico considera que, atualmente, é impossível taxar de maneira oficial as movimentações das criptomoedas. “A característica básica [das movimentações em criptomoedas] é que os blocos de informação são confirmados de uma forma descentralizada. Efetivamente você não sabe onde está acontecendo a confirmação”, diz Caramico, recordando que, mesmo sem ter uma lei específica de tributação, no Brasil há um normativo da Receita Federal que obriga o detentor de qualquer criptomoeda a declarar esse bem no Imposto de Renda e a recolher 15% do lucro obtido na operação. “Não há a lei da tributação, mas já está sendo tributado.”


Professor de finanças na PUC-SP, Caramico alerta para normativo da Receita que obriga declaração de criptomoedas no IR.
Foto: Felipe Cereser.

Ainda num paralelo entre o Brasil e outros países, Caramico cita que o campo das criptomoedas seria uma interessante oportunidade de trabalho para os brasileiros, principalmente nesta fase de alto índice de desemprego, mas isso “se houvesse iniciativas privadas e estatais para formar mão de obra qualificada e específica desde a base.” Ele acredita que uma iniciativa possível seria a introdução, no currículo escolar, de uma disciplina voltada às técnicas de programação, como um reflexo do que chama de “tendência de as gerações futuras romperem com as tecnologias passadas.”

O imbróglio

Caramico define que o grande problema das criptomoedas está na segurança jurídica das operações. Há um conflito de interesses no campo das finanças que ainda impede a elaboração de um conjunto de normas e “sem isso, elas, como forma de pagamento, são usadas em um meio muito restrito.” O professor dos cursos de administração e economia ainda enfatiza que essa realidade inibe a entrada de novos investidores por falta de confiança no mercado.

Felipe Oliveira, 25, é publicitário e investidor. Mesmo com pouca idade, ele já ganhou e perdeu muito dinheiro com movimentações financeiras e hoje se diz muito propenso a investir em moedas digitais. “Pesquiso sobre a área e sempre tive vontade de arriscar. O que me deixa com um pé atrás é que, se der problema, não tem de quem cobrar”, conclui, surpreso quando informado sobre a notícia de que os investimentos em meios digitais tinham que ser declarados no IR. Independente disso, as recentes oscilações das moedas digitais o fizeram recuar.

A preocupação de Oliveira quanto à instabilidade da moeda é, segundo Caramico, explicada por uma euforia de mercado, algo semelhante à famosa “lei de oferta e procura”. Vários investidores, ao verem o bitcoin subir muito nos últimos anos, colocaram seu capital e acabaram se surpreendendo com uma estabilização, o que “os fez entrar em pânico e passaram a vender desesperadamente.” Essa situação desestabilizou o mercado e fez, por exemplo, com que, há pouco menos de quatro meses, o bitcoin sofresse uma desvalorização de quase 60%, só ficando atrás do bolívar venezuelano. Apesar de muitas incertezas, tanto Caramico quanto Oliveira concordam que “as criptomoedas são uma tendência para o futuro.”

Leave a Reply