Como vivem os nossos idosos

Envelhecimento da população brasileira contrasta com a falta de políticas públicas


Foto: Divulgação/Pixabay

Por Natália Campos

Falar da pessoa idosa é falar em heterogeneidade. São os idosos o segmento populacional mais diverso e complexo. Nele, não é tão óbvio definir comportamentos, monitorar tendências, pois a velhice é a conclusão de todo o ciclo de vida: suas condições sociais, econômicas e psicológicas.

Joaquina era Joaquim até nascer. “Naquela época não tinha ultrassom, então só descobriram que eu era menina quando nasci”. Nasceu no ano de 1935 em Santo Antônio de Lisboa, sertão do estado do Piauí, “no lugar onde só se escutava pio de passarinho”. A casa, nem comprada nem alugada, era da família o tempo em que o dono não aparecesse. Quando aparecia, saíam e procuravam uma nova casa abandonada para se estabelecer. Seus pais também eram pais de mais 14 irmãos. As meninas casavam cedo e os meninos mais ainda. Por isso os seus irmãos saíram todos cedo de casa. Enquanto a mãe cuidava dos afazeres domésticos, eram as meninas que ajudavam o pai na roça.

Aos 18 anos, dois meses antes de completar 19, Joaquina se casou com Emídio, um rapaz da cidade. Continuou trabalhando na roça, agora para a família que começava a crescer. Mas uma hora as contas apertaram e tiveram que ir para São Paulo.

“Antes de morar em São Paulo, eu não sabia o que era hospital, médico. Mas quando cheguei e descobri, quis ser enfermeira. Queria usar roupa branca, aquele chapeuzinho e ajudar as pessoas”, afirma Joaquina Silva, hoje com 83 anos. Mas nunca pôde. O marido não deixava. “Nem sabia o que era aposentadoria, INSS”. E se acostumou com o lar.

No Brasil, há muitos Joaquins e Joaquinas. Trabalhadores que tiveram uma vida laboral na informalidade, seja no trabalho rural, na construção civil ou em empregos domésticos, temporários. O corpo pede para parar de trabalhar, mas os anos de contribuição para a Previdência Social não foram atingidos. Então têm que reagir. Vão trabalhar como faxineiros, cobradores de ônibus, feirantes para tentar garantir, pelo menos, o piso.

Mas, com o regime que se tem no país hoje, é possível viver bem só com a aposentadoria? “Se ele está nas castas privilegiadas da Previdência, sim”, responde o jornalista especializado em envelhecimento populacional e mestre em economia, Jorge Felix. As castas a que ele se refere são os nichos profissionais e corporativistas que possuem uma Previdência diferente da grande maioria dos contribuintes, entre eles os funcionários públicos, o judiciário e os militares. Nessas “castas”, há aposentadorias que chegam a R$ 70 mil.

Como é o caso da família da Joaquina. Hoje a casa dela é sustentada pela aposentadoria do marido. Moram os dois mais o filho caçula. São destinados a ela R$ 1.000 da quantia, que são gastos com comida e remédio porque é o que dá. Se algum mês sobra um pouquinho, ela guarda ou dá para os filhos e netos. “Eu não tenho vaidade. A minha vontade é só ir pra igreja, ter saúde e um pouco de sossego”.


Joaquina Silva posando em sua casa Foto: Natália Campos

“Então essa parcela da população de fato não consegue viver com essa aposentadoria, principalmente nos grandes centros, o que explica o grande aumento de pessoas que se aposentam e se mantêm no mercado de trabalho”, explica Felix.  Mais de um terço das pessoas acima de 60 anos que já estão aposentadas no Brasil continuam trabalhando, de acordo com pesquisa realizada em 2016 pelo Serviço de Proteção ao Crédito e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas. A grande maioria delas é por necessidade de renda. “Mas estar no mercado de trabalho não significa necessariamente estar empregado”, alerta Felix. O termo também engloba aqueles que estão em busca de emprego.

“Gostaríamos que o mercado de trabalhado estivesse vendo isso e dando oportunidade. As empresas ainda não perceberam que o idoso pode ser visto como um componente essencial para o salto qualitativo dos jovens, por exemplo”, afirma a coordenadora do curso de gerontologia da PUC-SP, Flaminia Manzano.

LONGEVIDADE E CONSUMO

Os números confirmam: cada vez se vive mais. A expectativa de vida no Brasil hoje é de 72 anos e 5 meses para os homens e 79 anos e 4 meses para as mulheres, um aumento de 30,5 anos desde a década de 40. Mas o Estado ainda não se deu conta de que o idoso não precisa apenas de saúde. “É preciso também cuidar do espírito, da sua subjetividade, então é importante que o Estado tenha políticas público-sociais para a população idosa”, alerta Manzano.

Mundialmente há uma corrida comercial relacionada à terceira idade com investimentos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias que atendam às novas necessidades do idoso. E tem até nome: economia da longevidade. Segundo estimativa do Bank of America Merrill Lynch, essa economia movimenta cerca de US$ 7,1 trilhões por ano, atingindo a terceira colocação de maior atividade econômica do mundo.  “Os velhos ficam com o tempo mais livre, então é a oportunidade de eles poderem ocupar esse tempo com atividades produtivas que propiciem relações intergeracionais”, destaca a coordenadora.

No Brasil, ainda não se tem muitos números, mas há setores bem relevantes voltados a esse mercado, como o nicho de fraldas geriátricas descartáveis, que movimentou R$ 901 milhões entre junho de 2015 e maio de 2016, de acordo com pesquisa da Nielsen.

Mas Jorge Felix alerta que é preciso ter cautela com o que ele chama de fantasia do grande mercado consumidor idoso. “A pessoa idosa tem uma restrição orçamentária e alocação do dinheiro muito forte para a saúde”, explicou.

Como aconteceu com Joaquina. Por anos ela foi a única da casa a ter convênio. Mas, após uma operação malsucedida de catarata, perdeu praticamente toda a visão dos dois olhos. Hoje não consegue mais ler a Bíblia. Passou a enxergar apenas vultos e a andar pela casa tocando as paredes. Os gatos de estimação do marido e do filho parecem até já saber e dão passagem quando ela passa. Desacreditada dos médicos e com uma despesa pesando no orçamento, ela decidiu cancelar o plano. Hoje dependem todos do SUS. Uma vez por mês a médica faz uma visita e os examina. Quando precisam vão ao posto de saúde do bairro. Mas usam pouco.

De acordo com Felix, depois da saúde pessoal, o segundo maior gasto da pessoa idosa nas classes mais baixas é a família. Mais de 60% dos idosos possuem a maior renda da casa, sendo eles quem sustentam todo o domicílio. Já nas classes mais altas, os idosos gastam mais com lazer, atividades culturais e principalmente viagens.

E, para essa parcela com mais dinheiro, não faltam opções de consumo: pacotes de viagem, cruzeiros, academias. “O que hoje se faz é inserir o idoso na estrutura jovem e não o caminho inverso: pensar as necessidades e então desenvolver as estruturas”, destaca o jornalista.

Hoje há uma geração de idosos surpreendidos pela sua longevidade e não se sabe o que esse futuro oferece tanto para eles quanto para os próximos. “Esses dias eu estava pensando no meu futuro”, fala Joaquina em meio a gargalhadas, e completa: “Futuro…que futuro eu ainda tenho?”.

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