Brasil se destaca em liderança financeira feminina, diz estudo

País tem 33% das mulheres à frente da gestão familiar; na Suíça, são apenas 9%

Por Sofia Ferreira

Depois de ser mãe aos 17 anos, a pequena empresária Isabela Siqueira se viu diante de um dilema que determina a vida de milhares de mulheres: desistir dos estudos e se dedicar aos cuidados de casa contando com o dinheiro de seu companheiro ou enfrentar o mercado de trabalho? Ela escolheu a segunda opção. Hoje, 13 anos depois, é dona do próprio negócio e independente financeiramente. “Seria muito fácil para mim deixar tudo de lado para cuidar da minha família, mas eu sempre quis que minha filha fosse uma mulher forte e segura de suas capacidades e, para isso, precisei tomar as rédeas da minha vida e cuidar da nossa segurança financeira”, conta.

Foi-se o tempo em que dinheiro era visto como assunto dos homens. Mas, mesmo que pareça óbvio, em pleno século 21 muitas mulheres ainda entregam a função de controle das economias domésticas ao seu parceiro. No Brasil, contudo, os números apontam uma evolução: segundo o primeiro relatório do mapeamento feito pelo UBS Investor Watch 2019, o país vem se firmando como destaque em lideranças femininas na gestão financeira familiar. No estudo “Own Your Worth – Why women should take control of their wealth” (“Reconheça seu valor – porque as mulheres devem ter o controle de suas finanças”), o grupo suíço entrevistou 3,7 mil mulheres casadas, divorciadas e viúvas com pelo menos US$ 250 mil investidos. Esses dados foram coletados em nove países, entre eles Brasil, Alemanha, Hong Kong, Itália, México, Cingapura, Suíça, Reino Unido e Estados Unidos. Foram ouvidas 221 mulheres brasileiras entre setembro de 2017 e janeiro de 2019.


Fonte: UBS Investor Watch 2019

Entre os países analisados, as brasileiras estão lado a lado das mexicanas como aquelas que possuem as maiores taxas de liderança ou participação na divisão das tarefas associadas à economia doméstica. No Brasil, a porcentagem de mulheres à frente dessas decisões é de 33%, ante 30% do México, enquanto as que participam das divisões de tarefas financeiras representam 22% da amostra do país contra 32% das mexicanas. Nos países desenvolvidos onde a pesquisa foi aplicada, as lideranças não passam de 22% e a divisão das responsabilidades limita-se a 25% nos Estados Unidos, caindo a 20% na Alemanha, 15% no Reino Unido e 9% na Suíça.

Em aspectos gerais, segundo o estudo, as mulheres estão mais conscientes do que nunca de suas necessidades financeiras: três quartos das participantes colocam a aposentadoria como sua maior preocupação, e sete entre dez apontam que cuidados a longo prazo e o amparo de seguros são igualmente importantes. “Eu sempre deixei o dinheiro na mão do meu marido, que costumava entender mais do que eu do assunto, mas na hora de me aposentar me arrependi, porque não tinha nenhuma reserva (fui autônoma a vida inteira) e ele recolheu o valor mínimo para mim, o que acabou sendo muito pouco para me manter”, conta a aposentada Anna Maria Ferraz, de 83 anos.

Fonte: UBS Investor Watch 2019

Porém, esses números ainda resultam em porcentagens pouco significativas: no mundo, apenas 23% das mulheres assumem as decisões e o planejamento financeiro a longo prazo e 19% dividem as funções com seus parceiros. O resultado é que, hoje, a ampla maioria (58%) se submete ao direcionamento financeiro de seus parceiros por entender que eles têm maior domínio sobre esse assunto. Nessa pesquisa, o UBS ainda apontou que mulheres pertencentes à geração millennial (nascidas entre 1985-96) são mais suscetíveis a confiar plenamente a função ao seu companheiro do que aquelas com mais de 51 anos. Nos Estados Unidos, esse número é de 56% entre millennials, contra 54% entre mulheres mais velhas.

Mesmo que o Brasil esteja indo na direção certa, uma fatia de 45% das mulheres ainda confia totalmente a administração das finanças aos seus companheiros. Por outro lado, a realidade do mundo corporativo mostra que em solo nacional cada vez mais mulheres estão assumindo cargos de gerência e diretoria. Considerando os cargos de direção, esse número subiu de 32,3% em 2003, para 39,2% em 2017, segundo a RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), que levou analisou mulheres de 30 a 49 anos. Já para cargos de gerência, esse aumento foi ainda maior: de 31,9% em 2003 para 42,4% em 2017.

Vale ressaltar que a pesquisa do UBS leva em consideração apenas estruturas familiares heteronormativas, desconsiderando casais homoafetivos.

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