Economistas discutem eficácia do Consenso de Washington

Após 30 anos, especialistas avaliam impacto das políticas neoliberais no continente

Por Liana Ruiz

Os anos 80, conhecidos como “a década perdida” no que se refere ao desenvolvimento econômico, culminaram na difusão de uma “receita de bolo” neoliberal que tinha por objetivo declarado combater as crises e o atraso de países subdesenvolvidos. Em novembro de 1989, o economista John Williamson, membro do “Instuitute for International Economics”, sintetizou um conjunto de medidas macroeconômicas que ficaram conhecidas como o “Consenso de Washington”. Entre as regras propagadas estavam a disciplina fiscal, redução de gastos públicos, reforma tributária, abertura comercial, privatizações, câmbio flutuante, atração de investimentos estrangeiros e afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas.

A elaboração deste receituário contou com a participação de instituições financeiras internacionais, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Posteriormente, as diretrizes sintetizadas por Williamson foram consideradas obrigatórias para que o próprio FMI e bancos norte-americanos pudessem fornecer ajuda financeira para os países em crise.

Hoje, 30 anos depois, economistas avaliam até que ponto essas medidas ajudaram no desenvolvimento social e econômico dos países emergentes. Essas regras foram aceitas sem muito questionamento e reflexão, principalmente por parte daqueles que mais necessitavam de recursos, e atualmente estão sendo colocadas em xeque.

Entre as diversas questões levantadas pelos especialistas no assunto, uma delas diz respeito à ingerência de órgãos multilaterais na formulação de políticas econômicas dos países em crise e o quanto isso pode ser prejudicial ou favorável. Para Silvio Campos Neto, mestre em economia pela FGV-SP e membro da consultoria Tendências, é natural que o credor imponha condições para fornecer ajuda, visto que tais recomendações são impostas para que o país possa se recuperar financeiramente e, assim, honrar os compromissos assumidos. “Medidas de austeridade e ajuste usualmente causam impactos iniciais negativos, porém são necessárias para permitir a recuperação um pouco mais à frente, sendo positivas no médio e longo prazo”, pondera Neto.


Imagem de divulgação do site “Economia Orçamento Investimento”

Outra questão levantada pelos críticos é o baixo desenvolvimento social dos países que adotaram os preceitos do Consenso de Washington. A desigualdade social no Brasil, por exemplo, ainda é muito elevada e o crescimento econômico previsto pelos defensores daquele receituário de fato não ocorreu. Segundo o economista Leonardo Nelmi Trevisan, doutor em Ciência Política pela USP e professor titular da PUC-SP no departamento de economia e administração, o Plano Real, implementado em 1994 a partir de ideias neoliberais, foi incapaz de quitar a dívida social do país, em que mais da metade da população vive em condições extremamente precárias. “Claro que a melhor parte do Plano Real foi quando ele impediu, com o controle da inflação, que ocorresse transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos, mas o processo mesmo de alterar esse destino ruim das classes mais baixas, isso a política neoliberal não foi eficiente em fazer”, afirma Trevisan.

Em uma entrevista à Folha de S. Paulo em outubro de 1999, o próprio John Williamson colocou em xeque algumas medidas tomadas pelo governo brasileiro após a implantação do projeto econômico que instituiu o real como moeda oficial. De acordo com ele, o país errou em sustentar uma taxa de câmbio fixa para controlar a hiperinflação, além de permitir a liberalização da conta de capitais de forma prematura. “O Brasil, por exemplo, estaria em uma situação muito melhor se tivesse tornado a sua taxa de câmbio mais competitiva há mais tempo”, disse Williamson na ocasião.

Atualmente, além da instabilidade política e da deterioração dos indicadores sociais, o país ainda luta para superar mais uma crise econômica, considerada uma das mais graves de sua história. Desemprego, déficit público e inadimplência são tópicos que, desde 2014, estampam as manchetes dos jornais. O que levou o Brasil a chegar a esse ponto pode ser interpretado de diferentes maneiras pelos economistas.

Para Neto, da Tendências, a atual crise econômica se deve a ausência de medidas estruturais na última década, ao “crescente ativismo estatal” na economia e o uso em larga escala de políticas “pouco responsáveis” envolvendo recursos públicos. “Com a perda de produtividade (oferta) de um lado, e a tentativa de sustentar o crescimento de forma artificial (via estímulos à demanda) de outro, desequilíbrios foram acentuados ao longo da década, com aceleração inflacionária, piora das contas externas, forte deterioração fiscal e endividamento excessivo do setor privado”, avalia o economista em entrevista por e-mail.

Se a “receita de bolo” propagada pelo Consenso de Washington não foi benéfica para a consolidação de uma economia saudável nos países em desenvolvimento, isso ainda deve ser muito discutido e refletido. O fato é que muitos países da América Latina estão enfrentando dificuldades econômicas com reflexos no âmbito social e político.

Leave a Reply