Lava Jato tem impactos bilionários na economia

Operação gerou perdas de R$ 182,7 bilhões, segundo advogado

Fonte: Divulgação/ Ministério Público do Paraná

Por Karine Sena de Moraes

Depois de um intenso trabalho de investigação, acusações e julgamentos, que resultaram em 242 condenações e na prisão de 155 pessoas, a operação Lava Jato completou cinco anos de existência no dia 17 de março. Os 50 processos de lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, fraude a licitações, organizações criminosas, evasão de divisas, tráfico internacional de drogas, crime contra a ordem econômica, embaraço a investigações e falsidade ideológica geraram diversas consequências para o país, inclusive em seu desenvolvimento econômico.

As maiores envolvidas nos escândalos e, portanto, que mais sofreram o impacto das investigações foram empresas do setor de óleo e gás, como a Petrobras, e construtoras, como Odebrecht e OAS. Enquanto a operação divulgava suas descobertas sobre os grandes esquemas de corrupção que ocorriam dentro destas organizações e prendia donos, sócios e principais empresários, o mercado financeiro, desconfiado, se retraiu. A paralisação de diversas obras fez com que a cadeia industrial e de serviços ligada a tais setores parasse de gerar emprego e renda.

Segundo Walfrido Warde, advogado e autor do livro “O Espetáculo da Corrupção” (editora Leya, 2018), o impacto negativo da operação Lava Jato sobre a atividade econômica no país foi de R$ 187,2 bilhões, o equivalente a 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Nos dois anos posteriores ao início das investigações, ou seja, em 2015 e 2016, a economia brasileira recuou 3,55 e 3,31% respectivamente. O professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Pedro Henrique Pedreira Campos, explicou que esses números tiveram influências de fatores internacionais: “A economia mundial passou por um momento recessivo nesse período, com baixa dos preços de alguns produtos fundamentais para a economia brasileira. Isso foi intensificado com a operação Lava Jato, que desagregou um dos setores mais bem estruturados da economia brasileira até então, o de engenharia e infraestrutura”.

De acordo com dados levantados pelo jornal Estado de São Paulo, até dezembro de 2016, as principais empresas envolvidas na Lava Jato já tinham demitido quase 600 mil pessoas, sem considerar as vagas indiretas. No caso da Petrobras, 23 empreiteiras envolvidas com a estatal também foram investigadas. Considerando fornecedores, investidores e prestadores de serviços, cerca de 51 mil CNPJs estão ligados à estatal. Proibidas de participar de licitações e com dificuldades para conseguir empréstimos, muitas das empresas que foram afetadas de maneira secundária correm o risco de fechar e entraram com pedidos de recuperação judicial.

Com diversas ações ainda paralisadas, as grandes empresas estão encontrando dificuldade de se recompor e voltar com força ao mercado, mesmo após terem anunciado uma série de medidas de combate à corrupção. Por conta disso, para Campos, certas ações da Lava Jato têm sido ineficazes.

“Os métodos para obter essas informações e testemunhos em boa medida questionáveis foram típicos de Estado de exceção, como escutas ilegais, mecanismos assemelhados à tortura para obter as colaborações, ou “delações premiadas”, além de toda uma criminalização da política gerada pela parceria com a mídia, com vazamentos em geral ilegais dos dados que eram apurados”, avalia o professor da UFRRJ.

Ainda de acordo com ele, existem outras maneiras de resolver o problema: “Uma alternativa política interessante seria expropriar os donos das empreiteiras que cometeram ilegalidades, retirando-lhes não só a condução das empresas, mas a própria propriedade que eles mantêm sobre esses grupos econômicos, que poderiam ter sido nacionalizados/estatizados, como já ocorreu em outros momentos históricos de empresas que notoriamente se viram envolvidas em casos de corrupção e colaboração com potências estrangeiras”.

As principais críticas feitas por especialistas à Lava Jato se devem à forma como ela buscou combater a corrupção, prejudicando mais os funcionários e trabalhadores dos grandes setores da economia brasileira, que engrossaram as estatísticas de desemprego, do que de fato os proprietários das empresas. Para muitos, existe a possibilidade de afastar os agentes que cometeram crimes e manter os postos de trabalho, a atividade econômica e a cadeia produtiva, sem paralisar as empresas e desestruturar o processo produtivo.

Apesar disso, para Gil Castelo Branco, secretário-geral da ONG Contas Abertas, a operação trouxe impactos positivos: “O maior benefício que a Lava Jato deu ao país foi mudar a percepção de risco por parte do corrupto, que passou a ver que a punição poderia ser maior do que anos atrás. Houve uma estruturação para investigar a corrupção. Na força-tarefa do Paraná não tem apenas procuradores, mas também especialistas que assessoram quanto ao que pode ser feito, que documento pode ser buscado para consolidar determinada prova”, afirma.

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