Novas projeções confirmam desaleceração da zona do euro

Banco Central Europeu rebaixou para 1,1% previsão de crescimento para o PIB de 2019

Por Ana Carolina Avólio

Associada à ideia de prosperidade e estabilidade econômica, a zona do euro está tendo que lidar com uma das maiores reviravoltas em sua economia. Isto porque, desde 2010, alguns dos 19 países membros sofrem com endividamento público, desemprego e alta inflação. Uma das consequências da crise é emblemática: em março, o Banco Central Europeu (BCE) diminuiu de 1,7% para 1,1% a previsão de crescimento para o PIB do bloco neste ano.

Histórico

Para que se entendam as peculiaridades do cenário atual, é necessário voltar no tempo. Em 1970, frente à crise do petróleo, os Estados Unidos abandonaram a conversibilidade do dólar pelo ouro, dando início a um período de forte flutuação do câmbio. Nesta época, a Europa possuía diferentes moedas, como o marco, o franco e a lira. “Sem uma taxa de câmbio fixa, os interesses de cada país entravam em conflito, pois todos queriam sua moeda mais fraca para vender mais e importar menos”, explica o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Gonçalves. A concorrência entre os países europeus, aliada às dificuldades políticas dos anos 1980 (principalmente relacionadas ao colapso da União Soviética), impulsionou a ideia de uma unificação continental, que se instalou de vez em duas estruturas: a União Europeia, de corte mais político e comercial, em 1992, e a zona do euro, com a unificação da moeda, em 1993.

Mosaico

“À primeira vista, parece uma solução boa. Ao invés de várias moedas, a conversa sobre comércio com os Estados Unidos e o resto do mundo seria feita em torno de uma taxa de câmbio única para todos os participantes do euro”, diz Gonçalves. No entanto, a criação de uma única moeda não levou em conta a peculiaridade de cada país. O mesmo bloco abrangia, por exemplo, Alemanha, grande exportador de alta produtividade industrial, e a Grécia, cuja economia depende do setor de turismo.

Em termos simples, os alemães produzem muito mais do que os gregos. A taxa de câmbio acaba favorecendo a Alemanha, que possui uma economia mais diversificada, produtiva e com alta rotatividade. “A mesma taxa de câmbio que permite a um americano comprar uma BMW não ajuda a baratear o turismo do mesmo americano na Grécia”, exemplifica o economista. Em casos de crise, como as vistas desde 2008, as diferenças começam a ficar evidentes: enquanto o grande exportador consegue conviver com o euro mais forte ou mais fraco, as economias mais fracas sucumbem.

Origem

Mas, então, o que causou a súbita desaceleração no bloco econômico que já foi conhecido como o mais sólido do mundo? Em primeiro lugar, o efeito dominó desencadeado pela crise global de 2008. Dois anos mais tarde, a Europa sentiu suas consequências, com a enorme dívida pública dos países deflagrando o colapso.

Seis anos após o início da crise, a dívida pública dos países, em relação ao PIB, ainda era alta. Fonte: AMECO

Os países financeiramente mais frágeis – como Portugal e Grécia – e até os que eram tidos como “no meio do caminho”, como Itália e Espanha, há anos gastavam mais do que arrecadavam, fazendo com que o Estado passasse a financiar os custos por meio de empréstimos. Como medida contra a crise, o Banco Central Europeu optou por reduzir as taxas de juros e aumentar o limite de crédito. “Isto significa que é barato se endividar lá fora. Os governos europeus que precisaram de dinheiro e mais sofreram com a recessão e a falta de arrecadação de impostos conseguiram se endividar a juro baixo”, afirma Gonçalves.

Com o juro baixo, as dívidas atingiram proporções astronômicas. Foi o caso da Grécia, por exemplo, cuja dívida alcançou a marca de 148,6% do PIB em 2010. Quando os números foram divulgados, a desconfiança dos investidores no mercado europeu fez com que a crise se agravasse, já que eles começaram a evitar ações e títulos da zona do euro. Itália (118,4% do PIB), Irlanda (94,9%), Portugal (93,3%) e Espanha (61,1%) completaram a lista. Na mesma época, Alemanha apresentava uma dívida de 83,2% do PIB e França de 82,3% – percentuais que também quebram o máximo permitido pela União Europeia (60%). No entanto, as duas economias são altamente industrializadas, com boa capacidade de investimento, e possuem grandes reservas internacionais, passando uma imagem de credibilidade aos possíveis investidores.

Atualmente

Para José Francisco Gonçalves, existe outro desafio pela frente: o poder dominador da economia chinesa, com influência cada vez maior no comércio internacional, incluindo os Estados Unidos e os países emergentes. “Alemanha e França anunciaram, em março, que estão preparando um plano de reação à indústria chinesa. Querem impedir que os chineses comprem empresas francesas e alemãs”, pontua. A política industrial protecionista se mostra uma opção viável frente a uma ameaça que pode provocar ainda mais desaceleração na zona do euro. O cenário ainda pode ser agravado pelas incertezas sobre o processo do Brexit, as dificuldades políticas na Itália e os protestos dos coletes amarelos na França.

Em relação ao impacto da crise europeia na economia brasileira, Gonçalves não é de todo pessimista. “Nossas exportações para a Europa não são irrelevantes. Podemos perder algum emprego e vendas por aí”, diz. “No entanto, a desaceleração traz queda da inflação na Europa e juros baixos pelo BCE, que são favoráveis. Ajudam a conter o dólar e a inflação aqui.”

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