Gravidez precoce agrava taxa de desemprego entre mulheres

Afazeres domésticos e falta de oportunidades influenciam na formação acadêmica, na entrada e na permanência no mercado de trabalho

Por Larissa Teixeira e Maria Clara Vieira

A taxa de desemprego entre mulheres é consideravelmente maior do que entre os homens. Uma pesquisa do Ipea apontou que, no primeiro trimestre de 2018, os números foram de 15% entre elas contra 11,6% entre eles. A situação se agrava quando se trata daquelas que passaram por uma gravidez na adolescência.

De acordo com a pesquisa “Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira: 2018”, do IBGE, os jovens entre 14 e 29 anos têm o índice de desocupação acima da média brasileira.

O pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Gustavo Venturi, que atua na área de cultura política e estudos sobre marcadores sociais da diferença (como gêneros e sexualidades, raças e etnias, classes sociais, juventudes e velhices), aponta para o fato de que o desemprego, quando cresce, tende a afetar os segmentos mais vulneráveis da sociedade, que tiveram menos oportunidades de qualificação, o que inclui as mulheres, as pessoas mais jovens e os negros.

Esta relação também aparece no estudo do IBGE. Segundo os dados, os grupos formados por mulheres, pessoas pretas ou pardas, jovens e os com menor nível de instrução são os mais afetados na categoria de subocupação por insuficiência de horas e, consequentemente, por rendimentos baixo (faz parte dessa categoria pessoas de 14 anos ou mais que trabalhavam menos de 40 horas na semana em que a pesquisa foi feita – em um trabalho ou na soma de todos os trabalhos -, que gostariam de trabalhar mais horas e que estavam disponíveis para isso pelos próximos 30 dias).

A renda média de um trabalhador adulto do sexo masculino é 26% maior do que o de uma mulher na mesma faixa etárias, segundo o “Estudo Especial sobre Diferenças no Rendimento do Trabalho de Mulheres e Homens nos Grupos Ocupacionais”, com base nas informações levantadas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), apurada pelo IBGE.

Carolina Lourenço, 20, é moradora do Rio de Janeiro e engravidou aos 19. Ela tem o ensino médio completo e duas formações técnicas, mas conta que, por estar grávida, teve que se contentar com um cargo de meio período que a paga metade de um salário mínimo.

Ela conta que descobriu sua gravidez no final de seu contrato como jovem aprendiz, experiência que durou dois anos. Apesar de já estar no caminho para uma contratação efetiva em período integral, Carolina diz que, ao comunicar a empresa sobre a gravidez, foi informada de que a contratação aconteceria apenas por fatores legais, porém que a contratariam por meio período, e com garantia de apenas seis meses. Ela também comenta que, devido à gravidez, conviveu constantemente com situações preconceituosas dentro da empresa.

“Um funcionário do RH, quando descobriu que eu estava grávida, disse para a minha chefe que eu engravidei para segurar o emprego, que eu agi de má-fé, sendo que já estava tudo certo para eu ser contratada antes de eu saber que estava grávida”, lamenta Carolina.

A jovem, que trabalha no segmento de transportes, na área de manutenção civil, aponta para o fato de ser minoria em uma equipe formada majoritariamente por homens. “Eles não veem vantagem em contratar mulher, muito menos grávida”, comenta.

Venturi, da USP, explica que o mercado de trabalho pode expressar (em alguns países mais, noutros menos) relações machistas, de dominação de gênero, baseadas na ideia da superioridade do masculino sobre o feminino “[Isso] reflete em diferenças salariais para funções iguais, em barreiras para ascensão na carreira, na oferta de oportunidades de postos mais estáveis etc.”, completa.

Ele aponta que uma causa provável para esse comportamento por parte dos empregadores é a desigualdade de gênero no cuidado dos filhos, “fazendo com que as mães faltem mais no trabalho e/ou tenham menos disponibilidade para horas extras, ‘justificando’ a preferência pelos homens”. O pesquisador ressalta a importância de políticas públicas para reverter essa situação, além da educação sexual nas escolas: “Certamente é possível alterar esse quadro, a começar por algum equilíbrio entre as licenças maternidade (quatro ou cinco meses) e paternidade (cinco dias)”, diz.

Em outros lugares do mundo, a licença-paternidade é maior do que a brasileira. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho, países como a Islândia e os Estados Unidos têm a mesma duração da licença para mães e pais, sendo 90 dias para o primeiro e 84 para o segundo.

Sobre o retorno ao trabalho, Carolina diz que já está procurando creches no bairro em que reside, porém está com dificuldades para encontrá-las, já que as reconhecidas só aceitam crianças a partir de seis meses a um ano. A opção foi buscar alguém com experiência com crianças para contratar como babá, alternativa que nem sempre é uma opção viável para grande parte das mulheres.

Uma das principais razões para o desemprego entre jovens mães é a oferta insuficiente de creches públicas.Segundo o Mapa da Desigualdade 2018, realizado pela Rede Nossa São Paulo, enquanto bairros como Lajeado e Guaianases, que ficam na zona leste da cidade, atendem quase 99% das demandas por creches municipais na cidade de São Paulo, locais como Vila Andrade (zona sul) e Sé (centro) têm os menores indicadores da cidade, com 53,41% e 44,02%, respectivamente. Inclusive, a Vila Andrade tem um dos maiores tempos de espera por vaga. Em média, um morador leva quase um ano (362 dias) entre a solicitação da matrícula e o encaminhamento da vaga. A região perde apenas para Pedreira, em que o processo leva 401 dias.

Apesar das dificuldades, Carolina tem expectativas positivas para o futuro. Ela conta que, durante a gravidez, fez aulas particulares para tentar ingressar na faculdade, e aguarda por uma vaga na lista de espera. Ela também deseja retornar em um cargo efetivo na empresa, que ofereça um salário suficiente para cobrir os gastos a mais gerados pelo filho.

A gravidez na adolescência no Brasil

Em 2018, um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostrou que o Brasil tem um índice de gravidez na adolescência maior do que a média mundial e latina.

A cada mil meninas brasileiras entre 15 e 19 anos, 68,4 se tornam mães. Na América Latina, esse número é de 65,5 para a mesma faixa etária. Já no mundo a média é de 46 casos de gravidez na adolescência.

O relatório da OMS sobre o Brasil mostra dados desde a década de 80 e a proporção de gestações entre jovens mães vem caindo desde o seu pico entre 1995 e 2000, quando o número de nascimentos, a cada mil meninas, foi de 83,3.

Educação e mercado de trabalho

Gravidez, afazeres domésticos e cuidado com os filhos são alguns dos fatores que interrompem a formação acadêmica e a tentativa de ingressar no mercado de trabalho.

Segundo o IBGE, em 2017, 20% das mulheres não buscaram trabalho por ter que cuidar dos afazeres domésticos, dos filhos ou de outros parentes. O mesmo fator está presente para apenas 1,1% dos homens. Os dados mostram que problemas de saúde ou gravidez também interferem na decisão.

A pesquisa também mostrou que a necessidade de cuidar dos afazeres domésticos ou de crianças e outras pessoas é a principal razão para as mulheres abandonarem os estudos sem ter concluído o ensino médio.

Wanessa Costa, 37, é professora e coordenadora da rede pública na cidade de Guaratinguetá, interior paulista. Aos 16, engravidou de Laís Barbosa, que, hoje, tem 20 anos.  Ela conta como foi sua experiência e as consequências que percebe duas décadas depois de ter tido sua filha.

Wanessa Costa, professora e coordenadora da rede pública de ensino.

Ela também relata como interpreta a situação que enfrentou, nas escolas em que atua como professora.

Wanessa Costa, professora e coordenadora da rede pública de ensino.

Quando questionado sobre o papel da escola para facilitar o ingresso de jovens mães no mercado de trabalho, Venturi apontou para uma complexidade no debate sobre o assunto: “Para além da entrada no mercado de trabalho, a discussão deve ser sobre trabalho decente, conforme conceito introduzido pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) há duas décadas. Mulheres sempre trabalharam, seja no trabalho privado não remunerado, seja em relações de exploração econômica”, finaliza.

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