Influência do Cinema na criação de uma concepção de mundo

Por Caio Torres

No filme “Carros”, de 2006, há uma cena em que o personagem principal, Lightning McQueen, entra em uma sala com outros carros que representam os habitantes de uma pequena cidade. Os habitantes, revoltados com as recentes atitudes do protagonista, recebem-no com repúdio e ofensas. Dentre as palavras gritadas ao protagonista, com muita atenção pode-se ouvir os termos “comunista” e “fascista”, gritados com um tom de ofensa. Mesmo em um filme cujo público alvo é o infantil, certos conceitos político-ideológicos já estão presentes, quase como forma de educar os telespectadores desde cedo e incutir no subconsciente certa maneira de pensar.

O professor Mauro Luiz Peron, da Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que a elaboração da imagem cinematográfica constitui uma atitude não apenas estética, mas uma atitude estético-política. “Como toda escolha é política, temos que toda elaboração estética é, obrigatoriamente, uma elaboração política, porque diz algo mediante determinado recorte do olhar. É justamente por isso que, mesmo um filme erroneamente qualificado como “mero entretenimento” é, na essência, entretenimento numa certa direção, com determinados enfoques temáticos. Todo “entretenimento”, portanto, é sempre comprometido com determinados ideais de mundo, quer estejamos diante de filmes “para crianças”, quer para adolescentes, quer para um público “adulto”. Todo Cinema apresenta, assim, um viés ideológico, porque diz algo mediante determinados pressupostos – sejam eles explícitos ou não.”, analisa o professor.

As obras cinematográficas são responsáveis, também, por criar estereótipos que se incorporam no imaginário coletivo de maneira arrebatadora. Um exemplo são os filmes sobre máfias. O perfil do “mafioso” é quase que unânime e os filmes da trilogia de “O Poderoso Chefão” contribuíram para criar esse tipo de estereótipo. Ao pensar na figura de um mafioso vêm à cabeça de muitos o personagem Don Vito Corleone, do ator Marlon Brando, isso porque o filme teve e tem um alcance tão grande e permeia de maneira tão eficiente a cultura popular, que mafioso e Corleone são praticamente sinônimos.

Outro exemplo desse fenômeno são as obras de Sergio Leone sobre o faroeste americano. Os personagens de Clint Eastwood na sequência dos anos sessenta “Por um punhado de dólares”, “Por uns dólares a mais” e “Três Homens em conflito” contribuíram para formar a figura do cowboy americano, além do notável John Wayne, personagem de John Ford em Rastros de Ódio. O perfil apresentado por esses filmes reforça a figura do
cowboy não apenas de maneira comportamental, mas também de maneira estética na cultura ocidental de uma maneira geral. Ou seja, o cinema, meio pelo qual o mundo em geral teve amplo contato não só com as histórias sobre o faroeste americano, é um dos grandes atores na dinâmica de criação dos mais diversos tipos de estereótipos.

Ainda segundo Mauro Peron, uma das marcas do Cinema Clássico de Hollywood é a clara demarcação entre “heróis” e “vilões”, em nome de uma sociedade que deve ver triunfar o Bem sobre o Mal, o Herói sobre o Vilão. “E essa representação cinematográfica foi conduzida de forma que o herói fale, em sua individualidade, não em seu próprio nome, mas em nome de toda uma coletividade. Este é um aspecto muito forte porque opera no plano de uma mistificação do Herói, que só faz sentido porque um bem, sempre maior e supraterreno, é a meta daquele indivíduo. Um dos heróis mais notáveis do Western foi construído por John Ford, a partir do seu trabalho com John Wayne: em Rastros de Ódio (The Searchers, U.S.A., 1956) o personagem Ethan, que pertenceu ao exército confederado, luta contra os Comanches, para reaver sua sobrinha por eles capturada. Esse personagem já surge, no início da narrativa, de uma maneira incomum na vasta paisagem selvagem, a ser conquistada pelos brancos. É nessa vastidão oferecida em amplo widescreen, que surge a figura desse Herói solitário, que procura proteger uma família, na verdade uma sociedade que deve ser preservada em sua marcha ‘legítima’.”, completa Peron.

O teórico de cinema e professor francês Jacques Aumont, em sua obra “O olho interminável”, trabalha a ideia de que o olhar é móvel. As experiências humanas com a pintura, a fotografia e, então, o cinema educaram a forma de se olhar para uma obra: desde a maneira de se analisar a parte e o inteiro até a ordem em que o olho lê as imagens, e isso é flagrante quando o assunto relaciona-se às artes visuais e ao cinema, de maneira consequente. Mais do que isso, obras cinematográficas são responsáveis por moldar formas de pensar.

Segundo Aumont, em sua obra “O olho interminável”, de 1989, “o olhar, no presente momento, se imobilizou, ou desmobilizou. Adote a televisão os pontos de vista que quiser, só suscitará a ausência de olhar. O olho, aliás, só é um instrumento atual por sua capacidade de ler imagens esquemáticas, sintetizadas, hipersignificantes, e de lê-las rápido, sob o risco de ‘morte’, como nos jogos de vídeo e outras simulações.”

Os processos estético-narrativos audiovisuais possuem um grande poder de influenciar, sobretudo, na vida particular das pessoas. No caso do cinema moderno, além de educar o olhar do telespectador, ele é responsável por despertar o imaginário de quem assiste, e em muitos casos, se mistura de maneira tão eficiente na vida das pessoas que o indivíduo acaba se projetando em certo personagem ou história apresentados em um filme. Esse fenômeno pode ser observado em diversas obras cinematográficas.

É seguro dizer que quase toda obra audiovisual é ideológica. A opção por mostrar algo já é uma opção por omitir algo. Esse tipo de escolha, é por si só, uma ação política, e revela valores e maneiras de interpretar o mundo real. Sem dúvidas, quando repetido e exposto de maneira sistemática, esse tipo fenômeno acaba por moldar o imaginário não apenas individual do telespectador, mas também o imaginário coletivo da sociedade em que ele está incluído.

Vale ressaltar que o imaginário coletivo não é simplesmente a absorção de ideias por parte do telespectador. De acordo com Mauro Luiz Peron, “em termos mais amplos, aquilo que é chamado ‘imaginário coletivo’, porém, não pode ser visto como a arena onde, por um lado, temos um corpo inerte de espectadores passivos e, por outro, onde reina um Cinema que comanda toda e qualquer forma de olhar espectatorial. Isso porque estamos sempre diante de um campo de interinfluências multifacetadas. Numa sociedade extremamente desigual, como a capitalista, cumpre estimular o debate sobre como dar autonomia a formas múltiplas de narrativas cinematográficas, de modo que novos terrenos de imaginários surjam, talvez subversivos.”

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