Por Gabriel Tomé

Álbum “Sobrevivendo no inferno” é incluído na lista de leituras obrigatórias de um dos vestibulares mais importantes do País. "Contrariando as estatísticas", como em uma de suas letras, o disco do grupo Racionais Mc's, de 1997, antes considerado a bíblia do rap nacional pelos fãs, agora divide espaço com Camões, entre obras estudadas para o vestibular da Unicamp, já em 2020.

O evangelho negro escrito por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e Kl Jay é um verdadeiro raio x do Brasil e com riqueza de detalhes trata temas como o racismo, a violência policial e o genocídio da população negra. “Nessa viagem que é sobrevivendo no inferno, você vai entender o que é a periferia no Brasil ainda hoje”, pontua Edi Rock.

Atual, contundente e com linguagem periférica, é “uma verdadeira aula de história” como afirma Kl Jay. Uma narrativa que não é contado nos livros oficiais, um retrato da periferia sob sua própria perspectiva, fez ela apoderar-se da própria imagem. “De preto pra preto”, define Ice Blue.

O começo da primeira letra do álbum trás alguns dados sobre o racismo no Brasil:

“Sessenta por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial

A cada quatro pessoas mortas pela policias, três são negras

Nas universidades brasileiras apenas dois por cento dos alunos são negros

A cada quatro horas um jovem negro morre violentamente em São Paulo”.

Com exceção do acesso de negros a universidade, os dados mudaram pouco, como demonstrou uma pesquisa divulgada pela BBC Brasil. Cenário alterado pela política de cotas, bolsas e financiamentos para estudantes pobres entrarem na faculdade. Agora a arte negra adentra os vestibulares, e o rap historicamente marginalizado, agora é legitimado. O dialeto tido muitas vezes como “falar errado” é reconhecido e rompe com a ideia de que exista uma cultura de massa e uma cultura erudita, e que uma tenha mais valor que a outra.

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