No mercado editorial: “Experiência é a palavra da moda”

Editoras e autores apostam em novas formas de experienciar a literatura para fugir da crise

por Artur Ferreira

Atualmente o mercado editorial no Brasil passa por um período de instabilidade, com saídas de grandes competidores desse mercado como a FNAC, e redes de livrarias como a Saraiva e Cultura sendo obrigadas a fechar unidades e buscar formas de negociar suas dívidas milionárias.

Além disso de acordo com a 4ª edição da pesquisa Retratos da leitura no Brasil de 2016, o brasileiro lê em média 2,43 livros por ano, e quando se trata de formas de se ocupar durante o tempo livre, a leitura de um livro físico ou digital está na 10ª posição do ranking, e as 3 primeiras são assistir televisão, escutar rádio ou música e usar a internet, basicamente um diagnóstico de em sua maioria o Brasil é um país de não leitores com cerca de 11,5 milhões de analfabetos segundo dados do IBGE.

Porém mesmo em um panorama pouco animador, continua a surgir novas iniciativas dentro do mercado do livro, desde de novas propostas de linhas editoriais, publicações de novos estilos e autores e até mesmo investimento em novos projetos gráficos, que possam capturar a atenção dos leitores e não leitores.

Celso Padilha que é editor da Jujuba, editora independente fundada por 4 pessoas com a proposta de trazer um novo ar para o livro infantil, “a  ideia não é fazer um livro para criança e sim para a infância, tentamos fazer um livro que impressiona um adulto que vá criar um novo leitor” afirma Celso. A Jujuba que mesmo com obras importadas e traduzidas investiu  em um catálogo de autores nacionais em conjunto com uma produção gráfica mais detalhada, acabamentos com capa dura, folhas personalizadas com intuito de tornar mais lúdica o processo da leitura. Em nove anos, já obtiveram prêmios como o Jabuti, e os 30 melhores da Revista Crescer.

Catálogo da Jujuba Editora (foto: Gabriela Neves)

A intenção de querer levar o leitor a um ambiente mais lúdico e literário vai além da infância, a editora Carolina Fenati da Chão de Feira diz: “O livro pra nós é uma experiência literária. Os projetos gráficos são pensados para aparecerem nas páginas daquele livro, que são destinados a corpos que vão ter uma experiência com aquele livro”.

Para Carolina o livro é “quase uma oferenda para aquela pessoa que o lê, e isso deve estar colocado no seu projeto editorial. E pensamos isso lendo aquele livro, e para cada livro tem um tipo de feitura específica”. A Chão de Feira é uma editora independente que publica livros de poemas, prosa, ensaios acadêmicos, e até mesmo revistas, Carolina afirma que a variedade no catálogo e a oferta de oficinas literárias com a equipe editorial é uma forma de burlar a crise e manter um público cativo, o que ela chama de “pacto com o leitor” que acompanha o trabalho da editora.

Outro meio para se conseguir visibilidade e trazer inovação na publicação de um livro é o investimento em projetos gráficos que “trazem o leitor para uma experiência e que captura a atenção dele” afirmou a capista e editora Marina Avila. Marina participou ativamente da produção do livro ‘Sweeney Todd, O Barbeiro De Fleet Street’, a capista afirma que seu objetivo com a publicação era criar um clima de horror e suspense através de ilustrações de jornais vitorianos que ditaram toda as artes da capa e miolo do livro.

Livro Sweeney Todd e outros produtos relacionados (foto: Gabriela Neves)

Marc Barreto Bogo que é especialista em semiótica, design de livros e mercado editorial, afirma que o molde tradicional do livro, como em modelos de capa dura ou brochura passou por uma certa instabilidade recente devido a popularização dos ebooks e ereaders mas isso não fez com que o livro físico parasse de ser comprado, Marc cita também o e-commerce que foi muito temido como um possível novo obstáculo ao mercado literário décadas atrás mas que só impulsionou a venda de mais livros, “portanto é complexo definir se o livro em seu modelo mais tradicional perde atratividade perante outras formas de mídia como o streaming ou leitores digitais”.

“O profissional que trabalha na área do livro também consome esses conteúdos, esse é um processo de convergência e não de confronto de mídias, uma retroalimenta a outra”, e continua dizendo, “quando um livro é adaptado para uma série ele ganha uma nova leva de leitores, é um processo mútuo”.

Marc relembra que toda vanguarda é uma subversão do que é feito e das novas formas de arte, e na literatura isso não é diferente, atualmente essa vanguarda estaria nas novas formas de escrita e publicação que a internet trouxe, exemplos como Wattpad, rede social para leitores e escritores compartilharem suas histórias de forma gratuita e coletiva. Marc também cita a “found literature” como um exemplo dessa nova vanguarda, uma literatura baseada em juntar “partes” de diferentes fontes na internet como fóruns e redes sociais, para formar um novo sentido ao texto remodelado. “O códice tradicional é publicado a séculos, e continua sendo o modelo principal de se publicar um livro, porém atualmente ele está constantemente se colocando à prova, e que as feiras literárias são pontos de destaque para essas vanguardas em novas formas de projetos gráficos se manifestar e trazer visibilidade ao seu trabalho”, afirma Marc.

Essa vanguarda editorial no Brasil também aposta em outras formas de pensar as narrativas de suas histórias, autores nacionais surgem com relatos pessoais como formas de atrair leitores que busquem a obra por se identificarem com esses temas, como é o caso de Kah Dantas, a cearense publicada pelo Selo Editorial Aliás – focada na publicação de mulheres principalmente do nordeste brasileiro -, passou por um relacionamento abusivo e escreveu um relato sobre esse período que foi transformado em livro, de pequenos textos semelhante a um diário .

A autora Kah Dantas autografando o livro Boca de Cachorro Louco (foto: Gabriela Neves)

A autora de Boca de Cachorro Louco já escrevia desde a época dos blogues, na internet publicou seus primeiros textos, a jovem autora então decidiu que iria publicar seu primeiro livro, e em sua edição original “o Boca” era feito de forma totalmente artesanal, “eu ia nas gráficas, imprimia e depois costurava eu mesma a capa e as páginas, e fazia a divulgação do livro”, a autora nessa primeira edição chegou a vender cerca de 500 cópias do livro, mas afirmou que “foi uma experiência muito traumatizante” devido ao estresse que passou durante esse período. .

Dantas fala com alegria do momento em que encontrou o projeto da Aliás, e entrou em contato com editoras e autoras mulheres com um olhar de difundir literatura feminina nordestina. Dantas afirma que foi adotada pelo selo e por sua editora Dávila Pontes.

Dávila atualmente está focada em levar a escrita das mulheres do selo a um público maior de leitores, a meta é de se manter autossustentável realmente criar um mercado que se retroalimente, além de venderem outros tipos de produto que estejam relacionadas com a linha editorial e a mensagem passada pela editora, como moleskines, monóculos de fotos – que foram expostos no evento Choque Literário em São Paulo onde o Selo Aliás estava presente-, e até mesmo oferecendo oficinas de debate literário.

Outros editores também buscam expandir seus livros além das edições físicas ou digitais, Fernando Neves que é editor da Bandeirola, que possui uma linha editorial focada em “explorar a literatura”, Fernando explica essa ideia com o exemplo da música, uma banda gera álbuns mas também camisetas, canecas, acessórios, quadros e esse é o objetivo da Bandeirola com suas publicações, além de publicar livros de ficção, criar produtos que sejam extensões desses livros.

O autor e editor da Bandeirola Fernando Neves com seu livro As Louras da Minha Vida (foto: Gabriela Neves)

“A editora investe em criar produtos como marcadores ilustrativos, camisetas e gravuras que remetem às obras publicadas”, além disso a Bandeirola desenvolve o que chamam de “livro de anotações”,  são obras que contém trechos e ilustrações de obras como a de Dom Quixote mas que sejam abertas ao leitor completar aquele exemplar do livro como bem desejar. “No livro Eu e Cervantes ou Eu e Mário de Andrade, o intuito é que o leitor/autor, tenha seu espaço para escrever sobre a obra ou o que ele desejar que esteja escrito ali”.

Livro de anotações Eu e Mário Andrade (foto: Gabriela Neves)

“Experiência é a palavra da moda”, Fernando afirma que o que faz não necessariamente se encaixa como uma nova experiência, pois isso não é algo novo, o editor cita o movimento literário da poesia concreta como algo que já trazia alguma “nova experiência ao leitor”, e brinca “se essa palavra estivesse na moda na época, facilmente aquilo seria chamado de experiência”. Mas sem modismos, Fernando acredita que o faz é mais próximo de fazer “fruir” a literatura pelas obras publicadas e os produtos adjacentes a esses livros. É tentar fazer a literatura mais pop.

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