O poder e a importância da fotografia no universo musical

Como a junção de duas linguagens artísticas fortalecem a imagem de um músico

Na foto o vocalista Marcelo em show da banda Strike. Crédito: Luringa

Por Nádya Duarte

“Não existiriam redes sociais sem a fotografia”, aponta Lourenço Fabrino. Mais conhecido como Luringa, ele é fotógrafo e trabalha especialmente com bandas e músicos há mais de 10 anos e defende a ideia de que quando pensamos num artista do meio musical, pensamos também na imagem daquele cantor ou de uma banda, e é a fotografia que serve de ilustração da banda. Hoje com o boom das redes sociais que não param de crescer, percebemos o quanto somos relacionados com imagens o tempo todo, seja no instagram, no facebook ou no twitter. E os artistas são os que mais se beneficiam das plataformas para divulgar seus trabalhos,  seja um álbum, uma música nova ou até um show: a foto para ilustrar é primordial.

Toda a divulgação de um trabalho artístico hoje em dia, têm como parte a comunicação online com o público, e com isso o fator imagem é ainda mais importante. Para o músico Marcelo Mancini, vocalista da banda Strike, “hoje em dia não compensa lançar um single somente em áudio, é preciso ter o visual para gerar conteúdo e identidade”, e completa que é com a imagem que se consegue formatar um público alvo, mostrando o visual do artista para seus seguidores entenderem a proposta num todo.

Marisa Brito em performance. Crédito: Caio Brito

Marisa Brito, cantora com um projeto solo, diz que hoje é quase impossível você ser músico e não pensar nesse aspecto visual. “Não é simplesmente fazer uma foto, as pessoas ficam muito preocupadas em ter uma imagem bonita mas que não necessariamente transmite o que a música quer transmitir. É uma coisa a ser feita com cuidado. Relacionar essas linguagens artísticas diferentes bem aliadas, elevam o produto para outro nível e traz um retorno mais certo de público.”

Fotógrafo Luringa. Crédito: Nádya Duarte

Luringa acredita que a divulgação é de total relevância, e é o que sempre levou os artistas mais longe e fez toda essa ideia de mídia social existir. “Vem desse conceito, de ser uma vitrine, e quem se apoderou muito disso foram as bandas”. Paulo Sampaio, baterista da banda Dona Cislene, aponta que o trabalho audiovisual é tão ou mais importante que a própria música. Não só a foto, a produção de vídeos também é de extrema importância para os artistas para ilustrar uma música de modo mais detalhado, mas quando se trata de consumo no dia a dia, as fotos têm um impacto maior por ser o que se tem acesso a qualquer momento e em qualquer lugar.

Videoclipe produzido por Luringa da banda Dona Cislene

Paulo completa que “por meio de fotos e vídeos conseguimos mudar as sensações e conceitos que as pessoas têm de cada canção. Quando você ouve uma música, você sente e imagina algo. Quando você vê um encarte daquele trabalho ou um vídeo, suas percepções mudam”. Esse ato de se comprar um trabalho e observar um encarte vêm desde a época dos discos de vinil, na qual a compra do álbum fazia parte de todo um processo de consumo não só do áudio, mas da materialização daquele trabalho, no disco físico. Vemos como o tempo alterou isso quando conseguimos consumir a capa de um trabalho no Spotify quando abrimos a discografia de uma banda ou até quando estamos somente escutando uma faixa e já possuímos uma imagem para ilustrar aquela música de forma muito mais rotineira e rápida. Claro que a experiência é completamente diferente e uma foto numa tela pequena não elimina o valor da capa e um encarte de vinil ou CD, que apresentam mais de uma foto muitas vezes e têm todo um conceito por trás. Mas é notável a diferença que a tecnologia desencadeou nesse processo de consumo.

Fotógrafo Caio Rodrigues.

Além de ser fundamental para a divulgação de um artista, é uma ferramenta facilitadora para aproximar a comunicação entre fã e músico. Transmitir um momento da banda faz com que seu público se sinta parte daquele momento. “A pessoa sente um pouco do que às vezes não pode presenciar pessoalmente” conta Paulo. e completa: “eu piro vendo fotos dos artistas que gosto. A fotografia tem o poder de me fazer sentir mais íntimo dos que acompanho, como se estivéssemos mais perto.” O fotógrafo Caio Rodrigues, também focado no meio musical, concorda com a importância da linguagem da fotografia, e diz  “todo fã quer saber realmente o que acontece ali no momento do show, seja em camarim ou no palco. É massa poder contar isso com fotos e aproximar os fãs cada vez mais dos seus artistas preferidos”.

O acesso para receber o conteúdo de um artista também contribui, fazendo com que pessoas a quilômetros de distância, consigam se sentir dentro de um show, por meio de uma foto. “Dependendo do momento em que a foto foi tirada, ela consegue transmitir a emoção do momento, tanto para a pessoa que estava presente, quanto para quem não pôde comparecer”, diz Bruna Helloise, estudante que sempre acompanha os artistas que gosta nas redes sociais. Para Diana Lima, que também acompanha diariamente seus ídolos nas redes, “o registro de um show pode transmitir muito sobre como o artista se relaciona com seu público, quem acompanha consegue, através disso, saber um pouco mais sobre a personalidade do artista, sem ter comparecido a um show.”

Banda The Maine no Rio de Janeiro atendendo fãs. Crédito: reprodução

Diana lembra de ter se sentido próxima de sua banda favorita, The Maine, foi quando eles estavam no Rio de Janeiro e ela estava em São Paulo, e num dia de folga deles, foram para praia e os fãs descobriram onde eles estavam, e ao invés de saírem de lá, acabaram organizando uma fila e tiraram foto e conversaram com todos os fãs na praia: “essas fotos são importantes pra mim porque mostram a humildade e o carinho que a minha banda favorita tem pelas pessoas que os apoiam”.

“Nada melhor do que a internet para levar uma imagem que foi feita hoje para uma galera que lá do outro lado do país, não pôde ver ao vivo. Isso faz com certeza o público crescer”, completa Luringa e ainda afirma que a foto não só consegue “transmitir a energia de um momento,  não só de um show, mas de qualquer coisa que a fotografia registra. É a obrigação dela.” Marisa indica que “se uma foto consegue captar os melhores momentos de um show, faz com que as pessoas que não foram tenham muita vontade de ir no próximo”.


Paulo Sampaio em show da sua banda Dona Cislene. Dia da abertura da banda The Offspring. Crédito: produção Dona Cislene

Vale lembrar a importância, para um artista, de possuir um registro de um show marcante. Um evento especial no qual Paulo achou essencial a presença de um fotógrafo foi no dia em que sua banda, Dona Cislene, abriu o show da banda norte-americana The Offspring, que aconteceu em São Paulo e a plateia contava com 10 mil pessoas. “Que bom que existe o registro dessa noite tão incrível.” E essa relevância não é somente para o artista que está presente na foto, mas também é para o fotógrafo que registrou um momento marcante, como foi com Caio, que fotografou o último show da banda brasileira, Forfun, logo antes deles anunciarem o fim da banda: “foi uma realização fotografar os caras que passei minha vida inteira ouvindo.”

Show da banda Forfun. Crédito: Caio Rodrigues

A fotografia tem o poder de transmitir sentimentos, seja nas fotos de show ou nas de backstage dos artistas, com isso é um investimento fundamental, principalmente com o ápice das redes sociais, e não só com o valor de marketing mas também com o valor sentimental, tanto para o músico quanto para o fotógrafo. Paulo diz, “em uma fotografia congelamos o momento, um sorriso, uma expressão, uma atitude. Quem não esteve presente consegue sentir um pouco da atmosfera só de ver um registro.” Caio completa ainda, “com a expressão do artista, você vê a foto e sabe que o cara está entregue ali, naquele momento, fazendo o que mais importa para ele.”

Leave a Reply