Por Lara Guzzardi

O Brasil é um dos países mais machistas do mundo, como já vêm apontando diversos estudos nos últimos anos, e na área dos jogos não é diferente: milhares de garotas de todas as idades sofrem com o reflexo do machismo ao participar desse tipo de entretenimento. As mulheres já são a maioria no mundo dos videogames, representando cinquenta e três vírgula seis por cento desse universo em 2018, segundo a pesquisa anual encomendada pelas empresas Sioux, agência de tecnologia interativa; Blend New Research, empresa de pesquisa especializada em consumo; Núcleo de Estudos e Negócios em Marketing Digital da ESPM; e pelo Go Gamers, grupo de especialistas do mercado de games.

Apesar da presença sólida nesse ambiente virtual, as jogadoras ainda sofrem com falas de machismo, discriminação e assédio durante as partidas, proferidas geralmente por garotos que não as aceitam nesse ambiente considerado masculino. A jogadora de Overwatch, Fernanda Peixoto de 20 anos, relata que joga com bastante  frequência e passa diariamente por essas situações: “Quando o cara percebe que você é uma garota, ele começa a tirar sarro do seu modo de jogar e achar defeitos em tudo o que você faz no jogo. Uma vez, um cara começou a me importunar muito e os outros integrantes do meu time tiveram até que pedir para ele parar.”

Menina de 7 anos teve sua personagem “estuprada” em Roblox, um jogo multiplayer online, nos EUA. Fonte: Divulgação

Segundo uma pesquisa publicada pela Universidade estadual de Ohio em 2016, 100% das mulheres que jogam por pelo menos 22 horas semanais já sofreram algum tipo de assédio. É um número alarmante e, apesar da pesquisa ter sido realizada nos EUA, o mesmo cenário se repete no Brasil. Para escapar do preconceito diário, das cantadas e dos comentários tóxicos, várias gamers optam por apelidos masculinos ou sem gênero. Fernanda conta que já chegou a aderir a essa prática por medo: “Eu tenho conta em vários jogos com nickname masculino para evitar esse tipo de situação machista, porém acaba acontecendo mesmo assim. Meu apelido atual é mais neutro, mas eu não me arrisco. Meu perfil é bloqueado para quem não é meu amigo.”

Assim como Fernanda, a gamer e estilista de 33 anos Michelle Chieregatti, relata que, após deixar de usar a conta masculina que dividia há anos com seu marido para jogar, assumiu um nome feminino. Logo ela percebeu que o comportamento dos outros participantes homens começou a mudar: “Na nossa conta compartilhada, nunca recebemos nenhuma mensagem, conselho ou ofensa. Já na minha conta nova, em duas semanas, recebi uma crítica de um menino me dizendo o que eu devia fazer, como se eu não soubesse jogar. Foi aí que percebi a diferença.”

Para tentar combater a opressão e o abuso que as mulheres sofrem na indústria dos games foi criado o movimento #MyNameMyGame. A ação é liderada pela ONG Wonder Women Tech (WWT), que luta pelo empoderamento feminino ao redor do mundo. No Brasil, a iniciativa formou parcerias com grandes youtubers do país, cujos conteúdos são voltados para games. A proposta sugere que os criadores utilizem nicknames femininos enquanto jogam online gravem as partidas, para sentir na pele o que as mulheres passam em situações do tipo.

 

Campanha #MyGameMyName. Fonte: Divulgação

Muitas garotas, incluindo as duas jogadoras, se sentem inseguras diante do preconceito e acabam preferindo a alternativa de não utilizar microfones para interagir com os outros participantes. Entretanto, essa falta de comunicação com o grupo pode ser muito desfavorável para elas. A jogadora  Fernanda conta que costuma deixar todos os integrantes da partida no volume zero para não ouvir possíveis cantadas ou xingamentos proferidos por homens. Porém, por outro lado, acaba não ouvindo também as estratégias de seu time para abordar a equipe inimiga, sendo prejudicada durante o jogo.  

Entretanto, as empresas responsáveis por jogos online como Overwatch e LOL, estão se conscientizando cada vez mais e oferecendo opções de reportar ou banir jogadores que humilhem ou assediem os outros, em prol do bem estar na partida. Fernanda conhece esses recursos e afirma que, apesar de não responder as ofensas, costuma fazer denúncias toda vez que isso ocorre: “Eu sei que responder vai fazer o cara querer apelar para uma resposta cada vez mais machista, como me mandar lavar louça ou algo assim. Por isso, acabo fazendo o básico, que é denunciar para que tomem alguma medida e esse tipo de coisa não aconteça mais.”

 

Campanha #MyNameMyGame divulga frases ditas para garotas em partidas online. Fonte: Divulgação

Felizmente, parar de jogar nunca foi uma opção para as garotas, que preferem conquistar seu espaço e enfrentar o machismo do dia a dia a desistir de um hobbie que traz diversão e aprendizado para suas vidas. No Brasil todo estão se formando grupos exclusivos de mulheres que formam times e se unem para jogar à vontade. A estilista Michelle, que revela ter voltado a jogar só aos 30 anos de idade após ter contato com o movimento feminista, participa agora de um desses grupos femininos e conta que sua experiência melhorou muito: “Para aprender a jogar e obter várias dicas construtivas, só jogando com as meninas mesmo. A gente combina um horário para entrar online e fazemos um jogo legal todas juntas.”

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