Green Book e o racismo estrutural no cinema

Por Nádya Duarte

Como combater o racismo estrutural e quebrar o sistema de: “o branco fala sobre o negro”

 

No dia 24 de fevereiro de 2019 aconteceu 91ª premiação do Oscar e uma polêmica atingiu o filme Green Book, o guia, dirigido por Peter Farrelly, ganhador na categoria de melhor filme. O questionamento não era sobre a qualidade do filme e seu valor técnico, mas sobre o aspecto social do longa.

Outro filme nomeado na mesma categoria foi o Infiltrado na Klan, dirigido por Spike Lee. Ambos tratam de racismo, mas de diferentes pontos de vista. O crítico de cinema, Heitor Augusto (33), diz que “Green book é um filme feito para você, que é branca”. Para Augusto, trata-se de uma questão estrutural que sempre existiu na nossa sociedade porque tradicionalmente, a história de uma minoria é contada pela classe hegemônica; é exatamente o que acontece no Green Book.

Heitor Augusto. foto: Nádya Duarte

Outro aspecto a se pensar sobre o filme vencedor é a existência de um personagem “dono” do filme. Qual personagem tem o arco dramático? Em quem conseguimos ver todos os sentimentos e dramas internos? Quem é de fato o personagem principal? Novamente, o homem branco. Ou seja, é uma coisa recorrente, a história do negro é contada pelo branco.

Para Felipe Moraes, crítico de cinema que escreve para o Metrópoles, “trata-se de mais uma história sobre um personagem negro de inegável importância histórica em que o branco toma o protagonismo. Ainda mais grave: a trama vira nada menos que uma jornada de resistência política e artística do negro, constrangido por onde passa, do que oportunidade para o branco se redimir e se regenerar e, claro, defender seu chefe de virulentos racistas sulistas.”

Como quebrar esse paradigma? “Tomando vergonha na cara”, acredita Augusto. Para ele, muito mais importante que valorizar a representação dos negros no produto final (o que todos assistem), a verdadeira representatividade se legitima quando a diferença acontece também no backstage – lugar onde os negros ainda são minoria. É necessário que os grandes diretores ou responsáveis pela produção de Hollywood, tomem como inaceitável primeiramente a inexistência dos negros na produção de um filme. É preciso haver diversidade.

 O cinema é uma arte que quando questionada, pode combater questões de preconceito e minorias, como o racismo estrutural. “O cinema não pode nada, mas ao mesmo tempo, pode muita coisa”, diz Augusto. Podemos pensar em primeiro plano: quem vemos na tela do filme, qual personagem, que papel ele têm? É coadjuvante ou principal? Quem tem o arco dramático do filme? São algumas questões a serem pensadas.

Outro lado é refletir sobre quais conhecimentos nos são oferecidos: na história de um longa, a trama é contada por quem? Qual ponto de vista é evidenciado? Além desses questionamentos, é necessário que o público mantenha o interesse em algo que ele não é. Essa é a principal chave para combater não só o racismo estrutural, mas combater o machismo, a homofobia, entre outros preconceitos. A falta de interesse que causa a ignorância. É necessário manter o interesse por diferentes classes e pessoas para, finalmente, entender o lado de todos.

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