“Pantera Negra é um poço de contradição”

Crítico de cinema considera novos blockbusters identitários mero hype

Por Artur Ferreira

 

A indústria do cinema recentemente percebeu que os filmes mais representativos tanto em gênero quanto em raça, obtém lucros e visibilidade, ‘Capitã Marvel’ por exemplo obteve 455 milhões de dólares apenas nos três primeiros dias de exibição. ‘Pantera Negra’ fez 1,344 bilhão de dólares mundialmente em bilheteria.

A nova saga de filmes de Star Wars que também conta com um elenco mais diverso, fez respectivamente 2,066 bilhões e 1,321 bilhão de dólares nos filmes ‘Despertar da Força’ e ‘Os Últimos Jedi’.

Os lançamentos mais recentes de Hollywood vêm sofrendo mudanças em seus elencos e no método para casting de atores, e até mesmo no processo de direção. Filmes como ‘Corra!’ (255,4 milhões de dólares) do diretor Jordan Peele que também estreou seu mais recente filme ‘Nós’ e ‘Infiltrado na Klan’ (91,7 milhões de dólares) de Spike Lee trazem essa visibilidade a personagens negros em obras de gêneros como ação policial e suspense.

Porém surgem críticas de partes do público negro em relação ao uso desses personagens em histórias que possam ainda tratar de forma branda o racismo ou que sejam rasos na construção de personagens negros como foi o caso de Green Book, ganhador do Prêmio de Melhor Filme no Oscar.

Carol Danvers e Nick Fury no filme Capitã Marvel (Divulgação)

O crítico de cinema Heitor Augusto, que é especialista em cinema negro e escreve para veículos de diferentes países, quando questionado sobre o atual sucesso de produções audiovisuais que trazem a tona ao grande público debates de cunho político, afirmou que um filme pop como Capitã Marvel possui seu valor quanto a representatividade feminina: “eu não tenho como imaginar, como uma garota se sente ao ver uma mulher como protagonista em um gênero que não possui códigos femininos, porque é o gênero de filme de herói, não tem ‘heroína’”, porém em sua visão é uma obra cheia de “hype, oportunismo e paternalismo”

Heitor afirma que exemplos como o de This Is America, clipe musical que se tornou viral devido a sua gama de referências à história dos negros nos EUA, se diferem de filmes como Pantera Negra e Capitã Marvel, por ser “uma obra complexa, que ela pode se inflar com o hype, mas a expressão audiovisual do clipe não, não é hype” e continua dizendo “This is America é a expressão de um artista complexo [Donald Glover], é um artista complexo que tenta ‘complexificar’ nossa vida, no caso a de nós pretos”.

Cena do filme Pantera Negra (Divulgação)

Enquanto que “o filme [Pantera Negra] em si é um poço de contradição”, na visão do crítico essas obras que se alimentam do hype, são resultados de uma lógica de produção, estão todas dependentes de quem possui o dinheiro, daquele “que pode dizer: você sim e ele não” representando para essas obras um paternalismo e oportunismo econômico, para o crítico esse é um processo de “ganhos e perdas” constante.

Na fala de Heitor a lógica de produção transforma obras como Pantera Negra em um produto que se contradiz, para ele “Pantera Negra é a visão americanizada da diáspora [africana]”.

 

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