Estudioso de cinema critica Oscar de Green Book – O Guia: “Isso aponta para um cenário desastroso”

Por Vanessa Loiola

Heitor Augusto aponta o filme premiado como feito para pessoas brancas

Na 91ª edição do Oscar, Green Book: O Guia ganhou o prémio de melhor filme do ano. Além deste, o longa-metragem também recebeu mais duas estatuetas: de melhor ator coadjuvante, consagrando Mahershala Ali, e de melhor roteiro original. No entanto, em uma coletiva realizada na última terça-feira (26) o crítico de cinema Heitor Augusto apontou que a decisão dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas terem premiado o drama foi ruim.

A obra cinematográfica de Peter Farrelly retrata a história de Topy Lip, um rapaz branco e racista, que esteve à procura de um emprego provisório, após a discoteca Copacabana, em que trabalhava como segurança, fechar as portas. Então surge a oportunidade do personagem ser, durante uma turnê nos Estados Unidos, motorista e assistente de Dom Shirley, um conceituado pianista negro. A partir daí, mesmo com as adversidades, os dois criam um vínculo à medida que a viagem ocorre. Marcado pelo racismo e desigualdade dos anos 1960, o título faz  alusão ao guia de viagem que indicava os hotéis e restaurantes nos quais os afrodescendentes seriam aceitos.

Para Heitor, a consagração de Green Book: O Guia comprova um problema estrutural e histórico. “Os membros da Academia ao escolherem o Green Book como o melhor do ano, apontam para um cenário desastroso”, declarou o crítico na ocasião. De acordo com o estudioso, uma trama que possui temática racista, produzida por diretor e roteirista brancos, e que tinha fortes concorrentes como Infiltrado na KlanPantera Negra e Rua Beale Falasse, todos realizados por cineastas negros, indica que uma produção capitalista ainda precisa de avanços para que as minorias possam ser representadas.

E continuou: “Corpos subalternizados sempre tem a sua história contada pelo outro, pelo outro que detém hegemonia e é muito frustrante ter esse processo sendo repetido”. Heitor explica que os afrodescendentes não se sentem representados com a obra premiada: “Green Book não foi feito para mim [negro], ele foi feito para os brancos”.

A decisão de premiar Green Book também não agradou a Spike Lee, que conquistou sua primeira estatueta nesta edição pelo roteiro adaptado de Infiltrado na Klan, e em forma de protesto, ao ouvir o nome do campeão, se dirigiu ao fundo do teatro e permaneceu de costas, enquanto o discurso do vencedor era feito no palco.

Apesar da noite de gala em Hollywood ter sido marcada por polêmicas e desagrados, também bateu recorde de prêmios para profissionais negros, com sete estatuetas. Foram 15 para mulheres, com destaque para a atriz mexicana Yalitza Aparicio – de origem indígena e sem experiência com o cinema – que brilhou como protagonista de Roma, ganhador de melhor filme estrangeiro. É notável que está edição do Oscar trouxe maior representatividade, mas ainda há muito o que avançar.

 

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