Por Malu Souza

Era um sábado como outro qualquer. A garoa chata persistia desde quinta-feira, deixando tudo molhado sem nem ter a decência de encher os reservatórios de água da cidade.

Leo estava em casa aproveitando seu dia ao máximo, ele já tinha passado oito fases de seu videogame novo. Seu dia parecia ter tudo para ser perfeito, e foi aí que a luz acabou e sua vida de repente parecia não fazer sentido. Ele chamou sua mãe, esperando que ela resolvesse a situação de alguma maneira, mas ela só o mandou tomar banho e ir se arrumar, porque eles tinham que sair em uma hora.

Assim que ele entrou no quarto seu celular tocou em cima da mesa e ele se lembrou que nem tudo estava perdido, afinal, ele deixou o celular carregando a noite toda, poderia passar horas jogando sem se preocupar com a falta de luz. Não. 13% de bateria. O carregador estava quebrado e, agora que estava sem energia elétrica, não tinha como usar o dos pais.

Valéria, a mãe dele, mandou ele parar de choramingar e entrar logo no banho. Leo tomou a decisão de não ouvir música, para poupar a bateria do celular, nisso ele notou o quão mais rápido era seu banho sem seu épico show de canto e dança.

11% de bateria? Ele xingou o universo por ter perdido 2% de energia sem ter feito absolutamente nada além de checar a hora.

Valéria mandou o filho colocar o terno e ele se surpreendeu, tinha esquecido completamente do casamento de sua tia. Minutos depois, todos estavam prontos e dentro do carro, onde passariam duas horas até chegar no sítio onde seria a cerimônia.

Duas horas. O que Leo poderia fazer no celular naquele tempo de forma que sua bateria não acabasse? Nada. A energia foi para 10% só por ele ter pensado em usa-la. Ele perguntou para a mãe se podia usar o celular dela para jogar alguma coisa, a resposta foi não, já que ela estava com a lista do casamento aberta procurando um presente para dar para a irmã; seu pai lhe disse não antes mesmo de ele perguntar, porque ele estava sendo extremamente irresponsável e checando o Facebook enquanto dirigia.

Leo decidiu olhar pela janela, não ia fazer mal avistar uma vaquinha ou outra. Vinte minutos depois ele já estava lutando para manter os olhos abertos, quando ele estava prestes a ceder e dormir, mesmo sabendo que acordaria completamente dolorido, uma luz branca pareceu explodir no horizonte o deixando completamente alerta.

Seus pais, distraídos demais com os celulares, pareciam nem ter visto a aparente explosão, o que deixou Leo enfurecido. Como é que uma coisa de proporções como aquela acontece e eles não se dão nem ao trabalho de olhar? Ele gritou com os pais, para que eles olhassem antes que a luz se apagasse por completo, mas ninguém reagiu, era como se ele nem tivesse se pronunciado.

O fato de ele ter sido completamente ignorado fez ele se questionar sobre o que era a explosão de luz que tinha acabado de presenciar. Era o fim do mundo? Ele estava morto? Decidiu checar o celular no bolso. Não. Não podia estar morto, porque se vida após a morte fosse verdade alguém teria lhe garantido mais do que 9% de bateria.

Gritou com os pais mais uma vez só para repetir a frustração de ser ignorado.

Ele se perguntou se os pais o dariam atenção caso ele se comunicasse pelo universo onde eles pareciam estar presos, o celular. Pegou seu celular, que tinha jogado no banco minutos antes, criou um grupo de conversa com seus pais e mandou uma mensagem perguntando se eles viram a explosão. A mensagem não enviava. Ele não tinha sinal. Devia estar morto, fazia sentido já que ele obviamente não teria sinal para mandar mensagens para os vivos.

O que se faz quando está morto? Explora o mundo? Talvez ele devesse sair do carro e andar por aí em busca de coisas pra fazer, quem sabe têm um videogame o esperando em algum canto do mundo. Ele ainda estava em um carro em movimento e, sem saber se era possível sentir dor depois de morto, ele achou melhor esperar o carro parar para sair dele. Encostou a cabeça na janela e dormiu.

O susto que ele levou quando abriram a porta do carro e ele quase caiu para fora foi hilário, não para ele, mas seu pai estava claramente rindo. Seu pai estava rindo. Então ele não estava morto. Ou todos estavam mortos e acabaram no mesmo lugar que ele? Mas se todos estão mortos e foram colocados no mesmo, estão mortos mesmo?

Leo olhou o celular antes de sair mesmo do carro, 7% de bateria e ainda sem sinal. Decidiu deixar o celular no carro, não teria utilidade nenhuma.

O sítio estava todo decorado para o casamento, todos os convidados estavam sentados em seus lugares esperando o começo da cerimônia. Quando começou e os envolvidos no casamento começaram a andar até o altar Léo percebeu a quantidade de pessoas filmando o que estava acontecendo, vendo o momento através de uma tela e não com os próprios olhos, o que o deixou confuso. Será que ele também faria isso se tivesse com o celular?

A cerimônia começou, os noivos estavam em seus respectivos lugares e os convidados filmavam a cerimônia como se aquele fosse o trabalho deles. Foi nisso que Léo viu uma coisa estranha em frente ao pastor no altar, uma criatura que não parecia nem gente e nem animal, era meio esverdeado e tinha olhos grandes demais para o que parecia ser sua cabeça. Como é que ninguém estava filmando isso?

Ele chamou os pais, mas eles nem se deram o trabalho de olhar para ele. Então se levantou e caminhou em direção a criatura. Ninguém parecia incomodado com o que ele estava fazendo, era como se nem estivesse lá. Devia estar morto mesmo, talvez a criatura fosse seu subconsciente tentando representar algo.

-Deus? -Leo chamou convencido de que aquele era o começo de seu fim.

A criatura o olhou confusa e logo em seguida começou a rir, seus dentes afiados e de tamanhos irregulares complementavam seus olhos enormes de maneira assustadora.

-Qual é a graça? Eu estou morto ou não?

A criatura, que se apresentou como Beno, afirmou que Leo não estava morto e que ele não estava vendo Deus.

Ele estava falando com um alienígena? Sério, como é que ninguém estava vendo? Como é que ninguém estava filmando?

-Sou tão terráqueo quanto você. -Beno afirmou após analisar a confusão do menino.

A criatura explicou que o ser humano tem essa mania chata de não ver as coisas que eles não conhecem previamente. E não é que eles não sejam capazes de ver, é só que eles nunca estão prestando atenção o suficiente; sempre distraídos com algo relativamente banal.

Outra espécie vive no meio dos humanos completamente incógnita? Leo não acreditava. Ele prestava atenção nas coisas. Sabia que sim. De repente ele desejou estar com o seu celular, para poder registrar a criatura e mandar a foto para os amigos. Nisso, Beno sorriu para ele.

-Você está mesmo vendo as coisas quando as assiste através de um pedaço de vidro? E, se alguma coisa não for registrada, será que ela aconteceu de verdade?

-Que? Claro que sim! Eu vi, então aconteceu.

-Se eu te der seu celular agora você não vai precisar registrar então?

-Não ia fazer diferença, eu não tenho bateria nem sinal.

Beno estalou os dedos e o celular de Leo apareceu em suas mãos. O menino ficou impressionado com o acontecimento, mas logo se distraiu com o fato de ter 100% de bateria e todas as barrinhas de sinal, logo as notificações de mensagens começaram a chegar e, por um momento, ele esqueceu da existência de Beno.

-Leonardo, sai daí! Você está no meio da cerimônia! -sua mãe o puxou de volta para o lugar e, de repente, toda a atenção se virou para Leo.

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