Por Silvana Vieira da Luz

A vida é um eterno aprendizado, e há questões que são tão internas que somente um grande mergulho introspectivo pode esclarecer. Foi nessa busca pessoal, que resolvi participar dessa busca xamânica.

Era início de noite, a lua cheia clareava toda a mata quando cheguei ao local combinado. Uma fogueira já iluminava a clareira onde esteiras estavam estendidas e distribuídas de forma circular, escolhi uma e sentei-me. Era inebriante o cheiro de madeira queimada que se misturava ao cheiro do mato e contrastava com aquele lindo céu estrelado.

Um homem de rosto marcado pela idade, cabelos brancos e olhar distante tocava seu tambor e cantarolava canções indígenas aumentando a sensação de equilíbrio com a natureza, sentia o pulsar da terra enquanto outras pessoas queimavam ervas aromáticas, na sequência, foi servido o chá sagrado com gosto amargo e forte, porém sorvi feito remédio, já que era a  cura que eu tanto buscava, o tomei com reverência.

Deitei-me, em seguida, senti meu coração entrar em sintonia com as batidas do tambor, meus sentidos aumentaram e minha visão expandiu ao ponto de ver a aura luminosa da grama à luz da lua cheia. Fechei meus olhos e me entreguei às forças que me conduziam à uma viagem interior, me lembrei de amigos de infância, da escola, das brincadeiras de criança e muitas coisas que ficaram distante na minha estória de vida. Mas como o campo das lembranças é sinuoso, também pude ver os momentos de tristeza, aqueles que de alguma forma reflete hoje em forma de bloqueio psicológico ou trauma. Meu estomago embrulhou, levantei-me rapidamente e me afastei alguns metros do trabalho, procurei um local mais reservado onde um choro reprimido por anos tomou conta de mim e coloquei para fora tudo, tudo em forma de vomito, um vomito além do físico, deixei sair tudo o que me bloqueava, tudo que me impedia de ser feliz, dei vazão a todo sentimento ruim!

Quando me “limpei”, senti aquela leveza e percebi que estava abraçada à uma arvore e senti toda sua vitalidade, senti o pulsar da sua seiva percorrer o seu tronco como se eu fosse parte dela e pudesse absorver aquela energia que preenchia o vazio da limpeza que eu acabava de fazer. Sentei-me com as costas apoiada em seu tronco e continuei minha vivencia ali mesmo, onde me sentia segura como se uma velha amiga segurasse na minha mão.

Fechei os olhos novamente e novas imagens começaram a surgir em minha mente, era tudo muito real, como se eu estivesse sonhando, porém, eu estava totalmente consciente e acordada. Vi uma Senhora sentada à beira de um lago, me aproximei e a cumprimentei, fui convidada a sentar-me ao seu lado, ela me parecia tão familiar! Foi quando disse:

-Filha, você está bem?

Respondi:

-Um pouco confusa com tudo que vi, com todas as lembranças, com tanta coisa que ao meu ver fazia parte do passado, coisas que já estava enterrada, superada em minha vida!

Com aquele olhar sábio e com um leve sorriso ela me respondeu:

-Tem coisas na vida que nós “achamos” que está superado! Mas está em algum lugar bem escondido nos machucando, e para que a verdadeira cura aconteça, temos que vivenciá-la novamente e entende-la para expurgar da nossa vida, por isso o vomito! Ele foi mais simbólico do que físico, você percebeu, não é? Você sentiu um vazio, mas foi um vazio de alivio, não foi? Essa foi sua cura! Muitas coisas que você viu hoje e “colocou para fora” e talvez não tenha entendido, você vai entender no seu dia a dia, pois a cura não se limita ao dia de hoje, ela se estenderá por um tempo.

E por falar em tempo, ele é o grande mestre! Somente ele pode curar muitas feridas!

Agora sente-se à beira do lago e coloque seus pés na água, deixe-a energiza-la!

Sentei-me e pude sentir aquele frescor que subia por minhas pernas em forma de luz, foi como se eu absorvesse a luz da lua que refletia na água, me entreguei aquela sensação maravilhosa! Estava em um êxtase profundo, quando aquela senhora fala novamente ao meu ouvido:

-Abra os olhos! Veja seu reflexo na água!

Ao abrir meus olhos, pude ver no reflexo que minha imagem se fundia à da velha senhora, quando ela disse:

-Eu sou você amanhã! Eu sou a experiência de vida! Você viu todo o seu passado e se livrou das marcas negativas, agora eu sou a sabedoria do seu futuro que te diz que nesse exato momento você é responsável pelo seu futuro, que você tem uma página em branco do livro da sua vida todos os dias e você, somente você, tem a responsabilidade de escrever sua história! Então viva! Coloque toda a sua energia em viver bem, com boas escolhas, para quando nos encontrarmos novamente nossa conversa seja de missão cumprida!

Aos poucos aquela imagem foi mudando de forma e voltei a ver o meu reflexo novamente na água, porém, aquela senhora já não estava mais lá, mas eu sabia que ela estava em mim. Toquei o solo e me vi novamente sentada aos pés da grande arvore, levantei-me e voltei à fogueira onde a maioria das pessoas estavam deitadas, outras também vomitavam em lugares mais afastados, o velho pajé, agora tocava um maracá e soprava fumaça em algumas pessoas, deitei-me e pude sentir o calor da fogueira e assim como fiz com a água em minha visão, absorvi aquela energia gostosa, respirei fundo e absorvi aquele cheiro de ervas que vinham do cachimbo do pajé.

Acho que adormeci, pois quando acordei o dia começava a raiar e um cheiro delicioso de café invadia o ar. Me levantei sentindo uma sensação incrível de renascimento, tomei meu café em silencio e pensativa me lembrando de tudo o que acontecera, nunca imaginara que em uma noite eu resolveria coisas que anos de terapia não tinham feito! Me sentia livre! Dona do meu destino, me sentia inteira em todos os sentidos!

 

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