Por: Letícia Assis

As facetas que compõem o cenário da grande São Paulo são criadas a partir das pessoas que habitam nela. Dentre elas, o rap no vagão vem ganhando visibilidade. Um dos responsáveis por essa mudança é o coletivo WuTremClan que além de cair no gosto popular, também chamou a atenção da mídia.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Os integrantes dessa história vêm de todas as zonas, de Leste a Oeste, e representam um pedaço de cada batalha de mc da capital. Cada rimador pertence a um polo diferente e todos eles convivem em harmonia. A história de André Ciero, vulgo Jesus, caminha ao mesmo passo que o coletivo. Residente da Zona Norte de SP, resolveu deixar a vida de fotógrafo e passou a se dedicar exclusivamente para o rap, se tornando também um dos fundadores do grupo “Rimadores do Vagão”.

Assim como Kagibre, de 23 anos, que encontrou no coletivo a alternativa de ganhar a vida e ainda conciliar com o que ama, levar arte para as pessoas. Usando seu dom de fazer beatbox – sons vocais do hip-hop – ele encontrou no grupo sua verdadeira vocação. “Sou formado e Marketing e trabalhei com CLT desde os meus 15 anos. Eu tinha uma carreira estável, só que não era feliz, essa era a verdade. Estava vendendo meu tempo para o sistema e ao mesmo tempo não fazendo algo que eu gosto”, afirma o rimador.

O coletivo

O coletivo surgiu da fusão entre a necessidade de ganhar a vida e do prazer em fazer o que gosta, a rima. Durante uma batalha de mc’s da Praça Roosevelt, Ciero e alguns integrantes do grupo conheceram o “Mc do Trem”, um homem que fazia rimas nos vagões do metrô do Rio de Janeiro e que tinha muito sucesso com isso. Após uma conversa, esses rimadores começaram a fazer sessões de free style – rima improvisada – no trem.

O nome foi criado por dois dos integrantes, Kauan e Kauê. A inspiração veio do “Wu-Tang Clan”, grupo musical de rap que teve sucesso nos EUA na década de 90. O coletivo brasileiro adaptou para “Wu Trem Clan – rimadores do vagão”, fazendo uma alusão ao fato deles mostrarem sua arte pelos vagões do metrô.

A imagem pode conter: 7 pessoas, atividades ao ar livreIntegrantes do Coletivo WutremClan.           Reprodução: Facebook

Ciero esteve presente no grupo desde sua fundação. Após um ano de rima nos vagões, esses artistas notaram a necessidade em se organizar de forma a construir uma estrutura que desse suporte a eles. Através de vídeos amadores, feitos por eles mesmos, começaram a divulgar nas redes sociais e com isso vieram os primeiros fãs. As pessoas começaram a reconhecer eles.

Foi nesse mesmo ano que o grupo cresceu e admitiu como integrante Kagibre, que acrescentou as rimas fazendo beatbox. O beat esteve presente na vida do paulistano desde a infância. Quando estava na quinta série estudou com um menino que era surdo. Esse mesmo garoto emitia sons com a boca em tons mais graves, foi então que o rapper passou a se comunicar com o colega através desses mesmos sons. Desde então, Kagibre nunca mais parou de aperfeiçoar.

Em seu primeiro vagão, feito junto com Ciero, Kagibre ganhou uma nota de cinquenta reais e afirmou que foi nesse momento que percebeu que não se encaixava em um emprego convencional. “Eu não queria me vender, não queria fazer o que meus amigos e familiares faziam. Entendo que as pessoas fazem o que fazem porque precisam de dinheiro, mas aquela vida não era para mim”.

Hoje o coletivo conta com onze artistas. A WuTrem Clam virou uma família, é dentro do grupo que eles se sentem bem. Todos vivem exclusivamente do rap, não há outra fonte de renda, e para se sustentarem é preciso estar todos os dias no metrô. “A gente tá indo para o metrô buscar palco porque não tem palco pra gente. Nós estamos olhando e percebendo que é só aqui que está a nossa plateia”, pontua Ciero.

Pelas linhas

A imagem pode conter: céu, nuvem e atividades ao ar livreLinhas da CPTM.                      Reprodução: Facebook

Os rimadores foram os primeiros a fazerem música no metrô. “Há dois anos, quando eu comecei, não tinha ninguém fazendo arte nos vagões. Ninguém dançava ou cantava, nem mesmo tocava violão. O máximo que se ouvia falar era do pessoal do nordeste que fazia poucas aparições com o Repente – estilo de música baseada no improviso”, afirma André.

Atualmente se nota a explosão de artistas que ganham a vida fazendo arte nos vagões. As coisas estão mudando, o modo como o metrô lida com os músicos está se transformando. Não só a visibilidade está aumentando, mas o metrô também está investindo mais em segurança e fiscalização sob o comercio dentro dos vagões.

Por conta da grande mobilidade permitida pelas integrações das linhas dos metrôs e da CPTM, os rimados têm a sua disposição todas as linhas possíveis para espalhar sua arte. Por serem linhas públicas, a circulação dentro dos vagões se dá de forma amigável, até mesmo quando são pegos e convidados a se retirar, o episódio acontece de forma pacífica. Mas especialmente na linha amarela, uma linha privada, o relacionamento se torna um pouco mais complicado.

Por não pertencer ao governo, a linha amarela tem seu próprio sistema de segurança. Além do maior número de câmeras e tecnologias disponíveis para a monitorização das estações, a segurança é feita por uma empresa privada. Dessa forma, quando um guarda encontra algum rimador trabalhando na linha ele acaba por usar de sua autoridade, criando uma situação desconfortável para o artista.

Nas demais linhas, pertencentes ao governo, a segurança é mais falha e os próprios guardas mais amigáveis. Existem até mesmo casos de guardas à paisana que ao encontrar os rimadores nos vagões contribuem para o trabalho deles.

O sensacionalismo da mídia: de pedinte profissional à artista.

A relação com a mídia é uma via de mão dupla. Embora alguns programas ainda queiram fazer sensacionalismo como se eles fossem jovens que não tiveram opção, a grande maioria dá visibilidade para eles e mostra o verdadeiro lado do rap nos vagões.

O Programa da Fátima Bernardes acrescentou coisas boas nas carreiras dos rimadores. Depois de aparecerem em rede nacional as pessoas passaram a gostar e reconhecer o coletivo. “É preciso que a mídia mostre para as pessoas que realmente está dando certo, se não elas não acreditam. É triste, mas é a realidade”, afirma Kagibre.

A brecha deixada pelos holofotes em cima dos rimadores abre portas para que eles mostrem a verdade por trás da história de cada um que está em busca desse sonho. “Estou aqui porque escolhi essa vida, poderia muito bem arranjar outro emprego. Se eu estivesse com CLT hoje teria uma carreira muito estável. Só que isso não era o que eu queria”, reitera Kagibre. Nenhum dos rappers está na rima por falta de opção, todos estão por escolha, pela arte.

A frase dita pela mãe de Kagibre deu motivação para o garoto seguir atrás do que ama: “Se você não for capaz de correr atrás dos seus sonhos, alguém vai te pagar para correr atrás do dele”.

Passa passageiro, passatempo.

A relação entre rimadores e passageiros é peculiar. À primeira vista as pessoas ficam com a cara fechada, continuam fazendo suas atividades pessoais, como ler, escutar música e conversar. No entanto, ao soltar os primeiros versos surgem sorrisos e feições amigáveis por todo o vagão, em poucos segundos eles conquistam o público.

O clima que os rimadores levam para os vagões é revestido de muita alegria e coisas positivas. A pessoa que está tendo um mau dia, ao se deparar com alguém do coletivo, ganha uma nova perspectiva e isso faz com que o seu caminho até o trabalho seja mais alegre.

A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas sentadas e pessoas em péColetivo WutremClan nos vagões.       Reprodução: Facebook.

As rimas que falam de características dos passageiros é uma forma amigável de aproximação. Não são insultos, ofensas, piadas de mau-gosto e muito menos inapropriadas. Pelo contrário, as rimas brincam desde um senhor de idade que está voltando de uma consulta médica até uma criança que está a passeio com os pais.

O repertório criado pelos rimadores é amplo e bem-humorado, transformando a viagem muito mais alegre. Falando de desenhos infantis e contagiando as crianças, os rimados conquistam a confiança dos pais e logo dos demais presentes ali. Não há malícia no rap, há apenas positividade.

Até mesmo os ambulantes, conhecidos como marretas, gostam das rimas feitas pelos mc’s. Há as regras de boa convivência, que tornam o ambiente propício tanto para o comercio quanto para a música. A convivência se faz de forma tão harmoniosa que até mesmo alguns marretas se arriscam a rimar perto deles e fazem diversas brincadeiras.

Trilhando caminhos para além dos vagões

É com toda essa positividade que o coletivo encara a rima do metrô como uma fase. Não necessariamente como algum ruim, do qual eles querem se livrar, mas como um episódio de toda a jornada que eles têm para conquistar seus objetivos. Paralelo ao rap no metrô, o coletivo tem outros sonhos. Todos compõem e lançam suas próprias músicas com o intuito de conseguir mais contratos e ascender na carreira.

“Essa fase automaticamente vai passar. Cada dia que passa o coletivo fica mais organizado”, conta Kagibre. Ele também relevou que quando entrou sugeriu para que o coletivo de organizasse em uma estrutura sólida. Para isso acontecer, ficaram durante um ano sem deixar entrar mais rimadores, para assim fixar a função de cada um dentro do grupo.

Hoje, o coletivo é dividido em departamentos, cada rimador é responsável por um setor que visa o bem do coletivo. “Mas vai chegar uma hora que teremos que contratar um profissional para cuidar da nossa imagem, de alguém que não tenha ego de artista”, afirma Kagibre.

As pessoas sempre duvidaram do futuro do coletivo. Elas sentem medo pelos integrantes e sempre os rodeiam com perguntas duvidosas sobre o futuro do grupo. Mas para os próprios rimadores essa dúvida não existe, quando olhando de onde saíram e até onde chegaram, eles percebem que já deu certo.

Assim como na matéria da Fátima Bernardes, que abordava o tema “O que as pessoas fazem para deixar as outras felizes”, os rimadores fazem o que gostam e o que sabem, levando ao mesmo tempo alegria e coisas boas para outras pessoas, deixando o dia delas melhor com a sua arte.

Leave a Reply