Por Carolina Giorgi, Maria Beatriz Santos e Nathalia Alcoba   

O avanço tecnológico exige políticas mais eficazes de inclusão no mercado de trabalho

Um programa de computador com a intenção de identificar o potencial de reincidência criminal, nos Estados Unidos, ficou conhecido como um maiores casos de racismo apoiados em tecnologia. Investigado pela agência ProPublica, o sistema – que auxilia a Justiça na concessão de liberdade condicional – mostrou que os negros possuem uma maior probabilidade de voltar a cometer crimes em comparação com brancos.

Entretanto, os números encontrados na investigação mostram o contrário, dos réus negros classificados como “alto risco” pelo tribunal americano, cerca de 44,9% não reincidiram, enquanto que em torno de 47,7% dos réus brancos de “baixo risco” voltaram a cometer algum tipo de crime.

Por mais que o mundo esteja vivendo nos últimos 10 anos um processo de popularização da tecnologia, ainda é raro encontrar negros que fazem parte deste mercado, segundo os dados do relatório National Urban League dos Estados Unidos, publicado em maio deste ano, apenas 5,8%. Isso reflete em casos como o apresentado acima, onde o sistema possui um comportamento racista por ter sido construído em um ambiente similar.

Casos como esse, de discriminação através da tecnologia, não são raros. Uma presença maior de profissionais negros nessa área poderia ajudar a corrigir isso. Mas, infelizmente, o peso deles nesse mercado é menor que sua participação na população.

Joi Ito, diretor do Media Lab do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, criticou esses sistemas construídos apenas por homens brancos e o fato de estarem usando isso em diversos setores e para tomada de decisões. “Estou muito preocupado porque algoritmos só estão reforçando preconceitos e criando um sistema injusto em termos de desigualdade social. Seguro de carros, plano de saúde estão usando algoritmo e o resultado é injusto com os negros e os mais pobres”.

Camila Carrera, programadora da Thoughtworks, uma empresa de consultoria global de tecnologia da informação, enfrentou dificuldades para entrar nessa área. Por muito tempo, não acreditou que teria uma oportunidade.  “Eu não imaginava que um dia pudesse ser levada a sério dentro da área. Se eu já não via muitas mulheres na área, imagina mulheres negras e de origem periférica como eu”, afirma.

Para a Tatiana Boulhosa, graduada em História na USP, “quanto mais pobre e mais marginalizado for um grupo, menos chances ele tem de acessar os meios através do qual pode suplantar a pobreza”. A população negra nunca foi inserida na sociedade de maneira igualitária. Embora contem com algumas políticas de ação afirmativa, como as cotas universitárias, ainda têm dificuldade de acessar determinadas profissões.

“A falta de oportunidade nos estudos contribui para a falta de negros neste mercado, até porque a maioria dos cursos são extremamente caros. Não vejo mudança neste cenário enquanto o acesso não for mais justo e igualitário”, afirma Dauana Souza de Oliveira, estudante de Tecnologia da Informação.

Sistemas desenvolvidos em uma sociedade segregada acabam se tornando também preconceituosos. Outro exemplo disso aconteceu em 2016 quando a empresa Microsoft lançou um sistema de Inteligência Artificial chamado Tay, para interagir com os usuários do Twitter. A partir do momento em que as pessoas começaram a enviar mensagens com conteúdo de caráter discriminatórios, o sistema aprendeu como elas e passou a reproduzir tuítes com teor antissemita, antifeminista e racista.

Diante desse contexto, o time brasileiro da ThoughtWorks criou o projeto Enegrecer. Liderado por colaboradores negros, tem como objetivo combater o racismo nesse mercado, com foco no compartilhamento de histórias e conhecimentos de pessoas negras da empresa, além da divulgação do que estão construindo em prol da diversidade racial. A diretora de marketing da ThoughtWorks, Natália Menhem, explica que o projeto Enegrecer Recrutamento Expresso atua na inclusão de pessoas negras na tecnologia, principalmente no Estado da Bahia, como foi o caso da programadora Camila Carrera.

Outra organização social que procura democratizar o mercado tecnológico é o Olabi que, em 2017, criou o PretaLab,. O objetivo do projeto é estimular que a sociedade civil comece a considerar a questão da diversidade como uma pauta importante a ser abordada e aplicada para a criação de uma sociedade mais igualitária.

Silvana Bahia, diretora do Olabi e idealizadora do PretaLab, diz que durante sua carreira passou por muitos lugares e sempre percebia que era a única mulher negra. Diante disso, passou a trabalhar com o foco em estimular mais as mulheres negras a terem a oportunidade de experimentar, entender e fazer parte do universo tecnológico.

O PretaLab divulgou, neste ano, o resultado com os dados brutos que colheram revelando que mulheres negras existem e fazem a diferença nesse meio, mas a chance de mostrar o seu trabalho é dada para poucas.  Silvana aconselha, como solução, que as equipes de contratação das empresas saiam da zona de conforto e comecem a investir em novos espaços e profissionais para construir equipes diversificadas.

 

 

 

 

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