Por: Ulisses Lopresti, João Pedro Polido, Alexandre Simoni

 

O Centrão de São Paulo é o palco da transgressão. Há ecossistemas completos em uma mesma esquina. É ali, pelas noites, que os mais diferentes tipos de pessoas festejam. É no Centro que surgem movimentos emergentes de grupos marginalizados usando o espaço público para evidenciar suas idéias e experiências. Tribos e classes sociais se aproximam e é lá que qualquer um pode ser visto. Por isso, tornou-se um ponto de encontro daqueles que são muitas vezes marginalizados: prostitutas, punks, skatistas, gays, rappers e travestis.

 

Há alguns anos, um novo movimento cria forma. Mais colorido que rappers e skatistas, tão radical quanto um bate cabeça punk e totalmente livre de preconceitos, os eventos de techno underground estão tomando conta da região com coletivos que organizam festas de música eletrônica, tanto em espaços públicos como privados.

 

A Vampire Haus começou há cerca de quatro anos atrás da Praça Ramos de Azevedo, no Vale do Anhangabaú, como uma forma da comunidade LGBTQ+, assim como drag queens, se juntarem no espaço público em resistência. Com a popularização do evento, as festas passaram a ocupar também espaços privados, começando na rua e migrando para outro ambiente. A entrada normalmente não é cobrada, e se for, travestis e bikers não pagam. A renda vem principalmente da venda de bebidas, que não são nada baratas.

Vampire Haus consiste em um “Way of Life” manifestado no formato de Rave pós contemporânea urbana de VAMPIRE TECHNO, baseado nos princípios do “faça você mesmo” e de Rave (inclusão) , e da Rav (existência).” VAMPIRE HAUS E CASAL BELALUGOSI

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A Xá e o Mullet

 

Já são duas horas da tarde, mas Rafael acaba de acordar e seus olhos não apresentam olheiras. Está preparado para a festa que se arrastará pela madrugada. Ele tem uma lista de tarefas para o dia: escolher a roupa, alimentar-se e comprar drogas. Aos 23 anos, Rafael Becker frequenta o techno underground de São Paulo há tempos, atraído pelo caráter “livre” dos movimentos.

 

Camila Caldas é fotógrafa e com seus olhos de lente se entretêm com as cores vibrantes e as performances que ocupam os palcos. Em sua casa na Vila Clementino, a jovem apara a cabeça raspada e procura por brincos grandes e laranjas para compor a vestimenta. Para ela, o vestuário é um dos principais traços da Vampire Haus:

 

“Esses rolês começaram na rua, partindo das travestis e transgêneros. Por isso, as maquiagens, tintas, vestidos e cores se tornaram uma característica de quem frequenta. É um aspecto de liberdade e identidade. Você veste o que quiser e quanto mais extravagante e diferente, mais bela a festa fica.”

 

Camila não encontrou os brincos laranjas, mas usou peças prateadas que ligavam as orelhas ao nariz – como o xá persa Xerxes, na adaptação “300”. Vestia também roupas de veludo rosa e uma calça de tom frio e roxo. Ela tinha muitos colares adornando o pescoço e uma bolsa colorida cheia com maços de cigarros. Rafael não conseguiu vê-la antes da noite, mas certamente apreciaria seus trajes. Ele trabalha como figurinista nos dias de semana e tal qual Camila, enxerga o significado das roupas e cores na festa:

 

“As pessoas aproveitam para impactar com o figurino. O que você não vestiria no dia a dia, na festa você tem a oportunidade de vestir e lá topará com uma galera tão colorida quanto.”

 

Rafael usa o penteado mullet e tem as unhas das mãos pintadas com um esmalte preto – um piercing no rosto, roupas largas e botas completam sua maneira de se vestir. Ele tem também uma característica única: o gosto pelo conhaque Dreher. Embora bebidas alcoólicas fossem vendidas na festa, Rafael levava debaixo do braço sua garrafa de dez reais.

 

Os DJs marcam o ritmo do techno. A festa começa na rua, das seis da tarde às dez da noite, tradicionalmente no Vale do Anhangabaú, na “ponta do grelo da Praça Ramos” – como a organização aponta no evento do Facebook. Às dez horas, o movimento migra para dentro de um galpão, tomando a madrugada. Performances ocupam os palcos, a música aflora a euforia e mesmo participando da mesma balada, Rafael e Camila têm opiniões diferentes quanto os arredores:

 

“Quem frequenta a festa está lá para curtir. Pegação, libertinagem… Tudo é livre e as cabeças não são fechadas”, diz Rafael. O figurinista pensa nas performances sensuais, no amor livre e na própria festa como ferramenta de resistência. Ao ver as pessoas por todos os lados se afeiçoando sem pudor, sente que ali está uma arma apontada para o conservadorismo. Camila, entretanto, discorda:

 

“As pessoas se pegam na Vampire Haus como em qualquer outra balada. Eu vejo os nus nas performances como arte, não libertinagem. Qualquer festa terá gente se beijando. O que vejo aqui é mais diversidade e respeito. Acho que o homem tem essa disposição a chamar de luxúria todo o espaço que tem muitas pessoas do mesmo sexo se curtindo ou apresentando o nu artístico… Quando beijar é tão natural.”

 

Autodenominadas vampiras, o público da festa techno busca realizar um espaço para a manifestação do ser humano, sem brecha para o cerceamento. “O rolê é para todos. Façam o que quiser, sejam o que quiser, mas respeitando o que o outro quer fazer ou quer ser.” O lema da festa já rendeu uma fama para os eventos. O bloco de carnaval “Putas Vampiras” concentrou 20 mil pessoas nas ruas e as raves gratuitas contam com um público de 2 a 3 mil pessoas.

 

O aumento no número de participantes, entretanto, causa alguns desconfortos. Na noite de Camila e Rafael, um homem foi expulso da festa, gesto que ambos os jovens concordaram:

 

“Eu estava longe, então não consegui ver o cara, mas a DJ parou a apresentação para chamá-lo diante de todos, afirmando que via o que ele fazia. Provavelmente estava tentando agarrar uma menina e foi expulso. Ele ainda não quis sair na boa. O segurança teve que intervir e arrastá-lo para fora”, contou Rafael.

 

“A DJ foi ‘certíssima’. Assim que ela apontou para o garoto, o público já quis partir para cima do cara, mas ela não deixou. Sem bater, sem bater! A DJ gritava só para ele ir embora e sem violência. Ela disse que aquele rolê não era para ele e que ninguém sentiria sua falta ali, mas que não continuaria a música até que ele saísse da festa. O cara tentou se justificar, mas foi expulso. Era injustificável, ele estava em cima da menina com agressividade.”

 

Camila concordava com a DJ. A festa das vampiras não era um evento para um homem como aquele. Ao tentar se impor sobre outra, ele tinha assassinado o cerne da Vampire Haus – um movimento de resistência. O homem foi embora e a festa continuou, sem sentir a sua falta, afinal o evento já completa quatro anos e ruma estrondosamente para o quinto. E Camila e Rafael já se consideram vampiras da resistência.

 

 

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