Visibilidade Midiática e Potencial Esportivo

Destrinchando o desenvolvimento do surfe no Brasil

Por Daniel Yazbek e Giovanna Cicerelli

 

O título de campeão do circuito mundial WSL (1ª divisão da elite do surfe) conquistado por
Gabriel Medina e Adriano de Souza (Mineirinho) abriu espaço para que a nova geração, chamada de
“Brazilian Storm”, do surfe brasileiro fosse reconhecida como como potência mundial. A visibilidade
dos atletas aumentou junto com o desenvolvimento da comunicação proporcionada pela internet .
Contudo, os problemas de acesso a patrocínios e outras formas de incentivo continuam.

Lucas Prieto, surfista profissional e técnico de surfe, conta que o acesso ao
patrocínio na era da internet tem seu ônus e bônus. “Algumas marcas que respiram o surfe no Brasil
não apoiam profissionais e optam por surfistas que estão mais na mídia.” Isso, segundo ele,
atrapalha o atleta que batalha para estar nas competições.

Foto: Gustavo Dutra – Lucas Prieto após surfar

O técnico também diz que o lado positivo sobre a relação entre o desenvolvimento da rede e
a visibilidade dos atletas é “que hoje o patrocínio muitas vezes é baseado em empresas que não são
do surfe, mas acabam apoiando o esporte”.

Já Edinho Leite, ex-editor-chefe da extinta revista Fluir, afirma que as marcas pouco se
interessam por atletas e eventos que não sejam do circuito mundial. Segundo ele, há poucos
veículos de comunicação que atuam ramo, especialmente no meio impresso. “Hoje só tem a revista
Hardcore que pode dar visibilidade para alguns atletas, mas, na verdade, a mídia só impulsiona
quem ela tiver interesse.”

Foto: Acervo pessoal – Edinho Leite durante a feira The Board Trader Show 2017

Para ele, a formas para exposição midiática existem e estão em sua maioria na região
Sudeste, como o circuito colegial “A Tribuna”, bancado pelo jornal e TV Tribuna de Santos. Edinho
explica que o evento tem uma boa audiência, o que não é regra entre as competições de base,
amadoras ou profissionais. O presidente da Federação Paulista de Surfe (FPS), Silvio da Silva,
organizador de competições no Estado de São Paulo, garante que “qualquer atleta que se destaque
em nossos eventos terá, com certeza, uma grande atenção na mídia”.

Edinho também lembra que um dos primeiros brasileiros vitoriosos, campeão do circuito
mundial WQS em 1992 (2ª divisão da elite do surfe), Teco Padaratz, não conquistou nenhum título
antes de se tornar profissional, o que ocorreu depois de dez anos de investimentos de sua família e
marcas. Na época, segundo Edinho, “o Brasil teve o que foi considerado o melhor circuito
profissional nacional do mundo”.

Embora a administração e credibilidade do antigo circuito não sejam mais as mesmas, o
jornalista afirma que, para os surfistas, ainda é um caminho fundamental a ser percorrido. “Temos
algumas marcas que, há anos. financiam o circuito, como pro-junior [categoria até 18 anos], que foi
a base dessa geração do ‘Brazilian Storm’. Claro, com a dificuldade financeira, isso perdeu força,
mas ainda existe um circuito bem interessante para os atletas.”

A fim de diminuir as dificuldades dos atletas, as Leis de Incentivo ao Esporte (municipais,
estaduais ou federais) surgiram para ajudar no estímulo à prática no Brasil. A própria Confederação
Brasileira de Surfe (CBSurf) foi criada através da lei federal que determina que uma prática
reconhecida como esporte tenha verba destinada à sua confederação ou federação representante.

Foto: Arthur Monteiro – Lucas durante aula na praia de Riviera de São Lourenço, Bertioga – SP

Para Lucas, o que torna possível o patrocínio, privado ou público, é o atleta ser bem
sucedido. “Existem muitos com alto potencial, porém muitas vezes, o atleta precisa ser um sucesso
primeiro para depois as empresas, o Estado em si ou a cidade onde ele mora ajudarem.”

Alguns órgãos públicos são, de fato, atuantes no estímulo ao esporte com seus editais, como
a cidade do Guarujá, que patrocina profissionais, e São Sebastião, que os apoia. Porém, segundo
Lucas, o incentivo determinado por lei alcança poucos surfistas. “Essas emendas, quando vêm para
o atleta, chegam muito desfalcadas e não totalmente direcionadas.” Já, o presidente da FPS
dispensa este meio de arrecadação de recursos: “Graças à nossa credibilidade, dificilmente
procuramos as Leis de Incentivo ao Esporte.”

A CBSurf, por sua vez, hoje também é ligada ao COI (Comitê Olímpico Internacional), após a
inclusão do surfe na lista de esportes disputados nos jogos. A missão é mandar equipes para
competir fora do país, o que não foi feito no caso das classificatórias olímpicas realizadas no Japão
em Setembro de 2018.

O time brasileiro não foi inscrito no prazo para competição nem enviado para a primeira
etapa classificatória de surfe para Olimpíadas de Tokyo 2020. Edinho avalia o episódio como uma
“bagunça” e desorganização por parte da CBSurf e diz que “havia o dinheiro, mas não usaram”.

Logotipo da CBSurf

Diante da confusão no Brasil, surfistas profissionais, como Filipe Toledo e Adriano de Souza,
optam por morar nos Estados Unidos, uma vez que não encontram mais possibilidade de evolução
da performance e do rendimento em seu país natal. Lucas atribui a evasão de atletas a questões
políticas, falta de incentivo, desinteresse dos patrocinadores e à dificuldade de se manter treinando
em alto nível no Brasil.

Na opinião dele, nos EUA, quando uma criança apresenta um talento na infância, ela recebe
o apoio da família e de marcas, desde as categorias de base. “O que falta ainda no nosso país, e que pode ser copiado da Califórnia, é ter mais etapas do amador, pro-junior e profissional, o que ainda é
muito precário e caro para o surfista.”

Edinho lembra que o mundo inteiro tem atletas cada vez melhores se desenvolvendo, cada
vez mais cedo. “Agora, se serão bons profissionais ou não, isso é bem difícil de apostar.” Também
diz que o trabalho de um técnico na condução do surfista é essencial. Segundo ele, o caso da
passagem de Adriano de Souza, da base ao profissional, é um exemplo a ser seguido.

Edinho elogia, principalmente, o trabalho realizado pelo agente e técnico do surfista, Luís
Campos, também conhecido como Pinga. “Esse cara soube planejar a vida dele [Mineirinho]
profissional e criá-lo de uma maneira, dentro do esporte, que se mantém até hoje. Todo o sucesso
que ele tem é devido a esse planejamento e trabalho desenvolvido por eles.”

Foto: Reprodução Instagram @neco_carbone – Pranchas (blocos de isopor) em processo de produção

Neco Carbone, experiente shaper (fazedor de pranchas) e designer do Guarujá, resume o que é, em sua
opinião, a melhor forma de preparar um atleta: “Trabalho de base, desde cedo, com simulações de
baterias, preparação física e psicológica, além aprender idiomas e surfar a maior variedade possível
de ondas”. O shaper também reitera que o equipamento é fundamental para o sucesso do atleta,
mas que “poucos procuram entender a fundo o funcionamento das pranchas e assim saber
desenvolver os modelos ideais para eles e para as condições adversas de onda que vão surfar.”

O custo total é alto. Equipamento, técnico, viagens e hospedagens demandam incentivo
financeiro que não é acessível à todos, principalmente à classe mais pobre. O patrocínio é ainda uma
barreira para atletas que têm potencial, mas não visibilidade midiática.

O país com 7.367 km de extensão litorânea vê seus ídolos partirem para o exterior,
enquanto as promessas locais ainda são desvalorizadas.

Leave a Reply